Conhecimento é base de novo modelo industrial europeu

O investimento em inovação tem crescido nas empresas portuguesas mas está ainda longe da média europeia. Para suprir este fosso é necessária não só uma maior capacitação das empresas, como a sua integração em cadeias de valor estratégicas de nível internacional.

Num momento em que a Europa redefine a sua estratégia industrial e económica, o investimento em conhecimento e inovação é essencial para garantir um melhor desempenho das empresas e melhores condições de vida para a sociedade. Esta é uma das ideias em destaque no estudo "O Impacto da Utilização do Conhecimento no Desempenho Económico Empresarial", realizado em parceria pela Cotec Portugal, Universidade de Aveiro e pela Smart Economics, que terá apresentação pública no final do mês.

"Conseguimos evidenciar que um aumento da intensidade da despesa empresarial em Investigação e Desenvolvimento (I&D) tem um efeito positivo ao nível do investimento industrial, da rentabilidade da própria empresa, da sua capacidade exportadora e da remuneração do trabalho. O impacto sente-se não só no desempenho das empresas mas também na qualidade de vida dos cidadãos e no desenvolvimento do país", afirma Ana Daniel, uma das coordenadoras do estudo.
Ana Botelho, a outra coordenadora desta análise, destaca o caráter inovador e oportuno da mesma, que surge no momento em que se prepara a recuperação da crise económica decorrente da crise sanitária, com a Europa a definir uma nova estratégia industrial e económica de médio e longo prazo para fazer face aos desafios do clima, da transição energética e digital. Para a investigadora da Universidade de Aveiro, esta estratégia só será bem sucedida se tiver por base o desenvolvimento com base no conhecimento.

Inovadoras mas não o suficiente

O estudo põe ainda em evidência que, apesar de haver um claro crescimento em investimento em conhecimento e investigação, a média das despesas ainda está abaixo dos valores praticados na União Europeia (UE). Além disso, a maior aposta das pequenas e médias empresas (PME) na inovação, não se reflete numa maior percentagem de vendas associadas a produtos e serviços inovadores.

"Em 2018 as nossas despesas representavam cerca de 1,4%, ou ligeiramente menos, do PIB e apenas metade desse valor era representado pelo setor empresarial. De acordo com a Estratégia de Inovação Tecnológica e Empresarial definida para o período de 2018-2030, Portugal deveria ter um investimento em I&D de cerca de 3% do PIB e dois terços desse valor deveria ser realizado pelo setor empresarial", explica Anabela Botelho. Em 2018 as empresas gastavam apenas 0,7% e, para que a meta dos 3% seja alcançada, é necessário que tripliquem a despesa com I&D.

Para Jorge Portugal, diretor-geral da Cotec Portugal, o modo como tem sido feito o investimento em inovação ajuda a explicar a situação atual. "Grande parte da despesa em I&D destina-se a estágios mais embrionários do ciclo de inovação e muito menos é investido em fases mais próximas do mercado, nomeadamente na demonstração do conceito, prototipagem e industrialização pré-comercial do produto", diz. Para o responsável - que aponta ainda os níveis insuficientes de patentes e de proteção da propriedade industrial como parte do problema-, é necessária uma maior capacidade de "produtizar, prototipar e industrializar produtos melhorados que são desenvolvidos dentro da empresa" para que haja um crescimento ao nível de novos produtos e serviços inovadores. De modo a acelerar este processo, a Cotec Portugal tem vindo a apostar na capacitação das empresas através de iniciativas como a Xperience 4.0 e Coaching 4.0, bem como através da ajuda às empresas para aplicar as ferramentas de gestão da inovação desenvolvidas pela COTEC.

As coordenadoras destacam ainda o papel do Estado para ajudar as empresas a ultrapassar o fosso que ainda as separa da média europeia, no que toca ao investimento em inovação. " O estudo deixa várias recomendações e uma delas é continuar muitos dos apoios que o Estado tem, nomeadamente à indústria, para que consiga continuar a produção de produtos e serviços de valor acrescentado", diz Anabela Botelho.

O estudo refere ainda a necessidade de inserção das empresas nacionais em cadeias internacionais de valor estratégico atualmente apoiadas pela União Europeia. "Isto leva a que tenhamos de reposicionar muitos dos clusters que desenvolvemos nos últimos anos para que possam incluir-se nestas cadeias de valor com uma posição importante", afirma a investigadora, para quem também é importante potenciar os instrumentos existentes de modo a que cubram toda a cadeia do processo de inovação.

Aposta no longo prazo


O estudo mostra ainda que, mesmo setores qualificados como de "alta intensidade em investigação" estão ainda longe da média da OCDE. "A forma de se colmatar essa situação é, desde logo, estimular uma cultura empresarial mais voltada para a inovação, o que requer modelos de investimento mais centrados no crescimento a longo prazo das empresas e a continuação da aposta na vocação exportadora destes setores", avança Anabela Botelho.

"A I&D é um motor de investimento: se as empresas tiverem uma perspetiva de investimento de médio e longo prazo em novos produtos, isso gera mais inovação, melhor performance económica e financeira, liberta cash-flows que depois se podem investir de novo em mais inovação, mais conhecimento e mais produtos avançados. Esse círculo virtuoso gera maior poder de compra e, por essa via, maior capacidade de atrair talento", garante, por seu turno, Jorge Portugal.
Contudo, como alerta Anabela Botelho, é necessário que todas estas mudanças aconteçam no curto prazo, sob pena de ver acentuada a dependência de Portugal face ao exterior.

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