Tecnologia

Apis Technology. Todas as abelhas merecem uma casa inteligente

Tecnologia nascida em Aveiro quer revolucionar a maneira como os apicultores tratam das suas abelhas. 

Às vezes, Miguel Bento, 26 anos, parece rever e reviver os dias que passava, durante a infância, em casa do avô, sempre curioso com as questões relacionadas com abelhas. Mas, ao contrário do avô – e também do bisavô – que abriram e espreitavam para dentro das colmeias que tinham para perceberem o que se passava com elas e ver se as abelhas produziam mel, o engenheiro eletrotécnico e de telecomunicações decidiu pensar numa maneira de facilitar o processo, reduzindo o tempo dedicado e aumentando a produção.
Foi isso que o fez começar, há cerca de dois anos, o projeto da Apis Technology, startup fundada na Incubadora de Empresas da Universidade de Aveiro e que tem como objetivo simplificar a gestão das colmeias e rentabilizar a produção do mel. Como? Miguel explica. Mas antes, conte-se como começou.

Miguel Bento comprou as primeiras abelhas, talvez influenciado pelo avô e pelo bisavô que tinham “meia dúzia de colmeias”. Um dia, as abelhas do avô morreram todas, “com uma doença qualquer, e ele aborreceu-se com aquilo”. Miguel foi dar com o material todo arrumado a um canto, arranjou um enxame. “Havia problemas que eu detetava que aconteciam com a minha colmeia e comecei a tentar resolver o assunto. Contactei produtores, procurei soluções, experimentei”, conta, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

O engenheiro eletrotécnico e de telecomunicações sempre soube que, a seguir à licenciatura, queria ter um negócio próprio, mas só quando integrou a incubadora de empresas percebeu que o negócio bem podia começar pelo gosto que tinha pelas abelhas e pelo mel. Até porque foi lá que Miguel Bento conheceu o sócio, o economista Joel Oliveira, de 27 anos, onde ambos estavam a tentar desenvolver ideias de negócio.

A ideia em que Joel estava envolvido não avançou mais do que nos primeiros meses e Miguel percebeu que podia ter no economista, também formado em Aveiro, o parceiro ideal para a aventura empresarial que havia arrancado uns meses antes.

“Fomos trocando alguns serviços e o Joel acabou por ficar a trabalhar comigo”, recorda. Começaram com duas vertentes: por um lado, desenvolver uma colmeia especial que conta com uma tripla parede com revestimento intermédio, que garante melhor isolamento térmico da colónia perante as variações de temperatura externa e pintada com uma tinta elástica de cortiça que aumenta o isolamento e a sua resistência à humidade e às deformações próprias da madeira. Por outro, o desenvolvimento de uma aplicação que, além de monitorizar tudo o que se passa nas colmeias que lhe estão associadas, tem várias outras funções: alerta os apicultores para a necessidade de visitas e inspeções às colmeias (entre 60% a 70% das inspeções feitas atualmente são desnecessárias e prejudicam a colmeia), gestão de viagens aos apiários, notificações relativas ao espaço necessário dentro das colmeias, à falta de alimento das abelhas e até informação GPS sobre a localização das colmeias. Tudo a partir de uma aplicação disponível para smartphone e iPad.

(Maria João Gala / Global Imagens)

(Maria João Gala / Global Imagens)

“Durante o verão, as abelhas mantêm a temperatura da colmeia, espalham água para manter o espaço fresco. E no inverno não produzem mel: vibram no centro da colmeia – a forma que encontram para aquecer e sobreviver – e alimentam-se do mel que produzem no verão. Durante todo o ano, as abelhas climatizam naturalmente a colmeia. Mas, controlando e mantendo uma temperatura mais ou menos constante, reduzem-se os riscos de que morram de fome no inverno, por falta de alimento. E aumenta-se a produção de mel no verão”, explica Miguel.

