empreendedorismo

Ashok Rao. Fazedor em série ou como não barbear o Super-Homem pela manhã

Ashok Rao esteve em Lisboa para participar nas Jornadas de Empreendedorismo da Universidade Europeia.
Ashok Rao esteve em Lisboa para participar nas Jornadas de Empreendedorismo da Universidade Europeia.

Fundador da maior rede de empreendedores do mundo defende que o Portugal fazedor tem muito que crescer. A corrida começa agora, depois da crise.

Primeira revelação: um fazedor não é um super-herói. “Digo sempre aos jovens que me dizem querer ser empreendedores: quando estás de manhã, em frente ao espelho, não barbeias o Super-Homem. A perfeição não existe. Quem está ao espelho é exatamente a mesma pessoa, com todos os defeitos e fraquezas. Podemos sempre melhorar”, explica Ashok Rao, indo-americano de 65 anos, dono de cinco start-ups tecnológicas e, durante os últimos quatro anos, chairman da TiE (que significa The Indus Entrepreneurs, razão pela qual foi inicialmente criada), a maior rede de empreendedores do mundo, que integra mais de 14 mil pessoas em 61 cidades de 18 países.

Ashok Rao estudou engenharia e finanças, mas diz que nunca negou o “gene do risco“. Começou a trabalhar em 1971, como vendedor, uma experiência que considera essencial para quem quer trabalhar por conta própria. “Vender é duro, é das coisas mais duras. Um engenheiro pode ter uma carreira estruturada, os vendedores têm de lidar permanentemente com a rejeição: é como os artistas que vão a audições, são rejeitados a toda a hora e isso é duro”, diz. Vinte e um anos depois nascia a TiE, uma rede de mentores e fazedores que cresceu em popularidade, ao mesmo tempo que a palavra que lhe deu origem. “O empreendedorismo é fashion, está na moda. Há 30 anos, a palavra nem sequer existia em inglês, roubámo-la aos franceses, e ninguém sabia o que significava. Agora, toda a gente a usa”, diz.

Ainda assim, desengane-se quem pensa que qualquer um pode ser empreendedor. Para se ser bom é preciso… saber vender. Sempre. “Não para ser empreendedor. Mas para ser um bom empreendedor é preciso saber vender. Os três fatores fundamentais de um negócio são os empregados, os clientes e os investidores. E nunca será possível angariar investidores se não se for bom vendedor. Nunca se conseguirá convencer clientes se não se vender bem o produto. E nunca se conseguirá bons colaboradores, a menos que lhes venda bem o que eles precisam de vender”, garante. Contas feitas, é preciso vender e bem. E mais?

Ashok Rao tem uma teoria, ainda sem provas científicas mas que tem fundamento na observação dele próprio: 5% do planeta tem inclinação para o empreendedorismo, um tal “gene do risco”, mas que não é hereditário, antes aleatório. Por outras palavras, no mundo há aproximadamente 350 milhões de empreendedores iminentes. A razão pela qual muitos nunca chegam a sê-lo é, garante Rao, uma lista de três fatores.

“Se eu olhar para a minha própria família, tenho dois irmãos – um é medico, o outro é investigador doutorado -, os dois incrivelmente formados e inteligentes. Mas nenhum deles é empreendedor, têm medo de arriscar. Quanto a mim, nem sequer consigo pensar em trabalhar para outra pessoa. Tenho de fazer o meu próprio trabalho”, diz. É – chega a parecer – uma questão de sorte: tanto de nascer empreendedor como, defende Rao, nascer num país que apoia o empreendedorismo. “Por isso é que lhe chamo um vírus, que afeta as pessoas de forma aleatória. Tantas mulheres como homens. E pode perguntar: mas então, por que não temos tantas mulheres empreendedoras quanto homens? Por causa da sociedade, que sempre pressionou as mulheres e lhes deu menos oportunidades. A mesma razão pela qual há mais empreendedores nos Estados Unidos e em Israel do que na Alemanha e em Portugal. Cultura! Duas coisas fundamentais: governo e cultura”, diz.

Ashok garante que o ambiente dita grande parte do sucesso – ou do insucesso desses 5% mundiais. Em Singapura, por exemplo, considerado pelo Banco Mundial o melhor local do mundo para fazer negócios, é difícil às start-ups arrancarem de forma fluida por questões burocráticas e, em simultâneo, porque, culturalmente, o facto de alguém trabalhar por conta própria é encarado pela sociedade como “desemprego”. “A cultura de Singapura diz que as pessoas têm de procurar um emprego. Estudar, ser médico ou advogado. Trabalhar por conta própria significa uma espécie de desgraça para a família”, diz. No caso português, admite, ainda há muito caminho a percorrer porque ao Governo e à cultura junta-se outro fator determinante: o acesso ao capital.

“Os business angels são um fenómeno local. Não vai aparecer nenhum anjo vindo da Rússia ou dos Estados Unidos para investir fora do seu país. Eles investem em empresas das quais estão perto, para poderem estar envolvidos. O problema é que a riqueza é mal distribuída em Portugal e os mais ricos não gostam de arriscar o seu dinheiro ao contrário dos EUA, onde os ricos gostam muito de arriscar. Aqui, a maioria das empresas são familiares. E as famílias não gostam de arriscar perder o que construíram. E aí, entra o importante caminho que o governo português tem feito para facilitar a vida às empresas que estão a começar”, diz, sublinhando, “a cultura é o mais difícil de quebrar. Acho que as coisas já estão a mudar em Portugal, mas isso é uma consequência e não uma causa.” Daqui à crise/oportunidade é um salto. “Veja as grandes eras empreendedoras. Todas vieram depois de crises. Ser empreendedor não quer dizer que fiques para sempre pequeno: criam-se pilares para mudar o mundo. Cada empreendedor deve ter como objetivo mudar o mundo, mesmo que seja de uma forma com pouco impacto.” Há por aí super-heróis?

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