Investigação no feminino: três mulheres cientistas conquistam o Prémio Mário Quartin Graça 2021

Graças à parceria entre a Casa da América Latina e o Santander Universidades, cada tese vencedora recebe três mil euros

Teses de investigação, assinadas por Tainá Fonseca, Eduarda Barata e Carla Kitsuta, sobre os impactos dos fármacos no mar, a retórica do poder e a atitude do mundo corporativo face às startups foram as três grandes vencedoras da 12ª edição do Prémio Científico Mário Quartin Graça, nas suas diversas categorias. A cerimónia de entrega dos galardões decorreu esta quinta-feira, 9 de dezembro, na Casa da América Latina (CAL), e contou com a presença de várias personalidades de relevo, como Pedro Castro e Almeida, o CEO do Banco Santander, e Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa e também da CAL.

Criado em 2009, por força de uma parceria entre o Banco Santander e a Casa da América Latina, Prémio Científico Mário Quartin Graça distingue anualmente as melhores teses de doutoramento realizadas em Portugal e naquela região americana. Cada investigador recebe um prémio pecuniário de 3.000 euros, sendo que a eleição dos vencedores tem em consideração fatores como a originalidade do tema, relevância no âmbito do estreitamento de relações entre os países referidos e a qualidade da investigação.

"A minha tese teve como objetivo identificar quais são os impactos que os medicamentos anticancerígenos, uma vez consumidos pelos pacientes em tratamento quimioterápico e excretados para o mar, podem causar impactos no meio ambiente", avançou Tainá Fonseca, vencedora na categoria de Tecnologia e Ciências Naturais. A cientista brasileira, que agora é já investigadora pós-doutoral contratada da Universidade do Algarve, explicou que mesmo passando por estações de tratamento de águas residuais, há sempre micro-concentrações dos fármacos consumidos pelo organismo humano que vão para ao oceano.

Aí, "vão exercer o seu modo de ação, tal como acontece no nosso organismo", disse, nomeadamente no dos peixes saudáveis. Portanto, trata-se de algo que "acaba por voltar ao nosso prato e nós ainda não temos evidências de como é que isso nos vai afetar a longo prazo", afirmou Tainá Finseca.

Já Eduarda Barata, vencedora na Categoria de Ciências Sociais e Humanas e a única portuguesa do grupo, foi estudar a retórica do poder. Partindo do estudo comparativo do Dinossauro Excelentíssimo, de José Cardoso Pires, e El Otoño del Patriarca, de Gabriel García Márquez, a investigadora foi analisar "os vários mecanismos do discurso, da linguagem, das palavras e da retórica, para perceber como é que esses ditadores, que são os protagonistas destas obras, se afirmam perante o contexto das demais personagens". "Portanto, esse estudo da retórica pretende que se transforme numa reflexão sobre o conceito de poder e o conceito de autoritarismo que é transmitido pela palavra: de que forma nós, por uma coisa tão simples como um conjunto de sílabas, um segmento tão mínimo como é um palavra, podemos determinar tanto e com tanta eficiência o destino do outro", explicou.

Ambas as investigadoras foram unânimes em reconhecer que serem distinguidas com este prémio constitui um reconhecimento e uma revalorização do seu trabalho e esforço.

Por via remota, a partir do Brasil, o mesmo fez Carla Kitsuta. "Esse prémio dá-me uma enorme alegria não só pelo reconhecimento do esforço que foi realmente o trabalho solitário deste doutoramento, mas também por reforçar o meu entendimento sobre a importância que hoje a inovação e o empreendedorismo têm no mundo e, em especial, no Brasil e noutros países da América Latina, para que consigamos alcançar um espaço mais relevante nesta economia global", disse.

Carla Kitsuta, vencedora na Categoria de Ciências Económicas e Empresariais defendeu que é preciso entender "a importância do ecossistema empreendedor, do engajamento entre empresas e startups, para promover o desenvolvimento de mais inovação proprietária e disruptiva nas empresas locais".

