Investigação colaborativa nas áreas da saúde e do emprego mereceram prémio

Os projetos distinguidos, ligados à reabilitação de doentes pós-Covid-19 e ao impacto da Inteligência Artificial no trabalho, receberão 15 mil euros

O Com@Rehab e o InteliArt, projetos que se debruçam sobre a reabilitação interativa e o impacto da Inteligência Artificial (IA) no mercado de trabalho, são os grandes vencedores dos Prémios de Investigação Colaborativa Santander-Nova 2020. A cerimónia de anúncio e entrega dos galardões decorreu esta terça-feira, 21 de setembro – data do Science Day da Nova –, no auditório principal desta universidade, em Lisboa.

Com esta vitória ex-aequo, os dois projetos vão ter de dividir entre si o valor pecuniário do prémio, arrecadando cada um deles 7.500 euros. O Prémio de Investigação Colaborativa Santander-Nova distingue projetos a desenvolver por jovens investigadores da universidade e que envolvam dois ou mais departamentos (ou unidades orgânicas, como são chamados) desta instituição de ensino superior.

No caso do Com@Rehab, reunir-se-ão as competências de três faculdades da Universidade Nova: a de Ciências e Tecnologia (FCT), a de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) e a Nova Medical School (NMS). Já o InteliArt integra investigadores da FCSH e da FCT da Nova.

“O projeto resulta de uma colaboração antiga que eu tenho com o professor António Brandão Moniz e os seus alunos do programa doutoral em Avaliação de Tecnologia”, explica Nuno Boavida, investigador principal do InteliArt. “Uma das áreas que nós estudamos é a da automação e, em particular, a da Inteligência Artificial. E faria sentido juntar estas duas equipas – uma da FCT, na Caparica, e outra da FCSH – para se debruçarem sobre o impacto que esta IA irá ter nas estruturas de trabalho e de emprego em Portugal”.

Por sua vez, o projeto Com @Rehab surgiu “conjuntamente com o Centro de Linguística da FCSH, para melhorarmos a comunicação na parte das aplicações e das teleterapias”, diz a sua investigadora principal, Micaela Fonseca. E conta ainda com a parceria do laboratório colaborativo Value for Health CoLAB, do centro de investigação HEI_Lab e do Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão, fomentando assim sinergias em áreas como a Linguística, a Tecnologia e a Medicina.

Segundo Micaela Fonseca, com a pandemia Covid-19 tem aumentado muito o número de pacientes ventilados e que apresentam incapacidades motoras e cognitivas. “É necessário pensar num novo processo terapêutico e numa reabilitação centrada no paciente, neste caso, nestes doentes pós-Covid, que precisam urgentemente de reabilitação”, sublinha a responsável. No fundo, o que o Com@Rehab propõe é uma reabilitação interativa, em que paciente e máquina (e, consequentemente, terapeuta) mantêm uma comunicação permanente e facilitada.

"Normalmente a comunicação é só feita entre tecnologia-paciente e nunca paciente-tecnologia, por isso, interessa-nos a parte bilateral da comunicação", explica a investigadora que é engenheira Física com doutoramento em Física Nuclear e que foi professora universitária de Matemática e de Física para Jogos, tendo criado os cursos de Games & Apps Tech e de Creative Tech. Foi aqui que surgiu o seu interesse pela realidade virtual e pela aplicação que esta poderia ter no âmbito da teleterapia e da eHealth.

O Com@Rehab é apenas uma parte de um trabalho de investigação mais vasto de reabilitação interativa. Já criados estão um jogo de realidade virtual (RV) com exercícios terapêuticos de diferentes níveis de dificuldade e uma luva com biossensores e feedback tátil, que transmite a uma plataforma, em tempo real, os parâmetros fisiológicos e outros dados clínicos valiosos da atividade que o paciente está a desenvolver.

