Teses sobre biocombustíveis, inovação na empresa e a figura do autor recebem prémio científico

Os vencedores, Ana Rita Sousa, Monique Branco e Ricardo Zimmermann, irão receber os prémios, e o respetivo valor pecuniário de 3.000 euros, numa cerimónia a realizar em data a anunciar em formato online

Acabam de ser anunciados os vencedores do Prémio Científico Mário Quartin 2020. Ana Rita Sousa, da Universidade de Coimbra, Monique Branco, da Universidade do Porto, e Ricardo Zimmermann, da Universidade de Aveiro, são os grandes vencedores da 11ª edição deste troféu, que é acompanhado pelo valor pecuniário de 3.000 euros para cada galardoado. Este troféu, criado por iniciativa do Santander Universidades e da Casa da América Latina, distingue anualmente as melhores teses de doutoramento realizadas em Portugal e naquela região americana.

Com três categorias diferentes, este ano os galardões distinguiram teses que se debruçam sobre os biocombustíveis, a melhoria do desempenho das empresas trazido pela ligação entre a inovação e a gestão das cadeias de abastecimento, e a ficcionalização da figura do autor na literatura.

Na categoria de Tecnologia e Ciências Naturais, a tese de Monique Branco, doutorada em Engenharia Química e Biológica pela Universidade do Porto em cotutela com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, suplantou todas as outras candidatas. Esta engenheira de dupla nacionalidade, portuguesa e brasileira, resolveu analisar a viabilidade de se produzirem biocombustíveis a partir de microalgas. Mas fez mais do que isso: utilizou os resíduos que são usados nesse processo para extrair outros produtos, que têm valor de mercado.

Com o título "Análise quantitativa da sustentabilidade da terceira geração de biocombustíveis utilizando dados de processo de uma bio-refinaria de microalgas", a dissertação de Monique Branco pode parecer um pouco críptica. Por isso, a investigadora explica: "O tema da tese de doutoramento foi a análise da produção de biocombustíveis e compostos de valor acrescentado, que são aqueles que têm um valor alto de mercado - como pigmentos, Omega 3 ou 6, proteínas, etc. -, utilizando a massa de microalgas".

Diz Monique que, neste trabalho, utilizou um conceito de bio-refinaria, que é análogo àquele utilizado numa refinaria de petróleo, onde se obtêm vários compostos a partir de um único recurso natural, no caso, as microalgas. É aqui que está a 3ª geração de biocombustíveis, que "são aqueles que são gerados com matérias renováveis e alternativas às que são usadas tradicionalmente, como por exemplo soja e milho"

Portanto, neste exemplo, o milho e a soja são biocombustíveis de 1ª geração, que competem pelo solo com a agricultura e com a produção de alimentos. A 2ª geração de biocombustíveis é aquela que utiliza os resíduos dessa agricultura. E a 3ª geração é a que usa matérias-primas que são completamente alternativas às agriculturas tradicionais.

"Então, nós utilizamos a microalga como alternativa a todas essas questões de produção de vegetais, que podem competir com a produção de alimentos, para produzir os biocombustíveis", frisou Monique Branco. "Além disso, seguimos o conceito de economia circular, que tem a ver com a possibilidade de os resíduos poderem ter uma nova vida, eventualmente sendo usados na produção dos mesmos produtos ou de outros, estendendo por isso os ciclos de vida da matéria, em vez de pura e simplesmente serem eliminados", acrescentou.

Outro dos critérios apreciados para a atribuição dos Prémios Científicos Mário Quartin Graça, além do manifesto interesse dos temas para os países de ambos os lados do Atlântico, é a sua originalidade. No caso da tese de Monique Branco, "a vertente inovadora é justamente a utilização dessas fontes alternativas à produção tradicional de biocombustíveis, porque eles têm um reduzido impacto ambiental", avançou. "Além disso, há o recurso à bio-refinaria, em que nós utilizamos os resíduos todos gerados no processo para produzir outros produtos, que têm um alto valor de mercado. E esse alto valor de mercado faz com que o processo, como um todo, diminua o valor da produção de biocombustíveis", explicou.

