Distinguidos cinco projetos que usam jogos e tecnologia para ensinar

Conferência sobre inovação pedagógica, na Universidade de Coimbra, aponta caminhos revolucionários para a aprendizagem

Foi durante uma conferência para debater novos métodos de ensinar e aprender, ocorrida esta quinta-feira, 10 de setembro, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, que ficaram conhecidos os cinco projetos merecedores dos Prémios Santander-UC de Inovação Pedagógica. Os premiados, que recebem o apoio financeiro do Santander Universidades, resultam da iniciativa de professores que usaram jogos, vídeos, programas de chat e até os “irritantes” telemóveis nas aulas para criarem métodos de ensinar mais próximos dos tempos que correm e dos alunos.

“Inovar Pedagogicamente: Significado e Equívocos” foi o tema da conferência em que foi orador convidado o professor António Sampaio da Nóvoa e onde foram revelados os cinco projetos objeto dos Prémios Santander-UC de Inovação Pedagógica. O objetivo dos galardões é distinguir docentes, neste caso da Universidade de Coimbra, que procuram introduzir, nas “cadeiras” que lecionam, dinâmicas inovadoras de ensino-aprendizagem. Este ano, os cinco premiados saíram de um universo de 19 candidatos.

“Há um conjunto de aspetos que se salientam destes projetos, nomeadamente, a ligação entre o ensino a investigação e os desafios societais, que estão muito em linha com aquilo que a universidade de Coimbra quer promover”, explicou Cristina Albuquerque, vice-reitora da Universidade de Coimbra para os Assuntos Culturais e Ação Social. “O que está subjacente a tudo isto é a necessidade de pensarmos o que fazemos, e como o fazemos, e de estimular à existência de novas ideias no contexto do ensino-aprendizagem”, concluiu.

Foi por isso que entre os premiados ficou, por exemplo, o projeto “Jogo de ALMEJAR (Análise de Litígios e Mediação Jurídico-Ambiental e de Riscos) que, situando-se no domínio da gamificação, traduz uma forma diferente de conectar os estudantes a um processo argumentativo a partir de um jogo; ou “Os telemóveis na rua...e na sala de aulas”, que transforma um dispositivo de perturbação das aulas numa ferramenta de ensino e investigação. (Ver notícia abaixo uma descrição de todos os projetos premiados).

"São projetos muito, muito interessantes, apoiados pelo Santander e que nos possibilitam promover e estimular a inovação pedagógica na Universidade de Coimbra.

Um apoio "essencial"

Os prémios atribuídos aos projetos de inovação pedagógica vencedores da edição de 2019-2020 resultam de uma parceria firmada entre o programa Santander Universidades e a Universidade de Coimbra, daí serem Prémios Santander-UC. O banco assegura os valores pecuniários a atribuir a cada premiado, sendo que 50% desses montantes são disponibilizados com a entrega do prémio e o remanescente fica dependente da concretização prática do projeto

"A relevância é o apoio monetário que damos a esses projetos para que eles possam ser aplicados efetivamente", explicou Cristina Albuquerque. "A ideia não é apenas a valorização de uma proposta. Aquilo que nós pretendemos é que essa proposta seja, de facto, aplicada em sala de aula, seja avaliada, sejam definidas aprendizagens e lições que podem ser aplicadas em outras áreas, em outras disciplinas, eventualmente", acrescentou.

Para a vice-reitora, o apoio do Santander Universidades "é essencial para que alguns projetos possam ser levados a cabo. Na apresentação foram já referenciados alguns materiais que puderam ser produzidos só porque houve o apoio do Santander", disse.

Outro tipo de inovação pedagógica

Outro dos projetos premiados esta quinta-feira foi “O Regresso ao Futuro: Investigação Translacional 5.0”, que propõe outro tipo de inovação: uma ligação clara entre o ensino e a investigação. Algo que vai ao encontro do novo Projeto Especial da Universidade de Coimbra para a Aprendizagem e Inovação Pedagógica (designado por Pojeto UC-AIPed), também apresentado durante a conferência. É que, além de outras vertentes, este Projeto Especial defende uma aposta no cruzamento de conteúdos de diferentes disciplinas e experiências.

O que está em causa, sublinha a professora Cristina Albuquerque, é “flexibilizar percursos, promover unidades curriculares transversais, desenvolver competências que só são passíveis de ser desenvolvidas conectando saberes diferenciados e conectando estudantes de áreas diferenciadas – estudantes e, obviamente, professores e investigadores”.

Segundo a vice-reitora, o projeto pedagógico da U. Coimbra centra-se em eixos estratégicos que hão de permitir estas transformações progressivas e cruzadas. "Desde logo, a renovação dos curricula e, portanto, olharmos para a formação que temos e procurarmos transformá-la naquilo que ela deve ser transformada: em espaços de inovação e de interação entre estudantes, docentes e investigadores e de diferentes áreas disciplinares", disse.

Depois, o novo projeto pedagógico de Coimbra, indo aliás ao encontro de grande parte do que foi dito pelo professor Sampaio da Nóvoa na sua intervenção, pretende pôr fim àquilo que Cristina Albuquerque chama equívocos comuns.

"Desde logo um dos equívocos é pensarmos que o conceito de inovação pedagógica se associa a uma espécie de simplificação de conteúdos, como se inovar fosse apenas tornar as aulas mais interessantes para os estudantes e, este interesse, muito centrado naquilo que os estudantes gostam de ouvir e de aprender, descurando a seriedade e a profundidade que são necessárias na abordagem a conceitos e conteúdos essenciais", disse a vice-reitora, acrescentando: "Pelo contrário, a inovação pedagógica pressupõe mais trabalho, mais complexidade, mais envolvimento dos estudantes e dos professores."

