A taberna do avô reinventada

Falta pouco para o meio-dia e meia em Silha do Pascoal, Grândola. A chuva miudinha obriga Belinda Sobral, 29 anos, a abrigar-se no guarda-chuva arroxeado.

Sobe para a bicicleta adaptada - com três rodas - e pedala de chapéu em punho. Faltou hortelã para o almoço dos cinco clientes marcados para o meio-dia e meia hora e Belinda vai pedir a uma vizinha para lhe dispensar um raminho da horta. "As ervas e os legumes são nossos, as galinhas e os frangos também, os ovos são de uma senhora que os traz cá, o pão é entregue todos os dias pelo padeiro e hoje, até os clientes trouxeram a lebre para se cozinhar. É tudo daqui", conta. Na cozinha, Edeme, mãe de Belinda - e a responsável pelos petiscos da taberna -, divide as atenções entre a faca com que corta as batatas e a canja que tem ao lume.

Antes da ida à horta, Belinda preparou a mesa marcada para o meio dia e meia: paio e azeitonas, queijo curado e pão fresco, alentejano. O ritual repete-se sempre que há marcações para o almoço: nem há um ano - faz um ano a 15 de junho - reabriu a taberna do avô materno, Daniel, que já tinha estado sob os cuidados da mãe da engenheira do ambiente.

Belinda já tinha planos para a antiga taberna/mercearia há muito tempo, mas foi só aos 29 anos que concretizou o objetivo. Despediu-se do trabalho numa empresa de tratamento de resíduos tóxicos - resultado da licenciatura em Engenharia do Ambiente e do mestrado em Higiéne e Segurança no Trabalho - para viajar pelo mundo com o namorado, Gil, quando descobriu que estava grávida da filha, Melinda, de dois anos.

A gravidez precipitou o sonho de reconstruir e readaptar as antigas taberna e mercearia do avô Artur, na aldeia alentejana perto de Grândola. "Mesmo quando andava a trabalhar estava sempre a tirar notas para apoios, para apresentar o projeto em programas. Não gostava do trabalho, todos os dias tinha de ir trabalhar e não tinha muita vontade de fazer aquilo. Já tinha estes planos, aproveitei a oportunidade", conta.

Um ano e meio antes da reabertura, arrancaram com as obras do telhado, as primeiras da reabilitação. "Se na altura me dissessem que ia ter de investir 50 mil euros, não avançava porque não os tinha. Mas além de dinheiro meu, tive a ajuda preciosa dos meus pais, irmão, e de alguns amigos que confiaram em nós. Aos poucos, fomos investindo e pondo as coisas de pé", lembra.

O projeto que tinham pedido a um arquiteto - e que previa a destruição e construção de uma taberna completamente nova - foi anulado em prol dos planos de reconstrução do edifício que já existia. Belinda decidiu recriar a taberna do avô em tudo o que se lembrava: as mesas, o balcão, as toalhas aos quadrados, os móveis de madeira onde se guardavam os cereais, pés de máquinas de costura a fazerem as vezes das pernas das mesas e até vassouras e pás antigas, penduradas nas paredes.

"Fui criada aqui. Arrumar as coisas nas prateleiras, os cheiros, ficou aqui tudo dentro de mim. Eu quis, de alguma maneira, recriar esse ambiente e dar valor a isto, a esta casa, que tem muita história. O meu avô era uma pessoa muito especial, fazia quadras, levava o avio às pessoas, lia imenso. Não tinha só objetivo de vender, tinha uma visão de expansão. Por isso é muito mais do que estar atrás do balcão", diz. Sem nunca esquecer os versos do avô Artur: "Na Silha há um café,/ Para o povo bem servir/ Quem entra servido é,/ Nunca mais deixa de vir.", escritos na parede da mercearia. As obras foram sendo documentadas no blog de Belinda, uma ponte entre a calma do Alentejo e o frenesim da grande cidade.

E, como diz a engenheira-taberneira, uma janela de inspiração. "Encontro pessoas como eu, com projetos parecidos, de coisas fora de mão, e que lhes conseguiam dar outra visibilidade. É uma forma de manter a ligação com as grandes cidades: aqui não se passa nada, é uma paz de alma, e a blogosfera é a minha janela para o mundo", diz.

Por isso, talvez ainda custe aos clientes engolir a presença da engenheira que quis ser taberneira. A eles e ao pai de Belinda que, apesar do orgulho continua cético quando a filha fala nos planos que tem para o monte com centenas de hectares que fica a uns 10 minutos de carro da taberna. "Gostava de montar aqui um projeto de turismo rural sustentável. Fazer os petiscos na taberna, quem sabe levá-los lá ao monte, e sim, aliar isto ao turismo rural." Os testes já foram feitos a uma escala mais pequena, com um retiro de ioga, uma ideia de Gil, namorado de Belinda.

Uma coisa é certa: o projeto ainda tem muito que crescer. "Isto não é um restaurante nem uma taberna de estrada. Aqui não passa uma estrada principal, aqui as pessoas vêm de propósito. Têm de conhecer, com o passa palavra. Sabem que temos cá umas açordas boas, ou um petisco assim ou assado." Mas é, além dos petiscos, um ponto de encontro da aldeia e uma espécie de jornal local. "Onde as pessoas se encontram para fazer negócios, ou onde vêm para encontrar alguém. Para conversar, para tomar café, para ler o jornal, para passar tempo. Aqui sabemos de tudo." É mais do que tudo, um "negócio do coração." "Se estivesse aqui por dinheiro já tinha ido embora."

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