É necessário fomentar e repensar parcerias entre empresas e sistema científico

Incremento das parcerias entre tecido empresarial e sistema científico, a par com o trabalho de proximidade desenvolvido pelas associações empresariais são fundamentais para aumentar a despesa em I&D.

As parcerias entre empresas e entidades do sistema científico e tecnológico são determinantes para potenciar a inovação baseada no conhecimento. Contudo, o estudo "O Impacto da Utilização do Conhecimento no Desempenho Económico Empresarial", realizado em parceria pela Cotec Portugal, Universidade de Aveiro e pela Smart Economics, mostra que a colaboração entre empresas e universidades, quando comparada com a realidade europeia, ainda é reduzida.

José Carlos Caldeira, administrador do INESC TEC - Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência assume que Portugal ainda não está ao mesmo nível de outros países, mas destaca os progressos alcançados. "Nos últimos dez anos o número de interações entre empresas e entidades do sistema científico e tecnológico tem aumentado significativamente". A necessidade de internacionalização de muitas empresas e a pressão para encontrar formas alternativas de financiamento, sentida pelo sistema científico, estiveram na base deste crescimento.

Mas o responsável do INESC TEC não ignora as dificuldades e aponta como problemas o sistema dual que leva a que quem sai do sistema científico perca o contacto com o mesmo quando passa para as empresas, o desconhecimento mútuo e as dificuldades de convergência estratégica. "Para haver colaboração é preciso que as pessoas se conheçam e possam encontrar um interesse comum. Os casos de maior sucesso são aqueles em que empresas e entidades alinharam estratégias, temos bons exemplos disso nos setores do calçado e metalomecânica".

Para José Carlos Caldeira é ainda importante capacitar as empresas com recursos humanos qualificados, capazes de promover os processos de inovação e I&D, dando o exemplo do INESC TEC, que anualmente forma 200 a 250 jovens altamente qualificados que seguem para o mercado de trabalho. "São pessoas formadas no contexto de projetos de cooperação entre entidades de investigação e empresas e acabam por funcionar como âncoras e pontos de acesso que facilitam a relação entre os dois universos". Mas também é necessário capacitar as entidades do sistema científico com pessoas que saibam publicitar e divulgar o conhecimento gerado e de o transferir para as empresas. "Há trabalho a fazer dos dois lados", garante o responsável.

Para Arnaldo Machado, presidente do Nonagon - Parque de Ciência e Tecnologia de São Miguel, os parques de ciência e tecnologia podem ser um bom interface na relação entre as empresas e o sistema científico. "Um dos objetivos estratégicos do Nonagon é promover a interação entre as universidades, as entidades públicas e o setor privado, promovendo a transferência de conhecimento das instituições de I&D para as empresas" refere o responsável. "Tal como é referido no estudo da Cotec Portugal, a eficácia da transferência e valorização do conhecimento depende da presença de um ecossistema de interação e cooperação entre uma multiplicidade de players económicos", realça.

O Nonagon tem desenvolvido iniciativas de aproximação entre centros de conhecimento - entre os quais a Universidade dos Açores - e empresas e conta ainda com a Go-On, a primeira incubadora de base tecnológica da região autónoma.
Parceiros de proximidade

As associações empresariais, pela proximidade com as empresas, são outros dos atores chave para potenciar uma maior utilização do conhecimento nos processos de inovação. Em Leiria, a NERLEI - Associação Empresarial da Região de Leiria reúne entre os seus associados empresas com experiências distintas no que toca à inovação . "Temos um leque de empresas pequenas, muitas ligadas à Startup Leiria, com capacidade de inovação. Entre empresas mais maduras a percentagem de empresas inovadoras é menor e é nelas que há um trabalho a fazer, porque têm mais capacidade e é onde a inovação poderia ser mais disruptiva", afirma António Poças, presidente da NERLEI.

O estudo da Cotec mostra que nos setores com maior intensidade em I&D colaborativa existe um maior registo de patentes e, para António Poças, é justamente a inovação colaborativa que é importante fazer crescer. "É uma das áreas em que as associações poderão fazer muito. Eu defendo que haveria ganhos em fazer projetos envolvendo empresas de setores diferentes".

André Vieira de Castro, presidente do conselho fiscal da ACIF - Associação Comercial e Industrial de Vila Nova de Famalicão, restringe o número de empresas em que é possível potenciar o nível de inovação. "Há centenas de milhares de PME em Portugal e destas apenas dez mil foram consideradas PME Líder em 2020. As empresas que têm em média 30 pessoas são aquelas em que podemos falar com alguma propriedade se estão ou não despertas para a inovação", afirma.

Para o responsável, as políticas públicas são determinantes para fazer crescer a despesa em inovação e é a área da transição climática que apresenta mais potencial. "Aqui não há qualquer estímulo e há oportunidades de política pública. E só com as associações que estão no território é possível organizar o apoio às empresas", diz, salientando a importância do ecossistema. "Uma empresa grande até pode ter os seus processos de inovação, mas se o território não tiver um ecossistema que lhe traga novos inputs, a prazo também não consegue cumprir os seus objetivos", alerta.

"Tem que haver uma política de território. E as associações vão poder trabalhar na atração das empresas e na sua preparação para se posicionarem nas cadeias de valor. É um trabalho que exige uma relação de proximidade".

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