O que faltava, diz Micaela Fonseca, era criar um módulo de comunicação digital que melhorasse e promovesse as interações entre terapeuta-paciente e paciente-terapeuta, de modo a permitir perceber como é que o paciente está a reagir, mas também a facilitar para o doente a compreensão das instruções recebidas, podendo este fazer a sua fisioterapia de forma autónoma e em casa, por exemplo.

(Veja o vídeo de apresentação do projeto Com@Rehab)

"Hoje em dia, o processo terapêutico e de reabilitação precisa sempre de ter um terapeuta ao lado e não é centralizada no paciente", sublinha Micaela Fonseca. Com o Com@Rehab que a investigadora e a sua equipa propõem essa presença física deixaria de ser imperativa.

"Este projeto surge da necessidade de adaptar as soluções que já existem – há muitos jogos de RV, muitas plataformas de reabilitação e de fisioterapia –, mas que nunca contemplam esta parte da comunicação, da literacia tecnológica de todos os agentes. Ou seja, queremos também melhorar a comunicação homem-homem e homem-máquina".

O Prémio de Investigação Colaborativa Santander-Nova que este projeto mereceu vai, assim, ajudar a desenvolver esta última parte referente à comunicação. Mas quando as suas três vertentes estiverem concluídas, Micaela Fonseca e as suas co-investigadoras – Rute Costa, da FCSH, e Ana Rita Londral, da NMS – terão criado um programa de reabilitação baseado num sistema de RV personalizado, de acordo com as necessidades clínicas do paciente, neste caso dedicado ao apoio e gestão de atividades terapêuticas dirigidas aos pacientes pós-Covid.

Curiosamente, conta Micaela Fonseca, foi a existência deste prémio Santander-Nova, que exige a colaboração de diferentes departamentos da universidade, que levou a equipa da investigadora a contactar com o Centro de Linguística da FCSH e com a professora Rute Costa. "Vemos esta candidatura como o início de uma colaboração que correu lindamente. Nós não conhecíamos as pessoas, começámos a falar e surgiu esta ideia da comunicação na aplicação".

Tecnologias emergentes e o emprego

Se as inteligências artificiais já começam a ser presença comum até nas nossas casas – para acenderem luzes, aquecerem a casa antes de chegarmos, darem início ao jantar e porem o aspirador a trabalhar –, muito mais o são (e serão) nas empresas, onde a automação já começou em força e está a intensificar-se. Foi para medir este impacto que Nuno Boavida e a sua equipa criaram o InteliArt, o segundo projeto merecedor do Prémio de Investigação Colaborativa Santander-Nova 2020.

"O projeto InteliArt irá estudar como a Inteligência Artificial poderá vir a afetar a organização do trabalho, o emprego e os sistemas de relações laborais na próxima década em Portugal e em vários países europeus", explica o seu investigador principal, Nuno Boavida.

Segundo admite o investigador – que é engenheiro de Produção Industrial, mestre em Relações Industriais, com um doutoramento em Avaliação de Tecnologia, e trabalha na área da interceção entre tecnologia e trabalho –, apesar de a inteligência artificial estar ainda num relativo início, sente que nalguns setores poderá desenvolver-se com uma grande rapidez. "Daí a importância de olharmos para isto com alguma profundidade e tentarmos perceber qual é o impacto expectável em alguns setores", nomeadamente nos serviços (em particular na banca), nos transportes e na indústria automóvel e nos portos.

"O que é expectável, dos desenvolvimentos que possam chegar ao mercado nos próximos anos, é que algumas tarefas passem a ser automatizadas e, portanto, esses postos de trabalho deixarão de existir", avançou Nuno Boavida.

Mas nem tudo são más notícias, como admite o investigador. "A história mostra-nos que estas tecnologias que tornam o trabalho mais automático, a chamada automação, não destroem só os empregos imediatos que existem, também criam e geram novos empregos, normalmente, até, mais qualificados e mais interessantes para os trabalhadores", disse Nuno Boavida.