Pedro Castro e Almeida
"Estas três teses sobressaíram com um nível muito elevado"

Presente também cerimónia de entrega desta 12ª edição do Prémio Científico Mário Quartin Graça esteve Pedro Castro e Almeida, presidente executivo do Santander Portugal. No final, a sua apreciação sobre os projetos vencedores não podia ser mais positiva. "Num ano tão difícil como foi 2021, estas três teses, e já vamos na 12ª edição - não estou a dizer que sejam melhores do que os anos anteriores -, mas realmente sobressaíram de entre as 80 candidatas com um nível muito elevado."

Pedro Castro e Almeida salientou também a diversidade dos temas defendidos nas três teses vencedoras. "Como sabe vivemos em dois grandes momentos de inflexão da nossa sociedade, com a transição tecnológica e com a transição climática, dois deles estão aqui refletidos", disse.

O CEO do Santander disse sentir um grande orgulho por estar envolvido com o Prémio Mário Quartin Graça. "Dá-me um grande orgulho por três razões. Primeiro, em Portugal, eu acho que nós festejamos e premiamos pouco o mérito. E eu acho que o facto de eu poder estar envolvido numa instituição que procura premiar o mérito, acho que faz uma diferença enorme e sinto um grande orgulho.

"O segundo tem a ver com o grande apoio que nós damos à educação e onde procuramos fazer a diferença. É um grande foco não nos dispersarmos dentro do que é a nossa responsabilidade social por muitas áreas por onde nos poderíamos dispersar e pôr este grande foco na educação.

"E depois o Santander tem uma grande presença na América Latina e poder fazer também esta ponte entre Portugal e a América Latina, acho que faz toda a diferença."

No seu discurso, durante a cerimónia, Pedro Castro e Almeida frisou o compromisso que o Santander tem vindo a reafirmar com a educação, salientando que este "começou por se focar na área das universidades e tem vindo a expandir o conceito no sentido em que visa agora também a empregabilidade e o alargar das competências a todas as pessoas; independentemente da idade"

Antes de terminar, o responsável máximo do banco voltou a reiterar a notícia do recente lançamento da Fundação Santander Portugal. "Tem por responsável a minha colega Inês Oom de Sousa e com uma dotação inicial, este ano, de 22,5 milhões de euros, no sentido de desenvolver este tipo de iniciativas de elevado impacto social", disse Pedro Castro e Almeida.

Esclarecendo um pouco melhor, de acordo com dados divulgados pelo Santander na altura, em meados de novembro, a fundação vai apoiar projetos nas áreas sociais e da sustentabilidade ambiental, intervindo "de forma determinante nas áreas da Educação, Empregabilidade, Ecologia e Social, e contribuindo para ajudar as pessoas e as empresas a progredirem de uma forma justa, inclusiva e sustentável".

Um homem, dois presidentes

Na entrega da 12ª edição deste Prémio Científico marcou também presença Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, presidência que cumula com a da Casa da América Latina. Usando as palavras de Guilherme Oliveira Martins para exortar o homem que foi Mário Quartin Graça e a grande importância deste prémio, o edil de Lisboa falou depois da solidão que envolve a profissão do cientista-investigador.

"Aquilo que estes prémios fazem é que dão um momento muito único a estes investigadores, que o reconhecimento dessas horas de solidão, desse sacrifícios de cada dia, que o produto da criatividade que podem ter", disse Carlos Moedas.

De seguida, o presidente da casa-mãe do prémio frisou que "esta investigação, quanto mais estiver na interceção de várias disciplinas, mais poderosa é". "E eu vi isso no trabalho da Eduarda, da Tainá e da Carla, que foi sempre estes cruzamentos, sejam eles comparativos geograficamente, entre a América Latina e a Europa, mas também cruzamentos na inovação e a tecnologia com a cultura e com as ciências sociais" concluiu.

Carlos Moedas terminou dizendo que Portugal pode posicionar-se hoje como um centro da inovação neste cruzamento das disciplinas. E não resistu a fazer um pouco de propaganda política, dizendo que como presidente da Câmara de LIsboa, é este tipo de prémios que quer desenvolver e que, para ele, a cultura e a ciência estarão no centro do um projeto.

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