Original também foi a tese de Ricardo Zimmermann que venceu este Prémio Científico na categoria de Ciências Económicas e da Empresa. O doutorado pela Universidade de Aveiro, que antes de retomar a vida académica trabalhou na indústria, foi estudar empresas de Portugal e do Brasil para elaborar a sua dissertação. O resultado foi a tese "Inovação e gestão de cadeia de abastecimentos: estratégias, capacidades e o efeito de alinhamento sobre o desempenho das empresas".

"A tese teve por objetivo principal compreender como a relação entre as competências e capacidades das empresas para a inovação e a sua estratégias de gestão da cadeia de abastecimento podem colaborar para melhorar o desempenho das empresas", avançou Ricardo Zimmermann.

Ora, como explicou o especialista., a gestão da cadeia de abastecimento de uma empresa diz respeito à relação desta com os seus clientes, fornecedores e outros atores envolvidos no processo, desde a matéria-prima até ao produto chegar ao consumidor final. E as estratégias de gestão destas cadeias têm que ver com a forma como a empresa, por exemplo, gere o seu inventário ou políticas de compra, etc.

"Nós concluímos que empresas que desenvolvem um determinado tipo de competências de inovação, mais ligadas à área de marketing, ou da produção ou à sua capacidade de aprendizagem, tendem a ter melhores resultados ao adotar determinados tipos de estratégias para fazerem a gestão das suas cadeias de abastecimento", disse Ricardo Zimmerman.

E é precisamente esta ligação, "olhar para as estratégias de gestão da cadeia de abastecimento de uma empresa e para as suas capacidades e competências de inovação, que não havia sido feito antes", garantiu Ricardo Zimmermann. Isso e a preocupação que o investigador diz ter sempre tido de que a tese tivesse uma abordagem muito prática. Ou seja, que os resultados dos seus estudos "fossem entendidos pelos gestores e pudessem, de facto, contribuir para a melhoria efetiva do desempenho das empresas".

Na categoria de Ciências Sociais e Humanas, a ponte que Ana Rita Sousa fez entre uma escritora portuguesa e um autor Chileno valeu-lhe a conquista do Prémio Mário Quartin Graça. "A inovação deriva sobretudo da aproximação, que é rara, entre uma autora portuguesa, e um autor latino-americano, de língua espanhola, uma vez que muitas vezes se consideram sociedades, culturas, tradições demasiado afastadas para que justifiquem o esforço hermenêutico, ou até humanístico. Regra geral, estas aproximações no espaço ibero-americano são mais comuns quando a língua coincide: entre Portugal e o Brasil, entre Espanha e os países de língua espanhola", disse a investigadora.

Mas comecemos pelo início. Com o título "Mecânica de uma Personagem: Paisagem, Escrita, Autoria", a tese de Ana Rita Sousa, que é agora leitora de Camões na Universidade do México, "é um projeto comparatista de aproximação de dois escritores muito diferentes e muito distantes: o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) e a portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2007)".

Diz a investigadora que ambos estes autores "possuem uma obra marcadamente singular e esteticamente radical, o que os manteve durante uma grande parte das suas vidas praticamente desconhecidos para o grande público". Por isso, a sua tese pretende compreender de que forma a marginalidade deles foi determinante, em ambos casos, para que questionassem e propusessem novos horizontes para a literatura, tanto em relação à sua história, como à sua dimensão teórico-crítica.

Nesse sentido, a tese de Ana Rita Sousa "trata de averiguar de que forma compreendiam a sua função de escritores na viragem do século, num mundo cada vez mais global e dominado na literatura por uma tendência para a escrita mais comercial, ou seja, que sentido ainda pode existir em escrever num mundo submerso em histórias, imagens e escritas. E que sentido é esse."

Para Ana Rita Sousa, vencer o Prémio Científico Mário Quartin Graça teve um significado muito especial pela natureza da sua própria investigação que, diz, extrapola o âmbito da literatura portuguesa e não se enquadra no domínio estrito dos estudos latino-americanos. "De certa forma, estou a meio caminho entre dois mundos e é bom verificar que estender pontes destas também pode ser valorizado como os campos de trabalho mais estabelecidos e tradicionais", referiu a investigadora.

