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Carlos Gonçalves: O empresário de futebol que não tem ar de cromo da bola

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O empresário de futebol é uma estrela. Não sei bem quando isso
começou, mas basta olhar para os jornais, televisões e até para as
revistas sociais para perceber que ao firmamento
estelar-futebolístico de jogadores e treinadores se juntaram os
empresários. Para dizer a verdade, só sou capaz de dizer o nome de
dois ou três, mas atribuo isso ao facto de gostar mais do jogo da
bola do que do das compras e vendas de jogadores.

Os empresários de futebol têm até uma vantagem: como ninguém
sabe bem o que eles fazem, há uma certa aura de mistério. Para mim
eram tipos que falam muito ao telefone, têm carros com muitos
cavalos, andam de avião para todo o lado, aparecem em restaurantes
rodeados de lagostas e champanhe e há até um caso de um comendador
empresário da bola.

Quando conheci o Carlos Gonçalves custou-me a acreditar que fosse
mesmo empresário de futebol. O relógio não era uma daquelas
cebolas douradas, o cabelo não tinha laca – desde o Manuel Barbosa
que a laca é, para mim, uma espécie de cartão de visita do
empresário da bola -, não tinha um telefone no lugar da orelha, não
pediu lavagante ao almoço e, confesso a desilusão, o fato não era
Armani e nem um cachuchozinho o homem tinha para mostrar. Para mal
dos meus pecados bebeu água, não me relatou festas com modelos e
príncipes em iates e as fofocas futebolísticas que me contou até
eu já as sabia.

Mas comecemos pelo princípio, como dizia Nélson Rodrigues e o
senhor João da Farmácia. Devo referir que eu e o Carlos estivemos
simplesmente a almoçar e deu-se o acaso de eu lhe ter feito algumas
perguntas. A explicação é devida porque o Carlos Gonçalves
disse-me que nunca tinha dado uma entrevista – e não quero ser eu a
deixar-lhe essa mancha no seu currículo.

Estranhei esta coisa de nunca ter sido entrevistado. Como é que
um empresário que representa mais de 80 jogadores no campeonato
português, espanhol, alemão, turco, grego, português, italiano,
que representa um dos melhores treinadores do mundo, André
Villas-Boas (no Tottenham desde o ano passado), jogadores
internacionais e, por exemplo, a nova vedeta do campeonato português,
Fredy Montero (Sporting), passa despercebido? Como é que os jornais
desportivos – três, e com edições diárias só em Portugal – não
falam dele? Então e eu que acreditava que todos os empresários eram
estrelas? E, já agora, por que diabo não aproveita para promover os
seus serviços quando faz uma venda milionária ou um jogador seu
brilha?

A qualidade do sorrisinho mostrou que estava à espera da
pergunta. E nem quando lhe disse que fora ele agente do Cristiano ou
do Messi e a foto dele até na Crónica Feminina aparecia se
desmanchou. Apanhou-me quando me perguntou se a minha leitura da Hola
me tinha esclarecido acerca de quem era o empresário do Messi.
Pois… como em todas as profissões, há quem goste de aparecer e há
quem ache que com a boa publicidade vem também sempre a má.

Parece que a publicidade não ajuda o empresário de futebol a
faturar. O meio é pequeno, e os clientes, jogadores e clubes de
futebol conhecem de trás para a frente a vida dos agentes de
futebol. Digamos que não há entrevista que amanse os dirigentes de
um clube se lhe venderem dois pernas de pau. E não há clube que não
saiba que um dado cavalheiro vende rapazes com mais jeito para
estudar do que para jogar à bola – “ó rapaz, dedica-te aos
estudos”, disse um treinador quando o Carlos Gonçalves quis ser
jogador de futebol.

Por outro lado, as relações criadas com os jogadores, em muitos
casos desde muito novos, e as promoções nas carreiras que os
empresários vão conseguindo valem mais do que qualquer aparição
na primeira página da Marca ou do l”Équipe.

Mas não é só a vaidade, o pecado favorito do Belzebu, que leva
a que alguns empresários compitam com as Victorias e os Beckhams. A
mediatização do futebol chegou a um patamar tal, que as principais
transferências fazem primeiras páginas de jornais de referência. A
verdade é que os principais jogadores de futebol são vedetas
globais. Os futebolistas substituíram os artistas de cinema, os
músicos, os artistas, são eles as estrelas agora, as grandes
estrelas.

