inteligência artificial

Como a Feedzai quer ser a Google de Portugal

Nuno Sebastião, CEO da Feedzai, na abertura do evento "AI Deep Dive (Insider Images)
Nuno Sebastião, CEO da Feedzai, na abertura do evento "AI Deep Dive (Insider Images)

É uma startup que vai buscar cérebros às grandes empresas do mercado. E tem ambições de ser a melhor do mundo

O nervoso miudinho era quase impercetível, não fosse o sacudir de braços e o sorriso rasgado que Nuno Sebastião procurava controlar minutos antes de entrar em palco. Espreitava pelas cortinas para confirmar mais uma vez que havia casa cheia. No labirinto de salas, equipamento, caixotes e papéis espalhados pelos bastidores do evento, a azáfama estava a ser substituída pela concentração. “Esta é a sala do Woz”, sussurrou Loc Nguyen, diretor de marketing da Feedzai. O cofundador da Apple, Steve “Woz” Wozniak, ainda não tinha chegado e a preocupação era evidente.

Mas o que quer que acontecesse com os oradores, incluindo este monstro da indústria tecnológica, a empresa portuguesa já tinha conseguido algo incrível: organizar um evento sobre inteligência artificial na conferência financeira Money 20/20, em Las Vegas, que excedeu em muito as expectativas. Esperavam 700 pessoas e apareceram 3500. As filas serpenteavam nos corredores e foi preciso abrir três salas para que pudessem acompanhar em monitores o que se ia passar lá dentro. A “AI Deep Dive”, que o CEO Nuno Sebastião abriu com toda a esperança do mundo, foi um sucesso inesperado.

“Se alguém me dissesse em 1996 que ia dar um aperto de mão ao fundador da Apple, eu dizia que não era possível”, disse ao Dinheiro Vivo, no final do evento, com a tranquilidade que chega após um surto de adrenalina. “Em 1996 queria muito, mas não tinha dinheiro para um computador Mac. E agora cá estou a conhecer o fundador.”

É claro que a Feedzai, uma empresa portuguesa dedicada à inteligência artificial, não tem poder suficiente para atrair todos estes oradores – começando por Steve Wozniak, passando por Michio Kaku e terminando em Ray Kurzweil. Foi o peso da Money 20/20 que os convenceu a participar num evento em que foram discutidas as oportunidades, perigos e inevitabilidade da inteligência artificial, não uma startup focada no nicho da fraude financeira. No entanto, serviu como plataforma de apresentação para a empresa liderada por Nuno Sebastião, Paulo Marques e Pedro Bizarro. E não é do nada que começam todos os impérios?

“Nós não devíamos estar aqui. Tínhamos tudo contra nós, tanto que até há algum tempo o nosso símbolo era um cão rafeiro. Somos um bocado isso”, confessa Nuno Sebastião. Aquilo que a Feedzai tem conseguido deve-se à teimosia dos fundadores e aos 160 mil euros que Pedro Carvalho, um dos fundadores da Novabase, investiu neles em 2011. “Se não fosse ele, a Feedzai não existia”, revela. “Para ele não foi muito, para nós foi a diferença.”

Mas a história de como a Feedzai surgiu em Portugal, resistindo aos pedidos de investidores para que mudasse a sede para um país mais credível como Reino Unido ou Estados Unidos, começou muito antes disso. Mais precisamente em 2003, quando Nuno Sebastião foi o primeiro português a entrar nos quadros da Agência Espacial Europeia.

“Tinha uma série de responsabilidades e fiquei muito lixado quando eles me disseram que não ia ser promovido a partir de determinado nível porque não tinha a nacionalidade certa”, desabafa, de forma cândida. “E eu pensei, ‘mas tenho lá culpa do sítio onde nasci?’ É muito político.” A partir daí, Nuno Sebastião quis provar que conseguia fazer algo grande a partir de Portugal. No início, os investidores pediam-lhes para mudar a sede para fora, tal como aconteceu com várias tecnológicas portuguesas. “Nós nunca mudámos por teimosia pura. Não percebia qual era a limitação. De lei? Não. Fiscal? Não.”

A resposta não é difícil de encontrar. Portugal não é Israel, um país pequeno mas com muitas startups e enorme reputação em tecnologias de ponta. Também passou pela crise, que colocou o país nas bocas do mundo pelos motivos que ninguém queria. A Feedzai persistiu e este ano conseguiu ir ganhar como cliente o maior banco e processador de pagamentos em Israel, LumiCard, porque queria mostrar às empresas de cibersegurança que nascem a partir de lá que conseguia plantar uma bandeira na terra deles. “E depois, porque não há nenhuma razão para não fazeres. Então fazes.”

