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Benefício. Hino ao capitalismo sustentável

Ricardo Nunes e Paulo Fernandes, fundadores da empresa Beneficio.
Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens
Ricardo Nunes e Paulo Fernandes, fundadores da empresa Beneficio. Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens

Ricardo Nunes e Paulo Fernandes transformaram uma filosofia de mercado num negócio humanista

Sabe aquelas pessoas que estão sempre a utilizar a mesma expressão? Ricardo Nunes é uma delas. A palavra benefício há muito que faz parte do seu vocabulário diário. “Utilizo a toda a hora. É um chavão para caracterizar bons momentos. Por exemplo, se vou jantar fora com amigos, chamo a isso o beneficio da amizade.” E de tanto benefício, para trás e para a frente, decidiu um dia registar a marca e comprar o domínio na internet. Transformar a expressão em negócio foi o salto que faltava e que veio depois de várias conversas e encontros com Paulo Fernandes, amigo de longa data.

“Percebemos que tínhamos uma visão comum sobre a atividade económica mundial. Hoje em dia há um capitalismo selvagem, insustentável, que pode levar à destruição de tudo. Deixou de haver tempo para as pessoas fazerem bem as coisas”, conta Ricardo. O desafio foi transformar a filosofia que os dois partilhavam num plano de negócio. “Vimos que era possível. Não precisávamos de renegar o capitalismo, mas aproveitar o melhor que ele tinha enquanto força motriz de dinheiro e produção na sociedade, adaptando-o a valores humanistas e éticos.”

Foi assim que nasceu o Benefício: uma startup que lança edições limitadas de produtos, que renega a grande escala e que valoriza o valor de produção. Ricardo e Paulo vão à procura de criativos e põem-lhes as ideias em prática. Materializam conceitos de uma forma sustentável para todos os envolvidos. “Lógico que acaba por impactar os preços. Mas trazemos um valor acrescentado. Se o trabalho é melhor, o produto também acaba por ser”, explica Paulo Fernandes. E, dessa forma, o Benefício acaba por ser para toda a gente.

À partida, os fundadores da empresa desconhecem o que é que vão estar a comercializar. “Vamos conversando aqui e ali e temos mente aberta para tudo. Quando sentimos que o nosso modelo se encaixa nalguma ideia, avançamos.” Por isso, a frase de posicionamento da empresa é “ninguém sabe o que é, mas vai ser incrível”. E é assim que tem corrido, incrivelmente – dizem os fundadores, com a primeira edição que a marca lançou: o azeite Benefício. Ricardo Nunes enumera as razões que os fizeram optar por este produto. “Foram os que ficaram mais entusiasmados com o nosso modelo. Além disso, Portugal é um país produtor de azeite e vimos de uma zona, Abrantes, onde o azeite é uma grande fonte de receitas e desenvolvimento.”

A ; série, de 100 unidades, foi posta à venda a 31 de outubro de 2016 e, ao final de três meses, já vendeu 60% do stock. “Se conseguirmos esgotar esta primeira edição é porque o nosso modelo tem pernas para andar”, garantem Paulo e Ricardo, que adiantam que 15% foi exportado para o estrangeiro, para sete países fora de Portugal. O primeiro trimestre do negócio serviu como teste da viabilidade da startup. Lançaram a empresa, o site, testaram a rede de distribuição, o produto e as vendas. Os resultados têm sido mais que positivos. “Neste momento a empresa é autossustentável desde o primeiro dia,” assegura Paulo Fernandes.

Mas até chegarem ao primeiro dia, muito aconteceu. Ricardo Nunes e Paulo Fernandes formalizaram entre eles o acordo de arranque para a criação do Benefício a 21 de abril de 2015. O ano seguinte foi passado em estudos, ajustes e negociações. Construíram a marca, definiram a estratégia e a visão do negócio e elaboraram um extenso manual de regras éticas. “É o nosso documento mais importante e tem sido melhorado ao longo do tempo, com situações que nos vão acontecendo. Por exemplo, já nos quiseram comprar sem IVA. Mas nós não concordámos. Temos de pagar impostos. Temos de fazer a nossa parte. É a nossa filosofia”, sublinha Ricardo.

A filosofia da marca engloba ainda outros valores. Por exemplo, o da construção sustentada da empresa. “A maior parte das startups quer um crescimento muito rápido e tem em vista um exit. Nós preferimos construir uma empresa sadia, que vende, estruturada, que não precisa de ninguém. Todo o investimento foi feito com capitais próprios e agora a empresa tem de caminhar pelo próprio pé.” Por isso, definiram um plano de lançamento da ideia a cinco anos, que teve de ser encurtado para dois. Uma vez que Paulo Fernandes perdeu o emprego, todo o projeto teve de ser reajustado. Atualmente Paulo dedica-se ao Benefício a tempo inteiro. Já Ricardo ainda mantém o seu posto de trabalho numa agência de meios. “Por agora estamos focados na auto sustentabilidade da empresa e só depois vamos à capacidade de contratação e pagamento de salários”, explicam os fundadores.

A empresa está sediada em Óbidos. Era importante estarem numa localização que fosse relativamente perto de Lisboa e que, por outro lado, tivesse acesso a produtores certificados que pudessem beneficiar do modelo de negócio do Benefício. “Um dia fui ter com um amigo ao OBITEC, o Parque Tecnológico de Óbidos. Acabei a falar com a direção e naquele momento decidimos fazer a sede ali”, recorda Ricardo Nunes. Mas a história da empresa está ainda ligada a outro organismo: a Startup Lisboa, onde a marca está também incubada virtualmente. “A abordagem colaborativa da Startup Lisboa é incrível e vai muito ao encontro do que nós acreditamos.”

Atualmente, o Benefício está já a trabalhar na edição de um segundo produto que sairá brevemente para o mercado. O objetivo para 2017 é a colocação de 25 edições, cada uma com cem unidades. Uma centena é o limite máximo que os dois fundadores se permitem fazer de cada item. Acreditam que o sucesso da startup assenta precisamente no lançamento de edições limitadas, personalizadas e numeradas. Consideram-se contra o conceito de escala. Mas só até certo ponto. Porque em termos de potencial de crescimento do negócio, o céu é o limite. “Temos um sonho. Sabemos que há pessoas que pensam como nós em Portugal. Mas haverá igualmente, de certeza, quem pense como nós no mundo inteiro. Também vamos querer chegar a elas,” assegura Ricardo Nunes.

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