Elisa Ferreira. "A mobilidade urbana está no topo da agenda"

O encerramento da quarta edição do Portugal Mobi Summit foi feito por Elisa Ferreira, comissária europeia para a Coesão e Reformas, que deu três razões para este ser um tempo de agir, notando que a mobilidade urbana está no topo da agenda europeia.

"Eu apoio particularmente o tema deste ano - O paradigma está a mudar, estamos nós? -, porque este é, de facto, um tempo de ação. Um bom sistema urbano de transportes sempre foi importante. Nós sabemos, pela nossa própria experiência, que a maior parte das nossas atividades quotidianas são muito mais fáceis ou muito mais difíceis devido à qualidade dos transportes. E um bom sistema de transportes sempre foi um fator-chave daquilo que podemos considerar uma cidade atrativa. Sempre soubemos isto."

A comissária europeia prosseguiu a sua intervenção, dizendo que "hoje existe uma urgência em atuar. Por três motivos-chave a mobilidade urbana está no topo da agenda e os desafios são mais altos do que nunca".

A primeira razão que mostra que "este é um tempo de agir" está relacionada com os cidadãos europeus, que estão cada vez mais exigentes. "O europeu comum, especialmente os mais jovens, estão cada vez mais vocais em exigir mudanças. E eles têm razão. Cheias e incêndios na Europa este verão são um lembrete marcante de que não podemos continuar como estamos. Mesmo assim, apesar de todo o trabalho feito na mobilidade urbana nos anos mais recentes, o problema persiste", disse Elisa Ferreira, partilhando alguns dados. "A Agência Europeia do Ambiente lembrou-nos recentemente de que na maioria dos países europeus que as horas gastas pelo condutor médio em congestionamentos de trânsito aumentou entre 2015 e 2017. O problema é mais grave nas cidades, com o condutor médio a perder 254 horas por ano parado no trânsito em Roma, 246 horas por ano em Dublin e 237 horas por ano em Paris. Isto não é apenas tempo perdido - mas claro que isso é também um problema -, este tempo parado no trânsito representa também enormes danos para o ambiente e representa danos para a saúde de todos. Altos níveis de poluição do ar, especialmente material particulado e óxido nitroso, são uma preocupação sanitária significativa. Cidades em toda a Europa lutam após falharem cumprir os padrões europeus de qualidade do ar. Isto não pode continuar! Os europeus têm o direito de esperar melhor."

Outra das razões para agir, a segunda, tem a ver com uma realidade que nos foi trazida pela pandemia. "Uma mudança fundamental está a acontecer nas nossas economias e a mobilidade deve adaptar-se a isso. O confinamento durante a pandemia espoletou uma subida dramática no teletrabalho e isto é apenas o início de uma revolução digital induzida que vai remodelar totalmente as nossas cidades e também a forma como vivemos. Há muitas formas de a mobilidade se adaptar a esta mudança da vida laboral, mas deixem-me levantar uma questão importante em termos económicos urbanos e regionais. Na última década, todo o crescimento europeu e quase todos os novos empregos altamente qualificados concentram-se nas maiores cidades. A economia digital, onde cada vez mais pessoas podem trabalhar remotamente, é uma oportunidade para nivelar as coisas, para que novos empregos possam ir para cidades mais pequenas", declarou a comissária para a Coesão e Reformas.

Mas, na opinião de Elisa Ferreira, a coisa não é assim tão simples. "Uma pré-condição para isto acontecer é existir uma mobilidade urbana de grande qualidade em cidades mais pequenas e boas ligações de transportes entre estas cidades pequenas e as cidades maiores. As pessoas querem viver onde existe uma boa qualidade de vida, onde o ar é mais puro, os transportes são mais acessíveis e as cidades mais atrativas. E isto cria um novo impulso para uma melhor mobilidade em todo o lado. Porque não são apenas as pequenas e médias cidades que terão de melhorar as suas condições. Para se manterem competitivas em relação a pequenas cidades cada vez mais atrativas, também as cidades maiores terão de trabalhar arduamente para manter a sua atratividade em termos de qualidade do ar, em termos de facilidade de circulação. E esta pressão geral para aumentar os padrões ambientais é, de facto, uma coisa boa. Mas significa que temos de redobrar os nossos esforços para para garantir que todas as cidades europeias tem um sistema de mobilidade de grande qualidade".

A digitalização, garante Elisa Ferreira, vai desempenhar um papel-chave nisto. "Por exemplo, reduzindo os congestionamentos, gerindo o trânsito, fazendo uma melhor coordenação do trânsito, ou, no futuro, com automóveis não poluentes e, até, autónomos. Estas tendências estão apenas a surgir, mas devíamos prepararmo-nos já para elas e não deixar nenhuma cidade, independentemente do seu tamanho, para trás".

A terceira razão para este ser um tempo de agir é o Plano de Recuperação e Resiliência. "Nós agora temos uma oportunidade única numa geração para o financiamento europeu promover uma recuperação digital e ambiental do covid. A Europa tomou este passo histórico de usar, como é bem sabido, o nosso rating de crédito AAA para se financiar nos mercados criando um novo fundo de recuperação de 672 mil milhões de euros, nós chamamos-lhe Programa de Recuperação e Resiliência, bem como adicionar 50 mil milhões de euros para as políticas de coesão. Isto significa que, por muitas razões, nos próximos três a quatro anos os investimentos europeus vão duplicar, serão o triplo, do que eram antes. Isto representa, de facto uma oportunidade única numa geração para investir na mudança. Só nas políticas de coesão esperamos mais de 100 mil milhões de euros de investimento na transição 'verde', com mobilidade urbana sustentável, que é um dos nossos investimentos principais".

A comissária europeia que representa Portugal na presidência de Ursula von der Leyen terminou a sua intervenção "dando eco ao apelo pela mudança". "É, de facto, tempo de agir. Primeiro, porque cada vez mais europeus estão a exigir essa mudança e eles estão certos. Segundo, porque para se manterem atrativas e competitivas na economia digital do amanhã, as cidades vão precisar de ter ar puro e uma mobilidade acessível. Terceiro, porque a Europa está pronta para financiar um investimento único numa geração. E tenho boas notícias para vocês! Se estão à procura de ideias excelentes e inovadoras e uma discussão estimulante estão no sítio certo. Peço-vos a fazerem o máximo desta cimeira, troquem as vossas experiências e conhecimentos sobre formas de vida numa cidade descarbonizada, em transportes públicos amigos do ambiente, em ferramentas inteligentes, micromobilidade, e muito mais. Levem esses conhecimentos de volta para as vossas cidades e para os vossos programas de coesão e transformem-nos em ações concretas. E tragam as vossas experiências de volta para a cimeira do próximo ano."

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