Recordo a minha ida com um jogador de um clube grande à Feira do
Livro: demorámos três horas a subir o Parque Eduardo VII. Lembro-me
também do que que o Valdo, jogador da seleção brasileira e do
Benfica, me contou do seu amigo Chico Buarque: “”Tou sentado num
boteco com um centro-avante de um clube brega, o povo beija o cara e
a mim me faz um aceno.” Pois é, Chico, nem com açúcar e com
afeto…

Confiança é o primeiro nome do jogo. Os jogadores têm de
confiar que o empresário lhes explica todas as alternativas, todas
as implicações de ir para aqui ou para ali, de assinar por este
clube por menos dinheiro ou por aquele por uma fortuna. “A decisão,
diz o Carlos, é sempre do jogador, nós apenas lhe mostramos os
vários caminhos possíveis.” Eu finjo que acredito que é sempre
assim, e abocanho um bocado de bacalhau para ver se me esqueço dos
jogadores que deram cabo das suas carreiras por terem acreditado que
deviam mudar de clube como de camisa. O nosso empresário leu-me o
pensamento – o que não é difícil – e lá me foi dizendo que quem
faz isso dura pouco no negócio. Pronto, pá.

Pois muito bem, mas como é que se convence um jogador a assinar
por um empresário? Repete que tem que ver com confiança. Muitas
vezes a dos pais dos rapazes no facto de que o empresário vai tratar
bem do futuro do filho, outras tantas pelas transferências que se
conseguem fazer, ou seja, pelo currículo. Outras pelas prendas que
consta que os empresários dão aos jogadores para que mudem de
empresário, digo eu. Rapazes de 18 anos que nem carta de condução
têm ainda e que aparecem com Porsches.

Diz-me o Carlos que não é política dele tirar jogadores aos
concorrentes ou comprar agenciamentos. Informa-me que os contratos
com os jogadores caducam obrigatoriamente ao fim de dois anos, logo a
relação é sempre precária e investimentos em carros de topo de
gama ou apartamentos não será uma estratégia avisada. É com ele.
Eu, do nada que sei do negócio, sei que não faltam ofertas dessas.
Ou em bom português: “Show me the money”, como diria o único
cliente do Jerry Macguire.

Os clubes também têm de confiar. Não é só nos jogadores que
os empresários apresentam aos clubes, é também pedindo conselhos
sobre este ou aquele rapaz, ou pedindo para se ir fazer este ou
aquele negócio. Mas, pergunto eu, por que diabo precisa um clube de
um empresário para ir comprar um jogador X ou Y, não sendo sequer
esse jogador representado por esse agente, sabendo, além de tudo,
que os serviços não são propriamente baratos?

A resposta não me convenceu, mas parece que os clubes preferem
essa intermediação, que as coisas se resolvem melhor e a contento
das partes. A minha ironiazinha de que se desperdiça dinheiro foi
violentamente contestada pela pouca fé que demonstrava na capacidade
negocial e da qualidade dos seus serviços. Como o Carlos é
empresário de um jogador do meu clube resolvi não insistir, não
fosse ele perturbar psicologicamente o rapaz em que ponho tanta fé,
o Josué.

Fui atrasando a pergunta que o país que gosta de bola, ou seja,
Portugal ou qualquer sítio onde viva um português, tem na ponta da
língua: Como é que se desencanta um jogador como o Fredy Montero?
Aliás, nem é bem essa a pergunta certa. A questão é como é que
se descobre um tipo de 26 anos que joga num clube de uma cidade onde
o futebol é coisa associada a umas senhoras que levam as filhas a
dar uns pontapés na bola – Seattle -? Será que o colombiano jogava
nos Supersonics e desistiu do basquete?

E assim se descobre a segunda palavra-chave do empresário da
bola: rede (na verdade, o Carlos disse network, mas eu traduzo). É
assim, um tipo conhece outro tipo que manda um DVD com vários
jogadores. Este tipo, o Carlos, vê um jogador que, na opinião dele,
tem talento. Fala com o outro tipo e lá chegam a um acordo do
género: “Eu acho que os dirigentes do clube podem estar
interessados e confiam em mim. É bom para ele, para ti, para mim e
talvez seja bom para o clube.”

