Covid-19: os municípios foram vitais na região Norte

A Câmara Municipal de Gaia começou a atuar assim que o novo coronavírus chegou a Portugal. A autarquia desenvolveu vários esforços para ajudar os mais necessitados e mais frágeis.

Apanhados desprevenidos, os autarcas da região Norte foram os primeiros a lidar com os surtos de Covid-19, com maior número de infetados, em Portugal. Março corria sem percalços, até que em meados do mês, tudo mudou. No dia 18 acabaria por ser decretado o estado de emergência em Portugal, depois de a Organização Mundial de Saúde assim ter qualificado a situação de saúde em sequência da Covid-19. A nova realidade exigiu, de imediato, a adoção de medidas urgente, excecionais e temporárias para assegurar o tratamento da doença.

Foi imposta, em todo o país, a restrição de direitos e liberdades, em especial no que respeita aos direitos de circulação e às liberdades económicas, com vista a prevenir a transmissão do vírus.

Em Portugal, o Norte centrou atenções e preocupações. Em Vila Nova de Gaia, o presidente da Câmara Municipal, Eduardo Vítor Rodrigues, recorda que "os municípios estiveram, desde a primeira hora na linha da frente. Eu diria que se não fossem os municípios, o processo teria sido muito mais doloroso na região norte, porque sem termos um manual, sem sabermos como é que as coisas se faziam, a verdade é que, com muitas noites de estudo e com muito diálogo entre municípios, conseguimos assumir medidas. Muitas que supriram lacunas do poder central".

O autarca de um dos maiores municípios do país, reconhece que "se na área da Saúde, nós tivemos uma resposta extraordinária, na área da Educação houve algumas questões a terem de ser resolvidas e alguns problemas por nós. Já na área da Ação Social houve mais dificuldades na capacidade de resposta, fruto de uma Segurança Social que está 'hipercentralizada'. Sentimos, por exemplo, que os centros distritais não têm capacidade para apoiar financeiramente uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) e muitas delas mantiveram as portas abertas, porque os municípios forneceram os equipamentos de proteção individual".

Eduardo Vítor Rodrigues acompanhou, de perto, o trabalho desenvolvido pelos vários serviços municipais. "Andei na rua a acompanhar o trabalho dos bombeiros, da polícia municipal, dos técnicos de ação social. Foi um momento doloroso, até do ponto de vista emocional, porque sentíamos a cidade vazia. Não víamos as pessoas. Sentíamos angústia".

Priorizar a intervenção da autarquia foi imperativo e rapidamente foram identificados os alvos prioritários, "primeiro cuidámos dos que estavam mais fragilizados, que era quem estava nos lares e quem recebia apoio domiciliário. Quando começámos a sentir que estava a haver um prolongamento excessivo da capacidade de intervenção da Segurança Social, avançámos nós com um orçamento municipal para os testes dos idosos e dos técnicos nos lares de terceira idade e também na área da deficiência. Depois fizemos o mesmo, na área da Educação, quando o ano letivo foi retomado para alguns alunos, testando os nossos funcionários".

À medida que a pandemia continuava a dar sinais de não abrandar, pelo contrário, em Vila Nova de Gaia os serviços municipais foram funcionando sem percalços. Não houve nenhum surto na autarquia, nem na polícia municipal, nem nos serviços de manutenção da via pública. O abastecimento de água e o saneamento também não registaram baixas. No que à população em geral diz respeito, a autarquia tomou dianteira e "adquiriu material e foram realizadas algumas ações de sensibilização, de caráter simbólico, quando assumimos distribuir máscaras nas caixas do correio, no sentido de não haver desculpas para a não utilização da proteção individual".

O FUTURO

O futuro incógnito é encarado, depois de meses frenéticos da pandemia, com relativa tranquilidade. A incerteza e a ansiedade continuam a marcar os dias que chegam e os que vão chegar, de regresso à nova normalidade, com escolas reabertas e locais de trabalho reocupados.

