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Caves Messias. Quatro gerações a fazer vinhos da Bairrada ao Douro

Messias Vigário e José Vigário (à esq.) são a 3.ª geração; Margarida Valente, Henrique Guedes de Campos e Gonçalo Louzada a 4.ª.
Fotografia: Rui Oliveira / Global Imagens
Messias Vigário e José Vigário (à esq.) são a 3.ª geração; Margarida Valente, Henrique Guedes de Campos e Gonçalo Louzada a 4.ª. Fotografia: Rui Oliveira / Global Imagens

Os vinhos Messias comemoram 90 anos, apostando no enoturismo. Na Mealhada, está a ser construído um centro de visitas. Segue-se igual aposta no Douro

O que têm em comum Chuck Berry, a rainha de Inglaterra, Fidel Castro e as Caves Messias? Todos comemoram este ano o seu 90º aniversário. E, pelo menos, no que à rainha de Inglaterra diz respeito, é conhecido o seu apreço pelo Porto, vinho que corresponde a cerca de metade da produção anual das Caves Messias, que assegura 60% das suas vendas.

Mas voltemos ao aniversário, que a empresa comemora a 19 de novembro. Um marco na história das Caves Messias, cujo nome foi buscar ao seu fundador: Messias Baptista, um comerciante da zona da Bairrada, onde se instalou, em 1926. E dali começou a exportar, dois anos depois, vinhos a granel para diversos mercados da Europa. Pergunta seguinte. E o que tem a Bairrada que ver com o vinho do Porto? Nada, a não ser a paixão de Messias Baptista pelo Douro. E foi esse o motivo que o levou a instalar-se no entreposto de Vila Nova de Gaia, onde acumulou grandes quantidades de vinhos velhos e, a partir do qual, iniciou a atividade de exportador de vinho do Porto, também a granel, a partir de 1934. Em 1956 adquiriu a Quinta do Cachão, no vale do Douro, e dois anos depois uma propriedade contígua, a Quinta do Rei.

Hoje, as Caves Messias são geridas por membros da terceira e da quarta geração, apostados em garantir o cariz familiar da empresa por outros tantos anos, mas com uma aposta muito séria na profissionalização em questões mais técnicas, buscando o apoio necessário na viticultura, na enologia, bem como nas áreas administrativas e financeiras.

“Queremos continuar este projeto quase centenário, mas com a noção da necessidade de nos adaptarmos aos tempos atuais. E, por isso, temos de ser muito rigorosos nas sinergias de produção, nos custos, no crescimentos das vendas e no aumento das margens porque, só assim, é que as empresas conseguem sobreviver”, diz José Vigário, o neto do fundador e CEO das Caves Messias.

Com 300 hectares de vinha, distribuídos pelas quintas do Cachão, no Douro, do Penedo, no Dão, e do Valdoeiro, na Bairrada, as Caves Messias produzem anualmente cerca de 4,5 milhões de garrafas, entre vinhos de mesa, espumantes e vinho do Porto. Este corresponde a cerca de dois milhões de garrafas ao ano, mas representa 65% do volume de negócios da empresa que, em 2015, se cifrou nos 8,5 milhões de euros.
Jovens não bebem Porto

Para 2016, as previsões da empresa apontam para um crescimento dos 4% a 5%. Muito longe, ainda, dos 12 milhões de vendas em 2005, mas a recessão nos mercados tradicionais e, sobretudo, a quebra nas vendas do vinho do Porto também se fizeram sentir para os lados da Bairrada. “O vinho do Porto não criou, em alguns mercados, uma imagem para a juventude. Ao contrário dos vinhos de mesa, que têm hoje um padrão interessante entre os jovens, o vinho do Porto foi abandonado por esse escalão etário. Repare, em termos globais, o vinho do Porto teve uma quebra de quase 20%”, diz José Vigário.

Por outro lado, a concentração no setor tornou impossível concorrer nas gamas mais baixas. “Estamos a tentar aumentar o peso dos vinhos com categorias especiais. Uma forma de tentar recuperar aí as margens brutais que perdemos nos vinhos correntes”, garante. Até porque a empresa continua a ter grandes stocks de vinhos antigos, das décadas de 1950, 60 e 70, que lhes permite fazer esta aposta.

Mas a crise em mercados tradicionais para o vinho português, como Angola e Brasil, também ajudam a explicar a performance mais anémica da faturação. José Vigário admite mesmo que “a euforia” que caracterizava o mercado dos vinhos nos últimos anos “se começa a esfumar”.

Mesmo assim, os Vinhos Messias estão presentes em mais de 40 mercados, com as exportações a assegurar 70% das vendas. Alemanha, Bélgica, França e Brasil são alguns dos principais destinos, a par de muitos outros de pequena dimensão, como a Coreia do Sul, Taiwan ou a Guatemala. Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Rússia são países de elevado potencial e no qual a empresa está apostada em aumentar a sua presença. Além dos vinhos da Bairrada, do Dão e do Douro que produz, as Caves Messias compram, ainda, vinhos na região dos Verdes e em Setúbal, que vendem sob as marcas Santola e Messias, respetivamente, de modo a oferecer uma oferta completa nos mercados externos.

Novas aquisições de propriedades é coisa que a administração das Caves Messias não tem em mente. Sobretudo porque grande parte dos 300 hectares de vinha que têm atualmente plantados precisarão, no espaço de uma década, de começar a ser renovados e reestruturados. “Isso vai implicar um investimento muito grande e que não se compadece com a compra de mais áreas de vinha”, sublinha José Vigário.

A grande aposta, agora, é no enoturismo e na renovação e modernização das linhas de engarrafamento na sede da empresa, na Mealhada, e em Vila Nova de Gaia. “Nos últimos três anos, estivemos focados na necessidade de estabelecer regras para o futuro, para a entrada das novas gerações, porque queremos manter a administração da empresa na família, embora recorrendo ao apoio de técnicos em todas as áreas, da produção à enologia, passando pela área administrativa e financeira”, explica o CEO da empresa, que adianta: “Agora, estamos a defrontar-nos com a necessidade absoluta de investimentos, de substituição de equipamentos, de novas linhas de engarrafamento e de melhoria da produtividade. Uma área em que iremos aplicar cerca de 800 mil euros nos próximos dois anos.”

Em curso estão já investimentos destinados à criação de um moderno centro de visitas, com visitas guiadas às caves, salas de provas e loja para compra dos vinhos Messias, nas instalações da sede da empresa, na Mealhada. Um custo calculado em cerca de 150 mil euros. “Logo que acabarmos aqui e tivermos algumas verbas disponíveis, avançamos para o Douro”, diz o empresário. O objetivo aí é construir também um centro de visitas, mas dotado de uma pequena unidade de alojamento.

 

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