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Chatterbox. Inteligência artificial ao serviço dos refugiados

A afegã Mursal Hedayat (esquerda) e a francesa Guillemet Dejean (direita) são as fundadoras da aplicação Chatterbox.

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A afegã Mursal Hedayat (esquerda) e a francesa Guillemet Dejean (direita) são as fundadoras da aplicação Chatterbox. FOTO: direitos reservados

A partir de Lisboa, Guillemette e Mursal estão a desenvolver uma app que facilita a integração laboral de refugiados.

Mursal Hedeyat tinha quatro anos quando aterrou em Londres, vinda do Afeganistão, com o estatuto de refugiada. A sua mãe era uma conceituada engenheira civil, que falava fluentemente quatro línguas e cujo precurso profissional passava até pelas Nações Unidas. O pai era professor de Matemática. Assim que aterraram em solo britânico, apesar de ambos serem altamente qualificados, ficaram os dois mais de uma década sem conseguir arranjar emprego.

A história é contada ao Dinheiro Vivo pela francesa Guillemette Dejean na Casa do Impacto, em Lisboa, onde as duas estão a participar num programa de aceleração social da Maze, com um projeto chamado Chatterbox, uma aplicação que facilita a integração laboral de refugiados. “O problema que estamos a resolver é o desemprego dos refugiados qualificados. Têm um valor imenso para oferecer que se perde com o passar dos anos. Perdem ainda a confiança e a sua rede de contactos. O que queremos fazer é trazê-los de volta ao mercado de trabalho”, explica a fazedora.

A ideia nasceu há dois anos e meio e está totalmente a ser desenvolvida a partir de Portugal. “Eu moro aqui há três anos e já queria ter desenvolvido um projeto deste género. A Mursal também tinha uma ideia semelhante, devido ao seu background. Decidimos unir forças e, por causa da iminência do Brexit, ela acabou por deixar Londres e vir morar para Lisboa também”, conta Guillemette.

Contudo ainda é na capital britânica que a dupla tem os seus mais importantes clientes e as maiores parcerias. A app Chatterbox é uma espécie de sala de aulas virtual, onde os refugiados ensinam a sua língua e cultura. Quando o projeto passou saiu do papel, foi em Londres que fizeram os primeiros testes. Por isso, ainda é de lá que ainda vêm cerca de metade dos interessados e também muitos dos refugiados que com elas colaboram. “Mas 70% das aulas são online, portanto a localização não é realmente importante”, assegura a francesa. “Temos a trabalhar connosco até refugiados que estão na Turquia, em trânsito para entrar noutros países. A única coisa que eles realmente precisam é de acesso à internet.”

Inicialmente Mursal Hedayat e Guillemette Dejean lançaram a app num modelo B2C (business to client), para clientes finais. Acabaram depois por preferir focar-se em empresas, num modelo B2B (business to business).

“Desta forma o negócio torna-se mais previsível. Estamos há um ano a trabalhar em modo corporate e a resposta tem sido muito boa. Temos já dez contratos fechados e outros a caminho. Temos parcerias com várias empresas e até universidades, que utilizam os nossos serviços para complementar a sua oferta aos estudantes”, assegurando que a retenção tem sido de 100%. “Todos os que vêm, acabam por querer repetir a experiência e ficar”, congratula-se.

O segresso do sucesso, assume, está na qualidade da experiência profissional dos refugiados. Neste momento têm cerca de 50 ativos, a dar aulas. Mas são 90 os que já receberam formação e estão prontos a entrar em ação. No total, a Chatterbox tem 300 pessoas que passaram os testes iniciais e poderão vir a dar aulas pela app.

“A maioria dos nossos refugiados vem da Síria. A língua que os clientes mais pedem também é o árabe por isso é uma boa combinação. Temos agora uma empresa que nos pediu espanhol, portanto estamos atualmente a recrutar na América Latina, sobretudo na Venezuela.” As fazedoras estão ainda a tentar fechar uma parceria com um campo de refugiados no Uganda.

A app tem um algoritmo que automaticamente faz um match entre os interesses dos cliente com a experiência do refugiado. Ou seja, para além da língua, a Chatterbox tenta garantir que professor e aluno tenham alguns pontos em comum, seja de hobbies ou de percursos profissionais. “Em todo o caso, neste momento o nosso algoritmo ainda é muito simples, ainda não estamos a trabalhar com inteligência artificial. Mas esse é o caminho”, assegura Guillemette.

No verão, o ritmo de trabalho abranda um bocadinho. Mas nem por isso a afegã e a francesa descansam. Estão a preparar uma rentrée em força, para setembro. “Até ao momento só recebemos financiamento de apoios e de investidores em pre-seed. Agora estamos a preparar uma ronda seed para essa altura e já temos alguns interessados em entrar. Para além disso, fechámos dois clientes internacionais muito bons e vamos apresentar um produto melhorado nos próximosm meses. Estamos muito entusiasmadas com as novidades”, conta Guillemette Dejean.

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