"Paralelamente, quando pensamos na desvalorização constante dos estudos humanísticos num mundo cada vez mais virado para a produtividade útil, pragmática, imediata para consumo, é muito importante um prémio científico que continue a estimular o pensamento cultural em geral e a literatura muito em particular", sublinho Ana Rita Sousa. "Para mim, é um prémio enorme porque me incentiva a continuar neste caminho, e me ajudará sem dúvida a difundir o meu trabalho e a aprofundá-lo em muitos aspetos que o espaço gráfico da tese e o limite temporal do doutoramento não permitiram", concluiu.

Quanto ao valor monetário que acompanha este troféu, "vou aplicá-lo onde aplico todo o meu trabalho e a remuneração de que dele advém: na educação do meu filho", disse Ana Rita Sousa.

Ao contrário, Ricardo Zimmermann disse não ter ainda planos muito claros quanto ao que vai fazer com os 3.000 euros que há de receber. Mas ser investigador, seja em Portugal ou em qualquer outro país, diz, acarreta sempre o desafio constante de financiar aquilo que se faz.

"Eu tive a sorte de ter uma bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia durante a realização do doutoramento, mas, por outro lado, temos gastos que não são contemplados pela bolsa e que, muitas vezes saem do nosso bolso, como por exemplo a participação em conferências, que é uma parte importante do nosso trabalho e da divulgação que fazemos; mesmo a revisão profissional dos nossos artigos científicos antes da publicação, somos nós que temos de tirar esse dinheiro do bolso", avançou Ricardo Zimmermann.

Por isso, afinal o investigador é capaz de já ter dado destino ao seu prémio. "A minha ideia é usar esse dinheiro para me ajudar com esses gastos que são inerentes à nossa função, ao que nós fazemos, mas que nem sempre são contemplados nos auxílios que temos".

Também Ricardo Zimmermann diz ter sido muito gratificante ver o seu trabalho reconhecido "e logo com um prémio com a relevância deste".

"Além disso, numa perspetiva mais pessoal, este prémio tem um caráter um pouco simbólico para mim, uma vez que eu nasci no Brasil, sou brasileiro, mas escolhi Portugal para viver já há muitos anos, fiz aqui toda a minha carreira científica, na Universidade de Aveiro, os meu filhos nasceram aqui, tenho a minha vida toda em Portugal e tenho agora, também, a oportunidade de trabalhar numa instituição grande em Portugal, importante nesta área de investigação que é o INESC Tech, no Porto", revelou o investigador.

"E essa minha relação entre os dois países, eu acho que representa um pouco a ideia do próprio prémio e do que é a Casa da América Latina, que tem essa missão de aproximar Portugal da América Latina e de estimular o conhecimento, a colaboração entre os dois países", explicou Ricardo Zimmermann, concluindo: "A própria investigação teve esse objetivo e esse caráter, de certa forma, de comparação entre o que é feito no Brasil e o que é feito em Portugal".

Para Monique Branco, receber o reconhecimento que acarreta o Prémio Científico Mário Quartin Graça foi "uma grande honra". "O trabalho foi desenvolvido em estreita colaboração entre dois países da América Latina, que foram, nomeadamente, o Brasil e o Chile, porque nós utilizámos o cenário chileno para analisar a produção dos combustíveis de microalgas - porque para o Chile, os micro-combustíveis ainda não são uma realidade e a maior parte da energia é importada dos países vizinhos", explicou a investigadora.

"Então, para mim e para os orientadores, foi uma grande honra e isso consagra a importância da cooperação entre países que têm temas de interesse comum", disse Monique Branco.

Depois, com o valor pecuniário do prémio, Monique diz que vai dar continuidade à formação académica, "com participação em congressos internacionais para apresentar outros resultados deste trabalho, que ainda continua". E vai também aprofundar conhecimentos na área, através de outros cursos.

Mas o Prémio Científico Mário Quartin Graça tem ainda outro valioso impacto para Monique Branco, que se traduz na eventual captação das atenções. "A visibilidade geral deste tópico de pesquisa pode impulsionar os governos e outras agências de fomento a dedicarem maiores recursos à investigação e desenvolvimento tecnológico para fomentar a transição para uma economia mais verde", afirmou.

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