Entre as melhores do mundo

O que a Feedzai faz neste momento é muito específico: usa inteligência artificial para prevenir e detetar fraude nos pagamentos em instituições financeiras. Pedro Bizarro, cofundador e diretor científico, explica que a empresa conseguiu desenvolver um modelo único, que deteta fraude em milissegundos e em grande escala. “Conseguimos passar de um modelo que foi treinado num ambiente de teste para um ambiente de produção tipicamente chamado de mission critical ou business critical num banco, que nunca pode falhar, está a correr 24 horas por dia, 365 dias por ano”, diz. “Mesmo que algum computador falhe, outro tem que recomeçar em back-up a funcionar e nós conseguimos fazer essas duas coisas.”

Demoraram anos a chegar a este ponto, a tentar encaixar o produto no mercado. Tentaram utilities, empresas de telecomunicações, e finalmente perceberam onde a sua tecnologia funcionava melhor. Agora, querem ser reconhecidos pela excelência, independentemente do país onde nasceram.

“Nós queremos ser a Google ou a Apple de Portugal”, declara Nuno Sebastião, sem medo. “São organizações profundamente técnicas, onde há pessoas a concorrer porque querem trabalhar ali, não porque pagam mais ou vendem mais, mas porque são realmente o melhor sítio técnico para se trabalhar, em termos de engenharia pura”, descreve.

Tanto a Google como a Apple ou até o Facebook têm projetos a que chamam de “moonshot”, por vezes bizarros, que parecem sonhos longínquos ou difíceis de alcançar. Fazem-no porque querem garantir que têm combustível para as melhores pessoas dentro da empresa. “Porque as melhores pessoas que eles lá têm precisam de trabalhar em coisas realmente à frente”, continua. “Se calhar perdem tempo a fazer coisas que não interessam para nada, mas há um dia em que um deles tem uma ideia que é o próximo sucesso.”

É isso que a Feedzai quer ser, e também o motivo pelo qual tem conseguido atrair perfis internacionais de vulto para os seus quadros. Richard Harris veio da Visa para liderar as vendas da Feedzai na Europa. Loc D. Nguyen saiu da PayPal, onde era diretor de serviços de retalho, para liderar o marketing na empresa portuguesa. Andrew Tifosky doutorou-se em machine learning na universidade de Stanford e é agora vice presidente de ciência de dados na empresa. “Por alguma razão decidiram juntar-se a fazer isto. Temos todos uma garra de combate que nunca vi em nenhuma organização”, salienta Sebastião. “O tema da Feedzai é que nós nunca desistimos.”

Até ao final do ano, a empresa pretende passar de 260 para 300 trabalhadores e o CEO sabe que isso não vai ser fácil. Foram obrigados a montar uma estrutura de recrutamento interna, agora com 7 pessoas, porque as empresas de recrutamento em Portugal deixaram de querer trabalhar com eles, tal é o grau de exigência. Sebastião conta que uma destas empresas lhe enviou 800 currículos e daí saiu apenas uma contratação. “Criámos essa reputação, então é quase um desafio para os melhores”, garante. E são agressivos o suficiente para conseguirem ir buscar as pessoas que querem, incluindo portugueses que tinham emigrado. Para recursos humanos, trouxeram Marta Pinheiro da Johnson & Johnson, em machine learning foram buscar Inês Salavisa Teixeira à Airbus. “Nas últimas semanas contratámos pessoas de vendas que vêm destas empresas tipo SAS, IBM, FICO e que candidamente há oito, doze meses não atendiam o telefone”, conta. “A métrica que nós temos é: eu quero que o melhor engenheiro da Google venha trabalhar para a Feedzai.”

Investimento para o futuro

Em outubro, a empresa anunciou uma nova ronda de financiamento de 50 milhões de dólares (42 milhões de euros), elevando o total levantado desde a fundação para 82 milhões. Foi uma das maiores rondas alguma vez conseguidas por startups portuguesas na área da tecnologia, o que mostra o quanto o capital de risco acredita no potencial da empresa. Entre os seus investidores contam-se a Saphire Fentures, Capital One Growth Ventures, Citi Ventures e Oak HC/FT, entre investidores que mantêm o anonimato.

O dinheiro será usado sobretudo em marketing e vendas. A I&D (investigação e desenvolvimento) é forte, mas é preciso que a empresa seja reconhecida pelos grandes bancos e instituições financeiras por esse mundo fora. Estão em cinco dos 25 maiores bancos mundiais, e Nuno Sebastião quer estar em todos. Os seus produtos têm ciclos de venda longos, que demoram nove meses, e é preciso construir essa reputação – voltamos ao evento “AI Deep Dive” e à importância que teve para mostrar a empresa a quem toma decisões. Quem está a montar a máquina de vendas é Jim Priestley, Chief Revenue Officer, que antes era vice presidente sénior da Box e passou pela Oracle norte-americana.