Eduardo Vítor Rodrigues, estima que "estamos mais preparados do que nunca e podemos até dar contributos - e temos feito - para outras regiões, dando conta da nossa experiência, ao mesmo tempo que tentamos evoluir para enfrentar uma eventual segunda vaga que vai lançar novos desafios. Mas aí já estamos preparados. Temos conhecimento, temos experiência acumulada e podemos responder com outra capacidade e com antecedência, que é o que estamos a fazer".

A prova de fogo aproxima-se com a câmara de Gaia a antecipar um cenário em que "claramente vamos ter que assumir compromissos com as IPSS, com as escolas e com as coletividades. Vamos ter um reforço da nossa participação financeira, até que o Governo possa dar uma resposta mais efetiva em termos financeiros. A Covid-19 pode ter consequências na mortalidade, mas não podemos deixar é que o novo coronavírus mate as instituições".

Em Vila Nova de Gaia, o futuro foi sendo preparado no passado e presente. "Temos aproveitado este período - com equipamentos fechados, como pavilhões - para fazer intervenções estruturais que reformulam o modelo de circulação e de proximidade. Há coisas que vão rapidamente passar, sem dúvida, mas há muitas outras que vieram para ficar. Mesmo quando tivermos um bocadinho mais de tranquilidade sobre este processo eu diria que há coisas que não mudam mais", estima Eduardo Vítor Rodrigues.

O mesmo acontece nas escolas. "Por muito que as crianças não sejam um grupo de risco, nós temos que fazer o nosso trabalho de preparação. É isso que estamos a fazer, ao nível da higienização, com algumas adaptações nas casas de banho, que é uma questão fundamental. Do ponto de vista da sala de aula, temos secretárias individuais, logo a situação está resolvida. Nas escolas onde as mesas são duplas, colocámos uma divisória em acrílico".

O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia não tenciona baixar a guarda, porque "temos que nos lembrar, constantemente, sem pânico, que é preciso ter sempre cautelas. Estamos a fazer esse trabalho para durar".

Foi com base neste pressuposto que a autarquia criou um roteiro de boas práticas que contempla um protocolo de intervenção para todos os agregados familiares do concelho que tenham filhos nas escolas. Existem diferentes intervenções de acordo com os ciclos a que cada aluno está associado dos jardins-de-infância e 1.º ciclo ao secundário.

"Nós avançamos com dois tipos de intervenção. As famílias vivem dois dramas: o arranque do ano escolar, com insegurança e incerteza. É preciso ter noção que temos a obrigação de fazer tudo para que as pessoas tenham confiança no retorno à escola. É muito mais angustiante para uma família que não haja arranque do ano escolar do que alguma angustia sobre riscos do ano escolar. Estamos a minimizar o mais possível e a montar um protocolo que visa clarificar, preventivamente, o que pode acontecer.

Eduardo Vítor Rodrigues sublinha que "só é possível pedir às pessoas que não entrem em pânico, se elas estiverem munidas de informação”. Assim, "cerca de 15 mil alunos do 1.º Ciclo receberão o roteiro, bem como um kit com gel desinfetante e um spray para os sapatos.

Para além dos mais novos, o "outro drama das famílias são os idosos por fazerem parte de um grupo de risco. Nesse sentido, estamos a elaborar um esquema de intervenção que envolve o hospital, os centros de saúde, e a câmara municipal para que haja tranquilidade. É importante que as pessoas tenham a perceção que alguém cuidou da prevenção. Vai ser um tempo angustiante para todos", conclui Eduardo Vítor Rodrigues.

IMPACTO COVID-19 NO TURISMO

"O impacto foi brutal". A frase resume a realidade que a perceção foi notando ao longo dos primeiros meses de pandemia em Portugal. Eduardo Vítor Rodrigues recorda Gaia de outros tempos "com a zona ribeirinha, os hotéis, a restauração, os grandes eventos, entre os quais o S. Pedro e o S. João, a dinamizarem o turismo local. Infelizmente, a retoma está a ser muito tímida e não posso sequer dizer que está numa fase de recuperação evidente. Está ser lenta e gradual”, constata o autarca.

