Web Summit 2018

Três jovens brilhantes da tecnologia para quem ir à escola é “perder tempo”

Ananya Chadha
( Álvaro Isidoro / Global Imagens )
Ananya Chadha ( Álvaro Isidoro / Global Imagens )

Fazem parte de programas “aceleradores de pessoas” e acham que estudar é perder tempo. Os líderes do futuro tratam a tecnologia mais avançada por ‘tu’

Podia ter um emprego na Google mas foi obrigada a dizer que não. A empresa propôs-lhe um contrato a tempo inteiro, na divisão de carros autónomos, mas Ananya Chadha só podia fazê-lo em part-time. Caso contrário, teria de deixar o ensino secundário por concluir.

Ananya tem 16 anos e vive em Toronto. Nasceu em Madagáscar e antes de assentar no Canadá passou pelo Vietname e Dubai. Para se adaptar à escola canadiana, os pais decidiram inscrevê-la em todas as atividades extracurriculares. “Literalmente todas. Fiz ginástica, xadrez, natação, música… Acho que o facto de ser exposta a todas as coisas antes de escolher o que realmente gosto me trouxe onde estou hoje”.

Hoje, a adolescente Ananya é financiada pela Microsoft para desenvolver interfaces cérebro-máquina. Ou seja? “É a tecnologia que permite ligar o nosso cérebro a computadores. Por exemplo, já criei um carrinho de brincar e uma prótese que podem ser controlados através do cérebro”, conta a estudante ao Dinheiro Vivo durante a Web Summit, na qual foi uma das mais jovens oradoras convidadas.

Ananya Chadna chegou à cimeira através da The Knowledge Society (TKS), “um programa de inovação que, em vez de acelerar empresas, acelera pessoas. Enquanto as aceleradoras criam empresas multimilionárias, a TKS tenta criar as pessoas inteligentes que vão fundar as empresas multimilionárias. Expõe-nos a muita tecnologia experimental, como blockchain, nanotecnologia ou realidade virtual, e nós escolhemos a que mais gostamos para desenvolver um projeto”, explica.

Resolver o grande puzzle
Quando concorreu à TKS, o interesse de Ananya era a genética, à qual se dedicou durante “imenso tempo”. Durante dois anos, trabalhou num laboratório em Toronto, onde aprendeu “edição genética de mutações que causam doenças”.

Mas foi aos 12 que entrou num laboratório pela primeira vez, para uma investigação sobre a doença mitocondrial. Os anos frenéticos da adolescência levaram a que aos 14 vivesse a fase blockchain. “Aprendi muito depressa e decidi criar a minha própria criptomoeda, só para ver se era capaz”. E foi.

Leia mais: Blockchain, uma moda ou o futuro?

Pelo meio, tirou o brevet de piloto e voou aos comandos de um Cessna 182. O convite da Google chegou depois de Ananya ter concluído um curso online “muito intenso” sobre carros autónomos. E porquê tantas áreas e tão diferentes? “Porque no fundo acho que estão todas relacionadas. É como se fossem peças de um grande puzzle. Para ver como é que encaixam tenho de compreender todas”.

Questionar Ananya sobre planos para o futuro é receber de volta uma gargalhada. “Posso dizer quais são os meus planos para os próximos meses. Terá definitivamente algo que ver com machine learning. Estou a criar um projeto em que duas máquinas competem uma com a outra para se tornarem melhores. Acho que posso afirmar com segurança que no final do próximo ano vou conseguir criar a minha empresa”, adianta.

Em que área ainda não sabe. Quer “apenas” resolver um dos grandes problemas da humanidade, como o tráfico de pessoas ou a fome no mundo, afirma. “Tem de ser algo que tenha impacto na vida de milhões de pessoas. Mas ao mesmo tempo tem de me fazer feliz, senão não faz sentido”.

No meio de tanta tecnologia, onde ficam os estudos? “Acho que vou entrar para universidade e talvez fazer o primeiro ano, para ver se gosto. Mas o que quero mesmo é ficar tão ocupada que serei obrigada a desistir. Há dez anos, se quisesse aprender sobre interfaces cérebro-máquina precisaria de um doutoramento. Hoje posso aprender sozinha na internet”.

“Estudar é perder tempo”
Tal como Ananya, também Ben Nashman acredita na filosofia da “auto-educação”. São amigos, frequentam o mesmo programa de aceleração para “líderes emergentes” e ambos colocam Elon Musk no pedestal dos deuses tech.

Ben tem 18 anos e também veio a Lisboa falar aos seguidores de Paddy Cosgrave. E como Ananya, está igualmente a trabalhar num projeto que promete “mudar o mundo. E ir mais além”.

