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BitCliq. De Portugal a São Francisco, para “pescar” mais investimento

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Pedro Manuel criou a BitCliq em 2013, nas Caldas da Rainha.FOTO: Gerardo Santos/ GI

Validar o modelo de negócio, duplicar a equipa e garantir financiamento são as principais apostas da startup para este ano.

Pedro Manuel pescou o primeiro peixe aos 5 anos, longe de saber que o futuro lhe reservaria a aventura de criar a startup de base tecnológica BitCliq e desenvolver um software inovador para a gestão de frotas pesqueiras em tempo real, e em várias geografias do mundo, de África à Ásia. A América Latina é o próximo mercado alvo do fazedor, já em 2018.

Também para este ano está marcada a viagem até à Califórnia, onde dois membros da equipa terão uma experiência de imersão, até quatro semanas, numa incubadora em São Francisco, depois de terem vencido a primeira edição do prémio FLAD.EY BUZZ USA. Validar o modelo de negócio, duplicar a equipa de oito para 16 pessoas e garantir financiamento por parte de fundos de capital de risco ou de investidores privados que já manifestaram o seu interesse, são as principais apostas para os próximos meses.

Tudo começou ainda na infância, quando o fazedor acompanhava o pai nas viagens de trabalho às fábricas de conservas na região de Peniche para fazer a manutenção dos telexes, a tecnologia que, à data, permitia às empresas comunicarem as compras e vendas da matéria-prima, ou seja, do peixe capturado na costa portuguesa. A experiência moldou-lhe o futuro e ditou a opção por engenharia de telecomunicações, seguindo-se depois a informática. Em 2013 nascia nas Caldas da Rainha, pela sua mão, a BitCliq.

“Começámos como uma empresa de desenvolvimento de soluções tecnológicas na área do business intelligence, inteligência artificial e aplicação de novas tecnologias para a área industrial”, contou o fundador e CEO em entrevista ao Dinheiro Vivo. Foi precisamente da relação com um cliente no setor da indústria conserveira que saiu o desafio que viria a moldar o percurso da startup: ajudar um fornecedor em apuros a encontrar uma solução tecnológica que permitisse melhorar a performance e gerir uma frota de pesca comercial.

Em menos de nada estavam no Gana, na África Ocidental, para dar resposta às necessidades reais da indústria de pesca industrial de atum.
E foi assim, inspirado numa das espécies de atum mais pescadas em todo o mundo, o big eye (atum patudo, em português), que nasceu o projeto Big Eye Smart Fishing, uma plataforma digital de gestão de frotas de pesca que introduz novas tecnologias na indústria marítima tradicional, trazendo transparência à cadeia de valor, através da tecnologia blockchain.

“Criámos um software simples de usar, para correr nos navios de pesca em África, com comunicações por satélite otimizadas. Ao fim de seis meses tínhamos a primeira versão a ser usada. Aí percebi que não era um mero projeto de sistemas de informação, mas sim uma necessidade real e crescente, a nível global, com dimensão e escala internacional. Era o que procurávamos. Esse primeiro projeto tinha os ingredientes certos, ajudou a desenvolver a tecnologia e chamou a atenção de empresas do setor das pescas. Neste momento temos software desenvolvido pela Bitcliq a ser usado em vários continentes: África, Europa (Portugal e França), EUA e Ásia”, explica Pedro Manuel. “Desde 2014 temos estado a trabalhar no desenvolvimento da plataforma e a incorporar novas funcionalidades.”

O próximo passo, já testado num projeto-piloto em Portugal, em 2017 e que será este ano exportado para o Peru, passa pelo desenvolvimento de um novo modelo de negócio: uma plataforma de comercialização digital de pescado – marketplace – que envolve barcos de pesca (vendedores), restaurantes, pequenas lojas, grandes retalhistas e indústria (compradores) e também os consumidores que, graças à rastreabilidade digital, saberão tudo sobre o peixe à sua frente no momento de o consumir (origem do peixe, quando foi pescado, qual o barco usado e a tripulação, se cumpria todas as condições laborais ou se foi uma pesca sustentável).

“Ligamos o mar ao prato”, diz Pedro Manuel, sem esconder que em 2018 gostava de ver o marketplace a funcionar em pleno no mercado ibérico. “Este é o próximo grande passo, é aí que o investimento faz sentido.” Desde 2014, Pedro Manuel já investiu entre 100 e 300 mil euros de capital próprio. “Começou em bootstrapping e assim se mantém até hoje.”

“Já fechámos a primeira ronda de capital semente para a parte de internacionalização, temos de escalar agora para uma capacidade maior, e aumentar velocidade. Havendo capital a entrar vamos poder aumentar a equipa e abarcar mais mercados em simultâneo.” No entanto, Pedro Manuel reconhece que só estarão prontos para uma ronda de investimento de série A, no espaço de cerca de dois anos.

A BitCliq fechou 2017 com uma carteira de cerca de 60 clientes e uma faturação “um pouco acima dos 250 mil euros, sendo que metade diz respeito à exportação. Assinada a parceria com a líder de comunicações por satélite Inmarsat no ano passado, a BitCliq foi uma das oito startups internacionais convidadas para apresentar o seu projeto na conferência mundial desta empresa que se realizou em novembro de 2017, em Lisboa.

Na mesma semana, Pedro Manuel marcou presença na final da competição de empreendedorismo Fish 2.0, que teve lugar na Universidade de Stanford, na Califórnia, e na qual a BitCliq foi uma das 40 finalistas, num universo de 184 candidatas. Apesar de não terem saído vencedores, o networking nos EUA levou-os a novos negócios na América Central e na Islândia.

Prémios e distinções não faltam no currículo da BitCliq: em 2016 foi a empresa vencedora do concurso Elevator Pitch, atribuído pela Representação da Comissão Europeia em Portugal e, mais recentemente, no final de 2017, o projeto foi o vencedor na categoria Indústria 4.0, da 10.ª edição dos Green Project Awards.

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