Pandemia sem manual de instruções faz refém a maior festa do Alto Minho

Este agosto as tradições da Nossa Senhora da Agonia não serão cumpridas em Viana do Castelo, mas não haverá um vazio."Sentir a festa" é o lema a seguir, nas plataformas digitais

COVID-19, O INÍCIO

Viana do Castelo, março 2020. José Maria Costa acompanhava, à distância, o que acontecia no país, em Espanha e no resto da Europa. A Covid-19 era uma realidade incontornável, mas desconhecida.

"Na primeira semana, não sabíamos o que fazer. Não tínhamos um manual de instruções para aquilo que aconteceu", refere o autarca.

Uma semana depois de o novo coronavírus ter sido detetado em Portugal, José Maria Costa começou a delinear uma estratégia para o concelho.

"Percebemos que tínhamos de fazer alguma coisa. Decidimos cuidar e apoiar quem estava na linha da frente, quer na área da saúde, segurança e educação. Dar apoio às IPSS também era importante. Foi tudo muito rápido e muito profundo. Nem os países mais avançados estavam preparados".

Foi também nesta altura que o presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo decidiu criar um gabinete de crise para tomar as primeiras medidas, "era constituído por uma equipa da câmara e um grupo de voluntários. Funcionava de manhã à noite".

RESPOSTA SOCIAL

O contacto permanente com os agrupamentos escolares, cujos elementos foram "incansáveis", também era permanente.

No entanto era nas instituições de solidariedade que se concentravam as atenções e as preocupações. "Os lares tiveram muitas dificuldades".

Foi a área que exigiu mais esforços e respostas rápidas. José Maria Costa recorda que "foi necessário pôr em prática um plano, de imediato. Fornecemos equipamentos de proteção individual, fornecemos comida, retiramos idosos do lar da Santa Casa, demos apoio financeiro e fizemos uma campanha para dádivas de sangue". O autarca de Viana do Castelo não dúvida que a população idosa foi a que sentiu com mais intensidade o impacto da Covid-19. "A questão dos idosos marcou-me muito. Ficarem sem contacto com a família... Daqui para a frente vamos ter que repensar muito estas coisas... estas questões relacionadas com a terceira idade".

IMPACTO ECONÓMICO

"Foi enorme. Viana do Castelo estava a crescer ao dobro da velocidade do PIB da região Norte. Subimos 16 por cento em poucos anos, somos o 16º concelho mais exportador do país". José Maria Costa temeu que este esforço se desvanecesse por causa do novo coronavírus. Por isso não perdeu tempo e tomou medidas que permitissem o reerguer do setor empresarial e comercial. "Semanalmente reunia com a associação que representa os empresários para saber como estava a situação para depois tomar decisões". Os dias marcados pelo receio parecem já ter passado.

Quatro meses depois, "já estamos numa fase de recuperação acentuada na hotelaria e na restauração. Há mesmo unidades hoteleiras que estão a faturar mais que no ano passado". José Maria Costa não tem dúvidas que, para dar a volta, foi "muito importante, em conjunto com a associação empresarial, criar um clima de confiança. Lançamos, também, a campanha 'Comércio Seguro', alargamos o espaço para esplanadas...".

O verão trouxe, ainda, novos investimentos. "Temos duas novas unidades fabris, do setor automóvel, a instalar-se em Viana do Castelo. Uma já está em construção e outra vai começar em breve. No total vão ser criados 270 postos de trabalhos".

Também tem contribuído para a recuperação económica, "a reabilitação urbana, que não parou durante o confinamento".

ESTRATÉGIA E ORGANIZAÇÃO

O presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, desde cedo, percebeu a importância de seguir de perto tudo o que acontecia, ao nível de todas as áreas envolvidas nesta crise pandémica.

José Maria Costa admite que houve um momento de viragem depois de uma decisão que foi tomada em S. Bento, no início do mês de abril. "Foi uma medida muito sensata e perspicaz". O autarca refere-se assim à nomeação, por António Costa, de cinco secretários de Estado como autoridades regionais para coordenar a execução da declaração do estado de emergência.

Para a região Norte foi nomeado Eduardo Pinheiro, secretário de Estado da Mobilidade, a quem não são poupados elogios.

"Rapidamente passamos a ter uma voz de comando que coordenava tudo. Agilizou uma articulação, com os vários serviços, que era mais difícil de fazer até então", José Maria Costa desabafa que chegou mesmo " a sentir falta dos governadores civis. No início, nós falávamos com a administração central a vários níveis. Tínhamos vários patamares de decisão".

TRADIÇÕES

Durante o confinamento, José Maria Costa enfrentou algumas decisões que, até então "eram impensáveis. O que mais me perturbou foi proibir a ida aos cemitérios. No Alto Minho, a ida ao cemitério é uma questão cultural. Tive o despacho por assinar durante três dias, na minha mesa de trabalho".

Outro momento inesquecível, e inédito, prende-se com as festas da Nossa Senhora d'Agonia, existentes desde 1764. Conhecida como a maior romaria de Portugal, este ano vai ser vivida de forma diferente.

"Este ano são umas festas com muita dor. Nunca na minha vida sonhei cancelar as festas".

José Maria Costa explica que esta época do ano, em Viana do Castelo, "vive-se o momento de apoteose de convocação de toda a gente para a celebração da vida, mas, precisamente o valor da vida humana é superior".

Assim, apesar de ser difícil, o autarca não hesitou e optou por, este ano, "ter uma festa virtual. O lema é 'Sentir a Festa'. Vamos reproduzir na internet os principais momentos das festas, como o tradicional desfile de mordomas ou o fogo de artifício".

Ainda assim, e apesar das restrições e medidas de segurança e higiene, as ruas de Viana do castelo não vão ficar totalmente despidas de ambiente festivo. "As mordomas vão andar na rua vestidas, há exposições fotográficas à vista de todos. Quem vier a Viana, vai tropeçar na festa", assegura José Maria Costa. No dia 20 de agosto, a Eucaristia Solene no Santuário de Nossa Senhora d'Agonia, que tradicionalmente acontece de tarde, este ano, vai ser celebrada de manhã e para uma grupo restrito de convidados.

CULTURA EM CASA

José Maria Costa afirma que a chegada da Covid-19 criou "um vazio muito grande, mas a vida tinha de continuar. Gravámos visitas ao museu, filmes de motivação e ânimo". As novas tecnologias passaram a ser o meio privilegiado entre a autarquia e os cidadãos.

José Maria Costa, presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, salienta, ainda, que cooperação a nível intermunicipal foi outro pilar no combate à Covid-19. Presidente da Comunidade Intermunicipal do Alto Minho, o autarca diz que muitas decisões foram concertadas e isso permitiu aumentar a eficácia das mesmas.

Para o futuro fica a lição "que temos de estar preparados sempre para o pior. Aprendemos, também, que temos de cooperar mais juntos e unidos".

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