Ben Nashman (Diana Quintela/ Global Imagens)

Ben Nashman
(Diana Quintela/ Global Imagens)

É fundador da Synex Medical, uma startup que, através da tecnologia das ressonâncias magnéticas, está a desenvolver um protótipo capaz de fazer análises ao sangue não invasivas. O objetivo é “miniaturizar a tecnologia e criar um dispositivo móvel que qualquer pessoa possa usar, evitando idas ao médico”.

Ben não se considera um génio e, garante, não sente a pressão de ser um adolescente a falar para uma plateia de adultos sobre algo que já era estudado antes de ele próprio nascer. “Há 30 anos que se trabalha em análises não invasivas. Confesso que me surpreende como é que tanta gente tentou e falhou. Alguns investigadores conseguiram recolher dados, mas a margem de erro era demasiado grande para serem usados. Acho que não foi investido dinheiro suficiente nisto”.

O estudante canadiano começou a pensar no protótipo quando, há quase dois anos, conseguiu um estágio num hospital de Toronto, através da TKS. “Tive acesso a recursos fantásticos e a mentes brilhantes”. A empresa vai de vento em popa, e não lhe passa pela cabeça dedicar-lhe menos tempo por causa de um curso superior: “Quero levar a Synex o mais longe possível, é a minha prioridade. As pessoas estudam, porque lhes dá uma rede de segurança. Mas acho que cada vez mais o mercado de trabalho dá valor a competências úteis, que não se aprendem numa sala de aula. A escola acaba por ser uma perda de tempo para quem quer concretizar coisas, porque ocupa-te dos 18 aos 22 anos, que são anos muito valiosos”, explica.

É por isso que olha para o fundador da Tesla como inspiração. “Ele tem uma ideia e executa-a. Eu respeito muito isso. É a base de todas as decisões que tomo. Acho que há demasiadas pessoas que têm a possibilidade de mudar o mundo mas hesitam muito e não fazem nada”.

“Fazemos 50 bebés por dia”
Lea Von Bidder já passou a faixa etária que tem de decidir se vai entrar para a faculdade. Ao contrário de Ben e Ananya, a empreendedora suíça cumpriu o guia de expetativas da sociedade à risca.

Mas a ânsia de fazer coisas e carimbar projetos com o seu nome estava lá. Duas semanas depois de ter o canudo na mão, Lea mudou-se para a Índia para abrir uma fábrica de chocolate. Há um ano, a revista Forbes colocou-a na lista dos 30 under 30, que junta os 30 jovens mais promissores do mundo em vários setores.

 Lea Von Bidder, fundadora da Ava Science (Filipe Amorim / Global Imagens)

Lea Von Bidder, fundadora da Ava Science
(Filipe Amorim / Global Imagens)

Na Web Summit, Lea veio apresentar a Ava Science, uma startup que criou uma pulseira inovadora, que permite às mulheres saber qual a melhor altura para engravidar. “Adoro resolver problemas e sou apaixonada por ambas as coisas”, responde quando questionada sobre a relação entre o chocolate e a saúde reprodutiva feminina.

“Ainda estava a estudar quando percebi que o mercado indiano do chocolate estava a crescer. Então mudei-me para Bangalore. Era um trabalho muito criativo, porque podia fazer bolos e chocolates”, conta.

A vida de Willy Wonka durou um ano e meio. “A certa altura senti que aquele negócio crescia muito devagar. Para produzir mais precisávamos de mais uma máquina, e por aí adiante. Eu queria mais. Queria algo que crescesse muito e depressa, e isso só era possível na tecnologia. Então aprendi a programar”.

A Ava nasceu quando Lea tinha 25 anos. “Foi difícil porque ninguém leva uma miúda de 25 anos a sério. Principalmente na Europa, onde a hierarquia tradicional de uma empresa obriga a que o teu chefe seja mais velho que tu. Em São Francisco é um pouco diferente”.

A mudança para Silicon Valley trouxe um choque de realidade diferente. “Há um problema gravíssimo no setor tecnológico que é a falta de mulheres. Ou pelo menos a falta de mulheres bem-sucedidas. Estava habituada a olhar para os conselhos de administração das grandes empresas e só ver homens. Mas se isso acontece também nas startups, isso já é um problema da sociedade”. No ano passado, lembra, só 2% do capital de risco foi investido em empresas fundadas por mulheres.

“O empoderamento feminino sempre foi essencial para mim, e a Ava também é resultado disso, porque a saúde feminina é uma área que continua a ser estigmatizada e onde há pouca investigação”.

Em três anos, a Ava Science já ajudou a conceber milhares de crianças. “Hoje fazemos cerca de 50 bebés por dia”, brinca. Lea acredita que o seu futuro passa por ficar na Ava “durante muitos anos, porque o nosso trabalho está só no início”. A única meta que diz ter para o futuro é “ter um impacto enorme no mundo e ajudar a salvar vidas”. Com Ananya e Ben, Lea Von Bidder partilha mais do que uma mente brilhante. Os líderes do futuro não sabem o que é a vida sem tecnologia, e estão a usá-la para fazer a diferença.

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