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Trazer à Terra o que de melhor se faz no Espaço

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Trazer à Terra o que de melhor se faz no Espaço

A Agência Espacial Europeia apoia empresas que utilizem a tecnologia do espaço em negócios terrestres. Em Portugal, o centro é em Coimbra

No século XVI, o matemático Pedro Nunes inventou o nónio, um instrumento de medição utilizado para planear a navegação marítima. O nónio foi melhorado ao longo dos séculos, inclusive por Albert Einstein, e chegou a servir para cálculos astronómicos. É um exemplo de como a tecnologia terrestre pode ser aplicada ao plano do espaço. Mas a Agência Espacial Europeia (ESA) pretende exatamente o contrário: que se consiga dar aplicação na terra às invenções inicialmente concebidas a pensar no espaço.

“A tecnologia espacial é muita cara e todos os anos uma fatia considerável do dinheiro dos contribuintes é atribuída a programas relacionados com o espaço. Para tentar rentabilizar esses custos, a ESA apoia empresas que deem uma aplicação terrestre a essa tecnologia espacial. Ou seja, quer que a investigação fora de órbita, para além do benefício que traz ao sabermos mais sobre o espaço, possa também beneficiar a sociedade civil e a economia europeia”, explica Carlos Cerqueira, diretor de Inovação da ESABIC, o centro de incubação português da Agência Espacial Europeia.

A nível europeu, a ESA tem 16 incubadoras, espalhadas por 13 países. O programa em Portugal está em funcionamento desde 2014 e desdobra-se por três localizações: em Cascais, na agência DNA Cascais, no Porto, no UPTEC – Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, e em Coimbra, no organismo que adotou o nome do matemático português do século XVI, o Instituto Pedro Nunes, a partir do qual é feita a coordenação portuguesa da ESABIC.

Atualmente são 12 as startups que beneficiam do programa de incubação da Agência Espacial Europeia. A tecnologia que mais tentam adaptar para negócios terrestres é a utilização dos satélites de localização e navegação GNSS (semelhante ao GPS mas mais abrangente, uma vez que o GPS é utilizado exclusivamente por satélites norte-americanos).

“Temos um dispositivo que é colocado na coleira de um animal de estimação, que se liga a pelo menos três satélites ao mesmo tempo, para obter uma localização precisa que, depois, é enviada para o telemóvel do dono”, explica André Carvalheira da Findster, uma das startups incubadas no ESABIC. Em 2016, a empresa protagonizou a maior campanha portuguesa de crowdfunding, ao arrecadar 250 mil dólares (236,63 mil euros) na plataforma Kickstarter, vendendo para mais de 60 países. Mas os satélites GNSS não servem só para localizações, afirma Jorge Vieira, do projeto Undersee da empresa Matereo, outra das incubadas.

“O nosso projeto faz a monitorização da qualidade da água em ambientes subaquáticos, utilizando os satélites para leituras óticas à superfície e também sensores locais”. A tecnologia GNSS é usada ainda pela Airborne, que tem um sistema de trocas de baterias de drones. “Os drones são utilizados para diversos fins – lúdicos e mais nobres – e uma das maiores dificuldades é a autonomia das baterias. Com este sistema conseguimos ter estações de carregamento e fazer com que o dispositivo pare lá. Como o GNSS está com mais satélites, conseguimos determinar com maior precisão o local da aterragem automática dos drones”, assegura Pedro Alves, da Airbourne.

Para além dos satélites GNSS, outras tecnologias são exploradas. A ESA disponibiliza 150 invenções e 450 patentes espaciais para que as empresas lhes possam conferir uma utilização comercial. A SpaceLayer utiliza imagens em tempo real de observação da Terra. “Queremos minimizar o risco de poluição atmosférica. Usamos dados e imagens de satélite de observação da Terra que nos fornecem informação sobre a qualidade do ar. Pode ser muito útil, por exemplo, para pessoas com doenças respiratórias,” indica Pedro Caridade, da SpaceLayer.

A Active Aerogels é uma spinoff da portuguesa Active Space e comercializa há quatro anos os aerogeis desenvolvidos para finalidade espacial pela casa mãe. “O aerogel serve para isolamento térmico. É um produto com boas performances e permite ser usado numa amplitude muito grande de temperaturas, de – 250 a 400 graus. Obviamente que, com esta capacidade, é ideal para o espaço, mas o espaço não é suficientemente comercializável”, refere Bruno Carvalho, da Active Aerogels. “Estamos a perceber até onde conseguimos ir no preço para saber que aplicação conseguimos ter. Estamos a ir a mercados como os pipelines, os gasodutos, a aeronáutica até chegar lá abaixo à construção civil”.

Findster, Matereo, Airbourne, SpaceLayes e Active Aerogels são cinco das 12 empresas presentes nos três locais do centro de incubação português da Agência Espacial Europeia. Mas o ESABIC Portugal está à procura de novas incubadas. Os próximos prazos para submissão de candidaturas este ano são a 13 de junho e 31 de outubro. Para serem elegíveis, as startups têm de ter até cinco anos e fazerem a comercialização terrestre de tecnologia espacial.

Os projetos são apoiados com 50 mil euros para a construção de protótipos e aquisição de propriedade intelectual, apoio de negócio e técnico, e acesso a uma rede de potenciais clientes, parceiros e investidores. A avaliação e seleção de projetos é feita diretamente pela Agência Especial Europeia, com o apoio dos parceiros portugueses. O objetivo é que até 2020 o centro de incubação português apoie 30 empresas, representando um total de 240 postos de trabalho e 6,5 milhões de euros de capital angariado.

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