Depois são os dirigentes a observar o jogador e a confiar nas
qualidades do rapaz que o empresário se encarrega de descrever
efusivamente. O resto é o malandro do Montero a aviar golos como
pãezinhos quentes.

Segundo me conta o Carlos, os empresários de futebol conhecem–se
todos – é um mercado pequeno. Maior do que eu pensava, porém. Há
empresários por todo o lado. E eu que pensava que os portugueses
eram os maiores nesta profissão… Afinal não. Um empresário
inglês pequenito, por exemplo, em Portugal não seria um Messi mas
era seguramente um Jackson Martínez. E não faltam nomes de
empresários que avisadamente esqueci: a minha memória já está
cheia de jogos, golos, linhas, jogadores e treinadores. Deixo os
empresários para ele.

Pois claro, rede e confiança. Mas e como é que os empresários
pagam as contas da lavandaria? Segundo o Carlos, os empresários
recebem pelos serviços que prestam aos seus clientes, aos jogadores
e aos clubes. Não há um montante definido, a coisa vai variando.
Mas que um grande negócio pode fazer de um empresário um
milionário, isso pode. Negociações de contratos com os clubes,
transferências, publicidade. Nos Estados Unidos é comum o agente
receber parte do salário do seu representado, aqui, na Europa, é
muito raro. Mentalidades, diz o Carlos.

Claro está que, se não se recebe de uma maneira, recebe-se de
outra, mas isso digo eu. O nosso empresário afivela o sorriso –
“Isso dizes tu.”

O Carlos só afinou quando lhe lembrei o que se diz dos
empresários: traficantes de carne humana, sempre à procura de mais
e mais dinheiro, que não querem saber dos rapazes. Diz que há mesmo
uns que alinham numas milongas com dirigentes dos clubes, de modo
que, no fim do dia, os clubes estão falidos, os jogadores tesos e os
empresários e os dirigentes muito bem de vida.

“É bem verdade”, confirmou o Carlos. “Olha, e quantos
artistas desses há na política, no jornalismo, na canalização,
nas empresas, nas…?” Pronto, pronto, pronto. Em frente.

Bom, afinal o Carlos confirmou alguns dos meus clichês sobre os
empresários. Apesar de ele disfarçar, percebi que as mensagens e as
chamadas iam caindo no telefone. Lá foi aguentando até que
telefonou o André Villas-Boas – fui logo chutado para canto.

Quando regressou do fundo da sala onde combinou um evento qualquer
que o antigo treinador do meu clube ia abrilhantar lá me foi dizendo
que, tendo a relação com os jogadores e os dirigentes de ser muito
próxima, não é possível deixar de falar mesmo muito ao telefone.
E apesar de a sua empresa ter dez empregados e contratar vários
eventuais para analisar jogadores e outras tarefas que tais, não
pode deixar de atender os clientes. Muitas vezes apenas para
desabafar, diz.

E porque se lembra um cidadão licenciado em Economia de ir para
empresário de futebol em vez de seguir a desafiante tarefa de
funcionário bancário ou até optar pela excitante indústria da
panificação? O vil metal, adivinho. Mas parece que não é bem o
caso. É pela mesma razão por que eu e ele fazemos o que fazemos:
não tínhamos jeito para jogar à bola.

Perfil

Carlos Gonçalves Com 43 anos, pai de dois filhos e com um curso
de Economia tirado na Universidade Autónoma de Lisboa, o perfil do
fundador da Proeleven é o oposto do que se imagina ser um empresário
do futebol. Absolutamente discreto – nem sequer tem uma página de
Facebook -, o agente FIFA, licenciado pela Federação Portuguesa de
Futebol, é descrito como alguém que “não promete nada” e
constrói relações de “total confiança”. Fundou a Proeleven em
2009 – empresa especializada na gestão de carreiras de jogadores de
futebol – e para o ajudar na gestão chamou o irmão, Vítor
Gonçalves, também economista.

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