Leiria quer transformar crise que veio com a pandemia em oportunidade

Região criou em abril o Gabinete Económico e Social com mais de 50 medidas para preparar a recuperação económica. Associações setoriais esperam maior apoio da banca às empresas. CEO do Novo Banco diz que agora é o momento para "ouvir e dar resposta".

"No Novo Banco sabemos bem que tempo adiado representa problemas acrescidos e não traz soluções. Sabemos também que agora é o momento para preparar a saída da crise, para ouvir e dar resposta concreta às soluções para reestruturar, refinanciar e reorganizar o modelo de capacidade de resposta". Foi desta forma que António Ramalho explicou à audiência o seu propósito com o arranque da iniciativa Portugal que Faz, um ciclo de seis conferências regionais organizadas por esta instituição, e que, na passada quinta-feira, teve lugar em Leiria, nas instalações da Nerlei - Associação Empresarial da Região de Leiria. O gestor do banco mais escrutinado do sistema financeiro europeu acredita que esta ideia de auscultar os empresários nacionais faz todo o sentido pois cerca de 63% da sua atividade é virada para as empresas, e dentro destas 60% são exportadoras.

A sessão de trabalhos foi aberta pelo presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, que congratula o facto de a cidade ter sido escolhida para a realização da segunda conferência do roadshow nacional, já que esta foi um bom exemplo na resposta dada à pandemia, demonstrando uma grande polivalência. "As empresas locais mostraram grande rapidez na reação de resposta. Conseguiram adaptar-se para a produção de EPI (equipamento de proteção individual) em falta, como viseiras, máscaras, álcool gel, fatos de plástico e batas têxteis", refere. Salienta que esta crise veio mostrar a necessidade premente de ter estruturas mais descentralizadas, pois a proximidade é o segredo da rapidez. "Vejo nos empresários de Leiria esperança, confiança e determinação, e muita vontade de vencer a crise, o que nos enche de orgulho", diz.

Esta autarquia mobilizou diversas entidades e criou, em abril último, o Gabinete Económico e Social da Região de Leiria com o objetivo de procurar estratégias de recuperação, um organismo liderado por Jorge Santos. Este responsável enumerou, na sua apresentação, as diversas iniciativas que região está a desenvolver nesse sentido. Foram propostas mais de 50 medidas de médio, curto e longo prazo, transversais a várias áreas e sustentadas num projeto que envolve mais de 100 pessoas, com a finalidade de transformar os desafios da crise em oportunidades. "Isto não se faz sozinho. É preciso o envolvimento de todos para manter o emprego e a coesão social na região", explicou.

António Ramalho, na sua intervenção, alertou ainda que "esta crise é assimétrica, mas também emocional e comportamental. A vida vai ser mais humanizada e vamos ter padrões de mobilidade diferentes. Vamos ter mais local, mais regional, e uma maior preferência por serviços de bens. A recuperação vai ter uma lógica de essencialidade, o que acarreta muitos desafios". Carlos Andrade, economista chefe do banco, explicou que esta "será uma recuperação gradual e que o grande desafio é o da preservação da capacidade produtiva. Isto exigirá um grande esforço orçamental, mas que é essencial para a recuperação", diz. Revela ainda que as empresas da região de Leiria têm uma intensidade exportadora superior à média nacional e um grande peso do comércio e do turismo, logo são setores muito impactados pelos efeitos da pandemia. "As exportações da região caíram 35% em abril, quando comparadas com período homólogo", afirma.


António Poças, presidente da Nerlei, a iniciar o debate que envolveu ainda Pedro Neto, da ACILIS, Nuno Silva da Cefamol e Amaro Reis, da APIP, refere que a economia da região é multissetorial e não está centrada apenas nos moldes e plásticos, o que a torna mais flexível e com grande capacidade de reação. "Temos bons exemplos, como a agricultura, que cresceu 100% nos últimos oito anos, ou a indústria extrativa que tem um peso nas receitas da região três vezes superior à média nacional, tendo assistido a uma modernização incrível", afirma. Este responsável diz que se fala muito da baixa capitalização das empresas mas não tem visto medidas concretas para alterar isso, e espera que o novo Banco de Fomento venha a ajudar nessa questão. No entanto, este problema já existia antes, agora as empresas sentem sim sérias dificuldades de tesouraria, e isto tem sido enfrentado até aqui com medidas de curto prazo, o que não é solução. António Ramalho refere a propósito que estas medidas imediatas foram fundamentais para fazer face ao problema no momento, mas que agora está na altura de trabalhar o médio prazo, e a banca terá de começar a realinhar os processos de refinanciamento. "Bancos não se podem focar em soluções globais, mas sim encontrar soluções setor a setor e, no limite, empresa a empresa".

Pedro Neto, representante dos setores da indústria, comércio e turismo, entende que algumas medidas reativas foram boas mas outras nem chegaram à economia. "Estas novas regras sanitárias são muito reativas, pouco estratégicas, e muitas delas incoerentes. Aqueles que estão mal vão continuar a piorar. De acordo com um estudo da região, é previsível que desapareçam cerca de 40% das empresas de restauração". Nuno Silva, representante da área dos moldes, refere que o setor já sentira um decréscimo de 15% em 2019 devido aos constrangimentos da indústria automóvel, que representa 80% das receitas deste setor. "Neste momento, a maioria das empresas está sem encomendas e sem conseguir recorrer a apoios", afirma. Para finalizar, Amaro Reis, da APIP, que representa mil empresas que valem cerca de 2% do PIB, entende que a pandemia veio mudar o paradigma relativamente ao plástico, que se revelou importante no take away. "Todo o setor teve um comportamento muito resiliente, muitas empresas reconverteram-se para a produção e EPI, e a sua faturação vai-se mantendo estável".

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