Os números são reveladores da quebra de turistas por terras gaienses. "O dado mais evidente tem sido as taxas de ocupação nos hotéis, que eram de 80 a 90 por cento nesta época do ano e, em 2020, alguns estão a dez por cento. O mesmo acontece com as visitas nas caves de Vinho do Porto. Mesmo na zona mais turística, a restauração sofreu uma alteração radical".

IMPACTO NO COMÉRCIO

A crise no Turismo é uma das faces visíveis do impacto da Covid-19 na economia local, mas o presidente da Câmara de Gaia afirma que "há um impacto prévio. Vi tudo fechado e muitos espaços continuam encerrados. Houve muitos negócios que não reabriram. Isso levanta outro problema que é perceber que a retoma e a recuperação de que tanto se fala não foi para todos. Terá sido para a maioria, mas houve muitos negócios que não sobreviveram ao confinamento”.

A dimensão de negócios arruinados pela Covid-19 ainda não está calculada. "Estamos a acompanhar essa situação com a Associação Comercial e industrial de Gaia e com a Inovagaia, mas estamos a falar, sobretudo, de micro e pequeno comércio. Este é um setor muito importante para o município, porque dá emprego a famílias inteiras em muitos casos. Até agora não houve uma retoma evidente, porque os clientes habituais - que iam ao café, por exemplo - deixaram de ir por receio. Por isso, implementámos como medida abdicar de zonas de estacionamento para permitir o alargamento de esplanadas e isentámos todas as taxas a todo o comércio local".

Por parte dos empresários com pequenos negócios, Eduardo Vítor Rodrigues diz escutar dois problemas evidentes. "Há um que é óbvio, que é de liquidez. Muitas das medidas que são anunciadas, e bem, são de apoio indireto. Sentimos que algumas empresas precisavam mesmo é de liquidez, de uma injeção de capital, sendo que isso não é fácil de acontecer. Por outro lado, tivemos outra questão, que é a expectativa. A economia é uma ciência das expectativas e das aspirações. A confiança no futuro tem aumentado gradualmente. Começámos o confinamento em março a pensar que seria rápido, depois evoluímos a pensar que seria uma coisa para muitos anos e agora estamos numa fase de adaptação, numa espécie de meio-termo, percebendo que isto é para durar, mas podemos criar mecanismos de adaptação para melhorar a confiança. Eu acho que os empresários, neste momento, estão nessa fase. Olham para o futuro com alguma confiança, sabendo, porém, que há problemas de curto prazo para resolver".

IMPACTO NA INDÚSTRIA

No setor industrial, o cenário vivido foi bem distinto. "Tivemos duas realidades distintas". Com isto, Eduardo Vítor Rodrigues, quer dizer que "houve empresas que se adaptaram, no caso das médias e grandes empresas, mantendo até laboração. Aqui, talvez o efeito mais negativo tenha sido ao nível das encomendas, seja no vestuário, seja na metalomecânica. É uma crise de bloqueio logo, houve encomendas que foram suspensas e algumas foram mesmo anuladas. No lado oposto, houve casos na pequena indústria - quase de garagem - que tem três ou quatro empregados. Aí sim, houve um bloqueio total. Por isso, tem de haver um mecanismo de ajuda específico. Também é muito importante ter atenção às especificidades dos diferentes casos. São necessárias medidas setoriais, para realidades muito distintas".

Seja para a Indústria, o Comércio ou o Turismo, a palavra-chave para o futuro próximo é rapidez. É necessário agir o quanto antes para que Covid-19 não destrua boa parte do fulgor económico, registado nos últimos anos, em Vila Nova de Gaia. Neste capítulo, Eduardo Vítor Rodrigues, destaca a importância da ajuda da União Europeia.

"É urgente. Não pode chegar apenas no verão do próximo ano. Temos de ter alguma capacidade, muito rápida. Vem aí o período de natal e depois a Páscoa, que são muito importantes, do ponto de vista económico, para o concelho. Há um período de tempo em que é preciso dar uma resposta muito rápida e, portanto, quanto mais cedo melhor. Espero que a União Europeia, que foi tão ágil a tomar medidas, perceba que essas medidas não podem depender de burocracias e têm de ser aplicadas rapidamente. Por mim era já amanhã".

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