Há "também um outro equívoco que é uma certa agregação simplista do conceito de inovação à utilização de tecnologias na sala de aula", sublinhou Cristina Albuquerque. "As tecnologias são um meio para atingir um fim muito maior. E esse fim maior é que pretendemos que, na Universidade de Coimbra, cada vez mais compreendamos a transformação dos contextos e que possamos ajustar-nos àquilo que são as expectativas e o perfil dos novos estudantes".

Uma outra dimensão, de acordo com a responsável, está relacionada com "a promoção da inclusão e do sucesso escolar, apostando na aprendizagem de currículo multicultural, no apoio estudantes com necessidades especiais, na criação de suportes tutorias, entre muitos outros aspetos, e na conexão entre ensino, investigação e desafios societais". Com este fim, entre as eventuais medidas a adotar estão, por exemplo, laboratórios de design thinking, que permitam envolver estudantes, docentes, investigadores de áreas disciplinares distintas na resolução de problemas concretos, nomeadamente, problemas da cidade e envolvente universitária.

"No fundo, não lhe posso dizer que a inovação pedagógica se centra apenas numa componente de sala de aula. É muito mais do que isso e promove outro tipo de conexões, com outras dimensões, e é isto que este processo pretende assegurar", reiterou Cristina Albuquerque. O que se propõe, portanto, são formas de ensinar mais dinâmicas e adaptadas a novos modelos de aprendizagem ativa, que deem resposta aos interesses pluridisciplinares dos estudantes e abracem as novas tecnologias, mas que não se resumam a estas.

Sampaio da Nóvoa e visão pedagógica da UC em consonância

Ao expor ideias relacionadas com o tema “Inovar Pedagogicamente: Significado e Equívocos”, Sampaio da Nóvoa fez espelho desta posição. Acerca da sua intervenção, que abriu a conferência, logo às 11h da manhã, disse Cristina Albuquerque: "É muito difícil resumir a conferência do professor Sampaio da Nóvoa numa ideia central, porque, como é seu apanágio, ele apresentou ideias muito relevantes e interessantes".

Um dos principais pontos defendidos pelo orador foi que é necessária uma aprendizagem mais complexa e mais adaptada às exigências do tempo atual, "uma colaboração entre estudantes e professores, e entre estudantes, criando ambientes colaborativos e de coaprendizagem". Outra ideia forte apresentada, disse a vice-reitora, foi a "noção de convergência entre disciplinas e entre áreas do saber e com as próprias comunidades em que as universidades se integram", respondendo inclusive a desafios concretos.

"E, nessa medida, obviamente que a promoção do pensamento crítico e a universidade como espaço de liberdade e de 'alegria de pensar', como sr. prof. referenciou, que é uma ideia de Bachelard, são os elementos cruciais para que se possa de facto ter uma universidade com inovação". sendo que inovação, neste caso, esclareceu Cristina Albuquerque, "é mesmo a oportunidade para nos questionarmos sobre o que ensinamos, como ensinamos e como nos ajustamos a uma sala de aula em profunda transformação".

Os 5 Projetos de Inovação Pedagógica vencedores dos Prémios Santander-UC foram:

1 - Análise de Litígios e Mediação Jurídico-Ambiental e de Riscos - Jogo de ALMEJAR, projeto apresentado por Alexandra Aragão, da Faculdade de Direito da UC, que consiste num jogo pedagógico colaborativo, destinado a envolver em simultâneo todos os estudantes da turma num debate coletivo, analisando criticamente durante a aula aspetos ético-jurídicos de um conflito socioambiental e contribuindo criativamente para a co-construção de soluções sustentáveis inovadoras.

2 - Video, Chat, e Quadro Negro, de José Ricardo Morais Silva Gonçalo | Pedro Sidónio Pereira da Silva | Manuela Ramos Marques da Silva, do Departamento de Física, Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, que visa promover o uso de meios de comunicação digitais para complementar os materiais tradicionalmente oferecidos nas unidades curriculares. Subjacente a este objetivo está a ideia de que a adoção dos meios de comunicação e aprendizagem preferenciais dos estudantes tornará mais eficaz o processo pedagógico.

3 - Os telemóveis na rua...e na sala de aulas, de Manuel Gameiro da Silva, do Departamento de Engenharia Mecânica, Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, que tem por principal objetivo o envolvimento participativo dos alunos no processo de aprendizagem, através da realização de um conjunto de experiências científicas em que a recolha de dados é feita com os seus próprios telemóveis num ambiente de crowdsourcing. Um objetivo complementar é a avaliação do potencial de utilização desta ideia no contexto de disciplinas em que, devido ao elevado número de alunos que as frequentam, a realização de trabalhos práticos em ambiente laboratorial está, de alguma forma dificultada.

4 - Regresso ao Futuro: Investigação Translacional 5.0, de João de Sousa Santos, do Departamento de Ciências da Vida, Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, projeto em que se faz a ligação entre o ensino e a investigação e a forma de conectar também alumni da universidade e a preparação da própria carreira, como investigador e até como docente, a partir do 1º ciclo.

5 - Entender Estatística a partir da Escuridão, de Bruno Sousa, da Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação da UC, que visa criar condições para a equidade no processo de ensino-aprendizagem. No caso, procurou-se dar resposta ao desafio de como ensinar estatística a estudantes cegos, o que obrigou à criação de conteúdos em diversos formatos como o som, o Braille ou o relevo.

 

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