fazedores

Bigode. Esta prancha é imune ao mar bravo

Paulo é designer e Vasco arquiteto
Paulo é designer e Vasco arquiteto

Paulo e Vasco gostavam de fazer surf mas desagradava-lhes depender
do estado do mar. Por isso, em alternativa, pensaram numa maneira de
poderem substituir a prancha de surf sempre que o mar ou o tempo não
ajudassem.

Há três anos começaram a juntar-se aos
fins de dia e fins de semana numa oficina “reconvertida” –
aproveitaram a antiga casa de Paulo Ribeiro, designer, 35 anos, em
Caxias – e puseram mãos à obra na primeira prancha de surf de
madeira, “um teste” para saberem se tinham capacidade
técnica para avançar.

“Não tínhamos objetivos
nenhuns de timings, fazíamos quando tínhamos algum tempo. Queríamos
fazer ‘aquela’ prancha. Quando a acabámos, olhámos para o serrote e
pensámos que gostávamos de evoluir para o skate. Assim, se as ondas
não estivessem certas para o surf, podíamos evitar ficar
simplesmente a olhar para o mar. Acabámos por achar que o skate era
um bom complemento também para nos ajudar a progredir nessa área.
Não estávamos propriamente contentes com a oferta – era muito
estandardizada, esteticamente não nos preenchia.”, conta
Paulo.

O designer e o arquiteto já tinham pensado
dedicar-se a outras coisas. “Tínhamos algumas ideias para
mobiliário, por exemplo. Para começarmos a trabalhar até como
artesãos, como criadores. Passamos grande parte do dia ao computador
e isso acaba também por ser um bocado redutor. Começámos pela
necessidade de mexer na madeira, de usar as mãos para fazer alguma
coisa sem ser ao computador”, explica o designer. Vasco Pina
Manique, arquiteto, 35 anos (neto em sexto grau do magistrado
português Pina Manique), acrescenta que os skates provocaram também
um regresso ao passado.

“Permitiu-nos voltar um
bocado atrás na nossa aprendizagem, voltar a moldar as coisas com as
nossas mãos, ter um papel mais direto. No início era só serrote e
martelo.”

Num instante, aquilo que tinham começado como
hobby e uma atividade de tempos livres transformou-se numa coisa
mais séria: a necessidade de prolongar o surf para fora da praia
levou à construção do primeiro skate da Bigode, marca que
registaram há um ano.

“Nunca pensámos sequer
criar uma marca nem fazer disto um negócio”, confessa Paulo.
Cada criação é uma experiência que, em regra, não é vendida
mas serve como protótipo para modelos da marca. Com o primeiro
skate, Porto Covo, Paulo e Vasco substituíram a lixa antiderrapante
de topo por areia de uma das praias favoritas. “Somos inovadores
no facto de aliarmos a arquitetura e o design. O equipamento está
inventado, mas em termos de tábuas, de grafismo, há muito por onde
inovar. Mas nunca pensámos nisto como um negócio”, esclarece o
arquiteto.

Depois do primeiro modelo, Paulo e Vasco criaram mais e
investiram 2500 euros em ferramentas para aperfeiçoarem o trabalho.
“Sempre que acabávamos uma ideia, surgia outra. A certa altura
começámos a desenhar, a esboçar coisas, e decidimos colocar os
skates como produto e ver o que acontecia. A ideia de criar uma marca
e um produto surgiu completamente por acaso, foi uma necessidade
nossa”, assegura Paulo. Vasco sublinha que a Bigode foi uma
“consequência do trabalho desenvolvido”. “Talvez esta
fase coincida com uma altura em que andamos à procura de uma coisa
de que realmente gostemos. Dedicamos muito menos tempo do que
gostaríamos e do que seria necessário.”

O primeiro Porto
Covo foi vendido a um amigo. “Ele ficou realmente entusiasmado
quando soube da ideia e, assim que viu os skates ficarem prontos e
começou a ver-nos andar, ficou com o bichinho do objeto. Não é só
a questão do skate, porque existem alguns tecnicamente mais
avançados e melhores do que os nossos, sem dúvida. Mas é a questão
do objeto, é pessoal.”

Os skates da Bigode são únicos
porque o processo é todo manual. “Não conseguimos garantir –
como um processo de fábrica garante – que dois skates do mesmo
modelo são exatamente iguais. Há um modelo que será repetido. Mas
a pintura nunca poderá ser igual”, afirma Vasco. “Gostamos
de ter o mesmo template e nuances. É um complemento àquilo que
estamos a fazer. Cada skate é uma peça única. É completamente
aleatório e impossível reproduzir”, diz.

Como mantêm os
trabalhos como web designer e arquiteto, Paulo e Vasco não sentem o
peso do negócio. Criaram oito modelos diferentes – um deles com uma
aplicação de tecido, uma novidade já testada em pranchas de surf
-, fazem skates por encomenda, escrevem dedicatórias nas criações
e querem que o hábito se torne mundial. “Para nós isto acaba
por ser ainda um momento de relax, estamos ali concentrados a fazer
aquilo e, quando acabamos, se calhar estamos cansados fisicamente mas
psicologicamente sentimo-nos mais frescos”, diz Paulo.

E querem
alargar não só a carteira de clientes como a de produtos. “Temos
desenvolvido skates, mas o nosso objetivo não é apenas ficar por
aí.

A Bigode não pretende ser uma marca de skates.
Queremos levar isto mais longe e chegar a mais pessoas. Acho que
podemos assumir que é por falta de tempo que não estamos a levar
isto mais longe. Não que queiramos tornar a marca uma coisa de
massas, de escala, vender, vender. Pretendemos manter o projeto
exclusivo, ter uma produção baixa, continuar com o controlo da
produção. Mas temos a ambição de fazer crescer as encomendas”,
diz Vasco. Os skates da Bigode estão à venda online ou na loja de
surf Magic Quiver, na Ericeira, por 220 euros, em média.

Como
diz Vasco, “à falta de um Porsche, há o skate”.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Vieira da Silva e Cláudia Joaquim
Fotografia: Leonardo Negr‹ão / Global Imagens

300 mil recibos verdes abrangidos pelas novas regras de desconto

José Filomeno dos Santos fotografado como presidente do Fundo Soberano de Angola. Fotografia: Medium

Filho de José Eduardo dos Santos está em prisão preventiva

Presidente do Conselho de Administração da RTP, Gonçalo Reis.

(Gonçalo Villaverde / Global Imagens)

Bloco quer ouvir administração da RTP sobre precários

Outros conteúdos GMG
Bigode. Esta prancha é imune ao mar bravo