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Beija-Flor: elas apontam tudo

Raquel e Susana fazem cadernos de bolso
Raquel e Susana fazem cadernos de bolso

É ao anoitecer que se encontram para trabalhar. Sempre viveram na mesma terra mas Raquel Graça, 27 anos, e Susana Gomes, 26, só se conheceram na faculdade, no Porto quando decidiram estudar Design.

As duas designers estagiaram na cidade Invicta. Depois, Raquel mudou-se para Barcelona, durante quase dois anos, e regressou ao Porto, onde Susana continuava a trabalhar no gabinete onde fez estágio. “Voltei em 2011, estava cansada de certos processos que prejudicavam o meu trabalho, não conseguia gerir bem, não era eu que mandava. Quando o contrato acabou, pensei que era o momento de sair e arriscar outra coisa”, conta Raquel.

Mas, pouco antes, as duas amigas pensaram na Beija-Flor, a marca que criaram, em outubro de 2011, e a maneira ideal de fugirem às cadeiras de escritório e aos trabalhos feitos de acordo com a vontade e a rigidez de clientes e de patrões. “Começou por brincadeira, numa de vamos fazer isto porque é giro. Dedicar-nos a uma coisa que não seja aborrecida já que isso fazemos a maior parte do tempo durante o dia. Mas nunca pensámos na dimensão que entretanto ganhou. Em termos de negócio não é muito grande, mas no sentido de chegar às pessoas e de elas gostarem tem sido para além do que esperávamos”, conta Raquel.

As duas designers encontram-se, pelo menos, duas vezes por semana para cortar, colar, coser e acertar os cadernos de bolso feitos à mão. Sim, na Beija-Flor só os padrões são impressos fora de casa, tudo o resto é feito à mão. “Queríamos fazer qualquer coisa que tivesse o papel como ponto de partida e que poderia, depois, expandir-se a outro tipo de produto. Começámos com os cadernos e a coisa foi correndo bem. Percebemos que era melhor alargar por aqui, ir fazendo as coisas. E depois logo se veria”, recorda. Com 200 euros, compraram os materiais de que precisavam. Durante dois meses, não conseguiram repor o investimento.

“Investimos, mas levou alguns meses até que voltássemos a ver o dinheiro outra vez “, conta Susana. Por isso, no primeiro mês chegaram a pensar que não era bom negócio. “Vendíamos muitos cadernos, mas se não tínhamos lucros… A médio prazo percebemos que valia a pena”, diz Raquel, depois de terem percebido que o dinheiro que tinham gasto em réguas e outros materiais era caso único e que, depois, era só rendibilizar o investimento.

A Beija-Flor é uma marca de cadernos de bolso feitos à mão, com preços muito baixos. “Começámos com os padrões porque gostamos muito e porque tínhamos uma boa coleção de fotografia.” Aos padrões de azulejos portugueses, seguiram-se as ilustrações feitas por Raquel – “Tenho o Coração às Moscas” e “O Meu Miocárdio É Teu” são alguns dos exemplos – e o convite a outros ilustradores (por enquanto, Pedro Fernandes e Miguel Sousa, mas o número é para aumentar).

“Decidimos que seria assim. É um ponto de partida como outro qualquer para depois decidirmos onde isto vai parar. Não foi muito pensado em termos de estratégia de negócio”, confessa Susana. E se até ao Natal o negócio esteve relativamente calmo, dezembro fez disparar as vendas. “Queríamos pensar noutros produtos, os cadernos eram só o início. Mas no Natal os pedidos foram tantos, havia pessoas que pediam às dezenas para oferecer, que não tivemos tempo de pensar noutras coisas. Vamos concentrar-nos nos cadernos, aumentar a coleção”, diz Susana. As tipologias de cadernos têm aumentado e as encomendas de empresas que querem cadernos de apontamentos personalizados também. A maioria das vezes, Raquel e Susana fazem os cadernos por encomenda, mas a Beija-Flor também é vendida no Espaço Artes em Partes e no Entre Linhas, ambos no Porto.

“Temos um constante contacto de lojas, mas a verdade é que não vendemos muito nesses espaços. Apesar de acharmos que pode ser uma boa alternativa para dar a conhecer o trabalho. Às vezes, trocamos dez e-mails antes de fazer uma venda. Mas acho que é mais esse contacto que as pessoas gostam”, diz Raquel. E se os portugueses são indecisos a escolher e a encomendar cadernos da Beija-Flor, os brasileiros apostam tudo. O primeiro contacto com o mercado brasileiro foi através do blogue brasileiro Don’t touch my Moleskine.

“Ela divulgou o trabalho e, de repente, surgiram-nos dezenas de pedidos de e-mails brasileiros. Foram os nossos primeiros clientes porque encomendavam logo. Enquanto os portugueses ficavam mais acanhados, eles fizeram muitas encomendas e diziam que adoravam o trabalho.”

Apesar de a marca ser recente, já houve quem aconselhasse Raquel e Susana a agilizarem o processo de fabrico. “Disseram-nos que talvez não fosse tão caro mandar fazer fora. Mas nós achamos que também é isso que faz a diferença em relação aos outros. Seriam mais uns cadernos com uns padrões. Mais nada”, diz Raquel.

Mais de seis meses depois do início, Raquel e Susana continuam sem plano de marketing nem estratégia: numa “folhinha” de papel têm apontadas as razões que as levaram a criar a Beija-Flor e a forma como chegaram ao nome da marca.

“Começámos a desenhar a imagem, começou tudo a soar bem, e ficou. Não está nada relacionado com o caderno em si.” Os cadernos de bolso (A6) da Beija-Flor custam 2euro cada. Os A5 custam 4euro e os A7, 1,5euro. Todos em papel reciclado. “Todos para caber no bolso.”

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