Inovação

Banca do futuro. Vamos deixar de ir ao Multibanco para pagar contas

Decorar códigos será desnecessário: reconhecimento visual vai servir como mecanismo de segurança. Fotografia: EPA
Decorar códigos será desnecessário: reconhecimento visual vai servir como mecanismo de segurança. Fotografia: EPA

Segurança, transferências entre pessoas, ferramentas de análise de dados e personalização de campanhas são principais apostas da indústria financeira

Queremos adaptar o banco ao sistema financeiro em mudança”. A ambição mostrada por Nuno Amado, presidente do BCP, no início de fevereiro, foi sintomática da transformação que o setor irá sofrer mais tarde ou mais cedo. Um dos palcos do confronto entre o passado e o futuro foi o histórico mercado de Old Billingsgate, em Londres.

O espaço até faz lembrar o edifício da Alfândega do Porto, que durante alguns anos recebeu a assembleia-geral do banco (acionista do Global Media Group, dono do Dinheiro Vivo). Mas foi mesmo na capital britânica que o Dinheiro Vivo esteve no início da semana a acompanhar um dos maiores eventos na área das fintech, as startups financeiras. A FinovateEurope mostrou que estas startups querem que os bancos voltem a estar ligados e que consigam a confiança dos clientes.

Todos têm 7 minutos e um só palco. Não há vídeos nem slides”, apresenta o responsável pelo evento, Greg Palmer, antes do arranque das 71 apresentações. O ritmo das demonstrações impressiona. São apresentadas as grandes inovações que deverão dominar os próximos anos do mundo financeiro, seja em matéria de segurança, como nas transferências de dinheiro, na gestão de portefólios como em ferramentas de análise de dados e de criação automática de formulários.

Leia aqui. Três marcas portuguesas mostram inovação financeira em Londres

O combate à fraude é uma das principais prioridades da banca atualmente. A FinovateEurope ficou marcada por várias sugestões de proteção dos dados pessoais, como a VoicePIN.com. “As pessoas não gostam de se lembrar de códigos”, diz o CEO, Lukasz Dyląg, durante a apresentação. A voz é, por isso, o código pessoal para a aplicação começar funcionar. Ainda nos sistemas antirroubo, destaque para a EyeVerify. Esta ferramenta usa a câmara frontal do telemóvel para verificar a retina, dando um uso além das selfies.

No combate à fraude bancária, é preciso destacar os canadianos Ethoca, que emite alerta aos clientes e comerciantes por eventuais pagamentos ilegais, e a plataforma alemã Risk Ident, que, através da análise dos dados de formulários e de operações bancárias, consegue detetar casos de fraude. Por exemplo, utilizadores registados na Alemanha a usarem um teclado russo, o que desperta logo a atenção do sistema.

Banca para todos
Quase todas as apresentações feitas na terça e quarta-feira em Londres foram dirigidas especialmente aos bancos e fundos de investimento, que poderão financiar ou mesmo vir a colaborar no desenvolvimento de ferramentas. O fim é o cliente do banco, que passa a ter acesso a cada uma das tecnologias apresentadas.

Um dos exemplos mais curiosos na FinovateEurope foi dos australianos da Sandstone Technology, que apresentaram um cartão de crédito que pode ser usado em vários países e em várias moedas. Mostraram também a versão 2.0 da aplicação BankFast para smartphone, que permite, além dos controlo de despesas, converter os fundos em várias moedas numa só conta.

Também para usar no estrangeiro, a PaySend é uma aplicação criada em Malta e que permite transferir dinheiro em vários países e outras moedas instantaneamente, evitando perder tempo e comissões em casas de câmbio. A PaySend garante que só vai cobrar uma taxa de 1% e de 1 euro por cada operação. O dinheiro pode ainda ser transferido pelo Skype.

Dos Estados Unidos, a Dynamics veio apresentar o protótipo de um cartão de crédito que pode funcionar com vários sistemas de pagamentos e que pode servir para pagar as contas em três moedas diferentes, conforme as necessidades dos clientes. Para isso basta carregar num dos três botões do cartão.

Leia aqui. S&P: fintech são “oportunidade para banca renovar serviços”

Também foram apresentadas algumas soluções mais dedicadas a determinados nichos de mercado. Os indianos da Infosys Finacle mostraram como os bancos “podem estar entre as marcas preferidas” da geração Y, ao criar uma aplicação para os adolescentes gerirem a própria mesada, como um mealheiro 2.0. Permite ainda a partilha de “desejos de prendas” para o Natal ou para os anos através de publicações no Facebook. Mas, para conseguir isso, é preciso ter autorização dos pais, que fazem a supervisão das contas.

A Lendstar foi outro dos destaques da FinovateEurope, ao mostrar uma plataforma de empréstimo P2P (entre pessoas), que permite transações entre pessoas de um grupo e transferências interbancárias no espaço da União Europeia dentro de uma aplicação (e sem precisar de saber o IBAN). Processo semelhante ao da Caixa Plim (da CGD) em Portugal.

Campanhas dirigidas
Por mensagem ou por email, quase todos os dias recebemos promoções dos bancos para aderir a um novo serviço. Mas este tipo de ações não prima pela eficiência, ou seja, não há conversão da promoção em adesão a estas campanhas. O grupo russo SBDA pretende mudar isso com um software de gestão de campanhas que permite personalizar as ações conforme o tipo de clientes. As campanhas deverão também ser aprovadas em poucos minutos.

Também pensada na gestão de clientes, a plataforma norte-americana Persado recorre a algoritmos para analisar as emoções geradas junto do consumidor para depois personalizar as notificações enviadas aos clientes. Um sistema completamente automático e com uma taxa de sucesso de 95% de sucesso, assegura a empresa. A plataforma arranca em agosto.

Nota final para outras duas aplicações. A Xpenditure, uma ferramenta belga de controlo de despesas em que as faturas, depois de fotografadas, são tratadas em poucos minutos. e a DriveWealth, uma plataforma de gestão de portefólio que permite apostar na bolsa norte-americana. A aplicação chega mesmo à geração Y, graças à pesquisa por emojis.

Esta nova geração é o principal desafio da banca na atualidade. Estes serão os clientes que poderão colocar a banca, de novo, no trilho da rentabilidade. A disrupção ainda só está no começo.

*O jornalista esteve em Londres a convite da ebankIT.

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