Ferrovia nacional "não pode perder mais tempo com planos"

O novo plano ferroviário nacional recebeu mais de 300 contributos, que vão ser analisados para que a proposta final seja apresentada no segundo trimestre de 2022 e aprovada no verão do próximo ano. Quem está no negócio do transporte ferroviário apela a que não se perca mais tempo com planos, porque os caminhos-de-ferro portugueses estão ao abandono há 60 anos. E são a aposta lógica para descarbonizar.

O comboio é a resposta "lógica" para retirar automóveis particulares e poluentes das estradas congestionadas, diminuir as emissões dos aviões no curto e médio curso e transportar toneladas de mercadoria, especialmente no caso das longas distâncias, sem emitir CO2. Porém, Portugal só agora retoma os estudos para fazer renascer a ferrovia.

"O plano ferroviário nacional recebeu mais de 300 propostas, que agora temos de analisar e ver que contributos podem ser integrados para a proposta que esperamos colocar a debate público lá para o segundo trimestre do próximo ano, com vista a aprovar, se tudo correr bem, no terceiro trimestre de 2022", anunciou Jorge Delgado, secretário de Estado das Infraestruturas, no debate sobre "O Plano de Recuperação e Resiliência da UE e o Renascimento da Ferrovia", esta tarde, na Portugal Mobi Summit 2021.

Os investimentos previstos incluem a construção de uma linha de alta velocidade para transporte de passageiros entre Lisboa e Porto e outro troço entre o Porto e Vigo. A atual linha do Norte, modernizada e eletrificada, ficará ao serviço das mercadorias. A solução não é a "ideal", mas já contenta os operadores que, neste caso, dizem nem serem precisos incentivos para convencer os clientes a optar pelo comboio.

Lógica integrada

"A ferrovia não precisa de incentivos, só precisa de ser competitiva", resumiu Carlos Vasconcelos, presidente da Medway, a empresa de transporte de carga ferroviária líder em Portugal. "Precisamos de um conjunto de obras que, neste momento, não existem cá, nem em Espanha, onde também são precisas: que permitam a circulação de comboios com 750 metros e a eletrificação das linhas. É o básico para já. Nem vale a pena falar de pendentes porque custa muito dinheiro e conseguimos viver se tivermos o resto", adiantou.

A atual concorrência com a rodovia no transporte de mercadorias irá desaparecer naturalmente, na perspetiva de Carlos Vasconcelos. "Com as preocupações ambientais, as dificuldades de motoristas e a necessidade de descarbonizar", sublinhou. O transporte vai ter de ser pensado em termos de soluções logísticas e não rodovia ou ferrovia, em que os camiões só fazem sentido para levar mercadorias do armazém para o comboio e deste para o centro de distribuição do local de destino. "O operador rodoviário vai ter de mudar o chip para operador logístico", vaticinou o presidente da Medway.

Desde que a empresa lançou o selo CO2, no ano passado, notou "uma procura por parte das empresas com preocupações ambientais e relativas à pegada de carbono". Mas o comboio ainda não é, hoje, 100% neutro. A falta de eletrificação das linhas ainda obriga ao uso de locomotoras a diesel.

O Plano de Recuperação e Resiliência português destinou cerca de mil milhões de euros para os investimentos na ferrovia. Mas só a linha Lisboa-Porto deverá custar algo como 4,5 mil milhões de euros. O restante financiamento ainda está "em estudo", mas Jorge Delgado reconheceu que o governo poderá ter de recorrer a uma parceria público-privada.

Futuro do comboio

Apesar da falta de infraestruturas e de financiamento para a renovação, a ferrovia é o futuro. A Siemens não tem dúvida que o comboio é o futuro para passageiros e mercadorias e está disponível para ser parceira no fornecimento de material circulante em leasing, de forma a aliviar o investimento às empresas públicas e risco da manutenção aos operadores em Portugal.

"O comboio vai ser, cada vez mais, um elemento central da nossa vida e, olhando à saúde do planeta, tem mesmo de fazer parte ou não vai haver história", alertou Rogério Gomes, diretor de material circulante e de manutenção da Siemens. "O comboio será prioritário na medida em que for acessível", notou. "Na Siemens, temos todo o tipo de soluções", prometeu.

A manutenção é também uma área de investimento para a Medway, que tem oficina própria no Entroncamento e vai iniciar a construção da oficina de Lousada, no começo de 2022. "Candidatamo-nos a um fundo europeu para nos dedicarmos também à construção de vagões", anunciou Carlos Vasconcelos, que fez um apelo final:"O plano ferroviário nacional tem de ter o mais amplo consenso possível, não podemos perder mais tempo com planos".

O secretário de Estado concluiu que "o comboio vai ser estruturante no transporte de mercadorias entre Portugal e a Europa e vai transformar os portos nacionais em portos ibéricos.

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