O InteliArt está previsto para ser desenvolvido ao longo de 2 anos. O objetivo é que responda a quatro perguntas: Qual será a penetração expectável da IA nas empresas portuguesas e nos países europeus? Quais serão os efeitos da IA na organização do trabalho e no emprego? Quais serão os efeitos da IA nos sistemas de relações laborais? E quais as capacidades e medidas que os parceiros sociais poderão desenvolver para mitigar os efeitos que a IA possa provocar no trabalho e no emprego dos países que vão ser estudados?

(Veja o vídeo de apresentação do projeto InteliArt)

"O que alguns autores têm vindo a sublinhar", avança Nuno Boavida, "é que podemos estar perante um salto tecnológico que transforme as coisas num grau significativamente maior e possamos vir a assistir, em pouco tempo – em particular com algoritmos de largo espetro –, à introdução da IA em certos setores, que poderão transformar as coisas de uma forma bastante considerável".

Em Portugal, a IA, enquanto mecanismos de automação de rotinas laborais, já existe no mercado de trabalho. "Há robôs industriais a funcionar, em que as decisões são tomadas de uma forma autónoma, sem a necessidade de intervenção do ser humano", diz Nuno Boavida. "Existem também algoritmos a funcionar em grandes empresas portuguesas que também, de alguma forma, tomam decisões sem necessitarem de intervenção humana, a não ser na sua coordenação e em tarefas intelectualmente mais estimulantes.".

Assim, e antes ainda de todo o estudo a que o InteliArt vai obrigar, é possível afirmar que existe penetração da IA no mercado de trabalho português, "mas de uma forma circunscrita e bem delimitada", sublinha Nuno Boavida. "Para já existe, poderá vir a crescer e algumas pessoas apontam para o facto de poder vir a crescer em setores com muito impacto para o emprego nas economias modernas", remata.

Daí estar previsto, no desenvolvimento do InteliArt, entrevistas a gestores de tecnologia e de inovação em empresas, a especialistas na organização de fluxos de trabalho nas empresas e especialistas do emprego e aos atores do diálogo social (sindicatos, associações patronais, etc.).

Prémio: pontapé de saída

O valor pecuniário que acompanha o Prémio de Investigação Colaborativa Santander-Nova vai servir, para ambos os projetos, para dar o pontapé de saída nos trabalhos. Mas há também a vertente de reconhecimento do trabalho dos investigadores.

"Para nós é de uma grande importância receber este prémio porque, de facto, dá-nos algum alento para continuarmos a trabalhar e a fazer melhor", diz Nuno Boavida. "Do ponto de vista financeiro, é também uma ajuda para podermos desenvolver entrevistas, grupos de foco e podermos concentrar-nos noutros problemas que não os financeiros – não é que o dinheiro chegue para pagar o projeto todo, mas é sem dúvida um contributo material importante."

O desenvolvimento do InteliArt terá início "dentro de algumas semanas" e, além de Nuno Boavida, conta também com o professor António Brandão Moniz, da FCT da Nova, como co-investigador principal, e com a investigadora Ana Ferreira, da FCSH, bem como com o apoio das doutorandas Marta Candeias, Sofia Romeiro e Débora Freire.

Também o início do projeto Com@Rehab está para breve. "Com este financiamento, vamos já começar a arrancar em outubro/novembro e, daqui a um ano, pretendemos já ter a parte toda do paciente finalizada", refere Micaela Fonseca.

"O nosso objetivo, com este dinheiro, é já contratar um bolseiro para começar a trabalhar os termos certos, a parte da linguística e a parte da comunicação para os pacientes. E talvez um computador e algum equipamento, mas o nosso foco é mesmo os recursos humanos", diz a responsável.

Para Micaela Fonseca, ver a ideia do seu projeto distinguida com o Prémio Santander-Nova "foi uma grande honra", sobretudo devido à tónica sobre a investigação multidisciplinar que o caracteriza.

 

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