No ano passado, fizeram 130 milhões de dólares em contratos multi-anuais e este ano vão chegar aos 270 milhões, o que denota que a estratégia está a resultar. Em termos de faturação pura e dura, o crescimento é de quase 100%: 32 milhões no ano passado e mais de 60 milhões em 2017. Alguns dos grandes clientes são a Exxon, Capital One e Citi nos Estados Unidos. Outro é a operadora Reliance, na Índia, que lançou uma aplicação para as pessoas que não têm conta no banco fazerem e receberem pagamentos. Na China, estão a integrar com o WeChat, em que o utilizador envia uma mensagem para fazer pagamentos. Na Austrália, com um sistema de transferências em que o dinheiro chega meia hora depois, ao invés de demorar dias.

Depois, querem avançar para mercados adjacentes, tais como a deteção de fraudes em seguros e nas moedas digitais. Paulo Marques, cofundador e diretor de tecnologia, é conciso na sua ambição: “O que nós queremos é ser a maior e a melhor empresa de prevenção de fraude no mundo.”

Como é que se replica isto em Portugal?

No jantar que antecedeu o evento na Money 20/20, havia muito pouca gente a falar português. A Feedzai tornou-se numa babilónia de línguas, perfis e identidades. E o facto de ser uma empresa portuguesa nunca é escondido, antes celebrado. Trocam-se ideias sobre os melhores sítios onde comer em Lisboa, que pérolas se descobrem em Sintra, as maravilhas da cidade do Porto. Estas pessoas podiam estar a ganhar salários milionários nas gigantes de Silicon Valley, mas escolheram esta pequena empresa que quer ombrear entre os melhores da inteligência artificial – e garante ter as ferramentas para o fazer. Há mais empresas portuguesas como a Feedzai, casos da Farfetch e da Talkdesk, por exemplo. No entanto, a máquina de inovação não é constante, diz. Nuno Sebastião.

“Noto que a malta não se faz ao caminho. Quantas pessoas não conheço aqui que vendem tudo e vão-se embora, fazer-se ao caminho? Começam de novo”, nota. É muito crítico com o status quo português. “Em Portugal, só comem papas e bolos. Comem o QREN, os financiamentos europeus, vão a uns eventos, e depois nada”, reflete.

Sebastião acredita que existe potencial e exemplifica com a série de investimentos que houve em 2015, da Veniam à Talkdesk. “Quando é que vem a segunda vaga? E a terceira? Isso mostra que não há verdadeiramente um ecossistema saudável. Não há máquina. Aconteceram estes por uma série de razões, como noutras zonas emergentes, mas depois não há continuidade.”

O conselho de Sebastião é que os empreendedores se façam ao caminho. Lembra casos de investidores norte-americanos que fizeram propostas para investir em Portugal e disseram aos empreendedores que não precisavam de mudar a sede, mas um deles teria de ir para os EUA para desbravar mercado. “E eles disseram que não, porque não estavam disponíveis para esse sacrifício.

Também sublinha que isto de chamar startup a qualquer negócio pode ser contraproducente. “A malta tem uma rulote de sandes com um logótipo giro e diz que tem uma startup”, afirma. “É possível fazer uma startup para vender sandes. Tem é que vender sandes para o mundo inteiro.”

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje

Página inicial

7º aniversário do Dinheiro Vivo: Conferência - Sucesso Made in Portugal. 
Pedro Siza Vieira, Ministro da Economia
(Diana Quintela/ Global Imagens)

Made from Portugal: desafio para os próximos 7 anos

Lisboa, 11/12/2018 - 7º aniversário do Dinheiro Vivo : Conferência - Sucesso Made in Portugal, esta manhã a decorrer no Centro Cultural de Belém.
Rosália Amorim, Directora do Dinheiro Vivo; Antonoaldo Neves, CEO da TAP; João Carreira, Co-fundador e Chairman da Critical Software; Paulo Pereira da Silva, CEO da Renova; João Miranda, CEO da Frulact; Rafic Daud, Co-fundador e CEO da Undandy; Helder Dias, VP of Engeneering da Farfetch 
(Diana Quintela/ Global Imagens)

Um unicórnio na China, papel higiénico sexy e patê de algas

Outros conteúdos GMG
Conteúdo TUI
Como a Feedzai quer ser a Google de Portugal