Miguel Bento e Joel Oliveira são fundadores da Apis Technology, uma startup que criou uma colmeia inteligente e uma solução de monitorização de colmeias. (Maria João Gala / Global Imagens)

Miguel Bento e Joel Oliveira são fundadores da Apis Technology, uma startup que criou uma colmeia inteligente e uma solução de monitorização de colmeias.
(Maria João Gala / Global Imagens)

Com a solução criada pela Apis, em cada apiário passa a existir um módulo de comunicação responsável pela recolha da informação da colmeia (postura da rainha, temperatura interna e externa, atividade, humidade e sinais de enxameação), sensores que leem os parâmetros relativos a cada colmeia, um medidor de fluxo da colmeia para perceber quantas abelhas entram e saem – e quando – e ainda uma balança para pesar a casa das abelhas. É que, se no inverno, as colmeias podem ter 10 a 15 mil abelhas, no verão a ocupação pode chegar às 60 a 70 mil sendo que, cada abelha produz, em vida, uma colher de mel e vive entre entre 3 a 6 meses.

“Trabalhámos durante meses no desenvolvimento de um sistema de climatização mas não desistimos da ideia. Decidiram apenas que ficaria para mais tarde”, recorda Miguel.

Mas se, nos primeiros meses, Miguel e Joel queriam desenvolver duas ideias em simultâneo, em dezembro decidiram parar por um tempo o desenvolvimento das colmeias Apis, já em produção, e passaram a focar-se no sistema de monitorização e otimização da aplicação, aplicável a qualquer colmeia, de maneira a poderem chegar a mais apicultores sem necessidade de um sistema específico. “Trabalhámos durante meses no desenvolvimento de um sistema de climatização mas não desistimos da ideia. Decidiram apenas que ficaria para mais tarde”, recorda Miguel. A startup assegura que estas colmeias aumentam em 50% a eficiência energética face a uma colmeia comum, partindo de uma premissa base: controlar a temperatura das colmeias à distância, de maneira a prever variações e, com isso, evitar problemas.

Com um investimento de cerca de 20 mil euros em capitais próprios, entretanto, à equipa da Apis juntaram-se outras duas pessoas, ambos programadores, que também estudaram na Universidade de Aveiro, e que têm impulsionado o desenvolvimento do software associado à colmeia inteligente. O passo seguinte foi encontrar indústrias capazes de produzir a colmeia, que deverá chegar ao mercado norte-americano e europeu – os dois prioritários para a empresa – até ao início do próximo ano.

Por agora, as colmeias inteligentes estão em fase de testes, na exploração de um apicultor português. A solução, além de tratar dos apiários existentes tem mais uma qualidade preciosa: o software consegue selecionar a melhor colmeia para produzir e, a partir dela, melhorar a gestão de toda a exploração. Os kits podem incluir um sistema de monitorização completa, recolha os dados da colmeia e o módulo apiário (220€+60€). A colmeia custa 90 euros. “A solução promete um ligeiro aumento de produção mas um grande aumento de eficiência da colmeia”, garante Miguel.

Aveiro, 28-06-2016 - Miguel Bento e Joel Oliveira são fundadores da Apis Technology, uma startup que criou uma colmeia inteligente e uma solução de monitorização de colmeias. Maria João Gala / Global Imagens)

(Maria João Gala / Global Imagens)

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
O presidente do Novo Banco, António Ramalho, discursa na cerimónia de lançamento do Projeto de Divulgação Cultural do Novo Banco. Fotografia: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Banca custou ao Estado mais 1,5 mil milhões de euros em 2019, agora ajude

coronavirus portugal antonio costa

Proibidos ajuntamentos com mais de cinco pessoas. Aeroportos encerrados

O primeiro-ministro, António Costa, fala aos jornalistas no final da reunião do Conselho de Ministros após a Assembleia da República ter aprovado o decreto do Presidente da República que prolonga o estado de emergência até ao final do dia 17 de abril para combater a pandemia da covid-19, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, 2 de abril de 2020. 
 MÁRIO CRUZ/POOL/LUSA

Mapa de férias pode ser aprovado e afixado mais tarde do que o habitual

Apis Technology. Todas as abelhas merecem uma casa inteligente