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Eles vão revolucionar a tradução online

A equipa está a viver em Mountain View
A equipa está a viver em Mountain View

Numa cena do filme “Lost in Translation”, de Sofia Coppola, o norte-americano Bob está num estúdio para gravar um anúncio a uma marca de whiskey. Ele não fala japonês e o realizador não fala inglês. O realizador descreve, em japonês, como quer que ele se sente no seu estúdio, com uma garrafa em cima da mesa. E como deve olhar para a câmara devagar, com alma, suavemente, dizendo as suas falas como se se dirigisse a velhos amigos. O intérprete traduz: “Ele quer que se vire e olhe para a câmara. Está bem?”

Não, não está bem. Perdeu-se quase tudo na tradução. Como se perde quase sempre com os programas de tradução automática que, apesar de todos os avanços nos últimos anos (olá, Google Translate), ainda estão muito longe de um resultado fiável. É precisamente aqui que a startup portuguesa Unbabel quer mudar as coisas. Como? Combinando um software de tradução automática com uma comunidade de pessoas. A ideia é tão boa que a Unbabel se tornou na primeira empresa portuguesa aceite no acelerador YCombinator, em Silicon Valley, um dos mais difíceis de entrar do mundo.

“Primeiro traduzimos de forma automática e depois há uma pessoa que é nativa na língua e corrige o resultado da tradução automática”, explica ao Dinheiro Vivo Sofia Pessanha, cofundadora da Unbabel. “O tradutor corrige a gramática, os géneros, os erros mais comuns, palavras ambíguas em que o motor de tradução tenha feito uma escolha errada, e fica pronto para enviar.”

O site já está online – ainda numa fase incipiente, porque o primeiro protótipo tem apenas alguns meses de existência. Cobra dois cêntimos de dólar por palavra, na língua de origem, e já tem 40 clientes, incluindo algumas empresas de Silicon Valley. As traduções podem ser pedidas no site ou por email.

“Os tradutores trabalham online e nós pagamos um mínimo de 8 dólares à hora. Medimos o tempo que estão a trabalhar e podemos pagar mais se forem mais produtivos”, diz Sofia Pessanha. Esta comunidade tem 3500 tradutores de várias línguas, sendo que a Unbabel só vende, por enquanto, traduções em seis línguas – português (de Portugal e do Brasil), espanhol (Espanha e América Latina), francês, italiano, alemão e turco.

Para começarem a trabalhar com a Unbabel, os tradutores são testados com cinco tarefas e avaliados. Se entrarem, têm de ir cumprindo tarefas nas quais recebem feedback dos outros membros da comunidade. Além disso, sublinha a empresária, “temos dois tradutores séniores, que trabalham connosco de forma mais próxima e dão muito feedback.”

Como foi para Silicon Valley

Sofia e os outros quatro cofundadores estão a viver juntos em Silicon Valley, enquanto desenvolvem a empresa criada em agosto de 2013. Todos têm experiência na criação de startups e dois, João Graça e Vasco Pedro, têm doutoramentos na área da linguagem natural e aprendizagem automática.

“Há anos que discutiam porque é que a tradução automática continua a não resolver tão bem como seria esperado os problemas de comunicação online”, resume Sofia Pessanha. A empresa começou com um protótipo e a reação foi boa, o que a levou para a iStart Lab, uma incubadora em Lisboa. Depois, o inédito: candidataram-se ao acelerador YCombinator, em Silicon Valley, e conseguiram entrar. É a primeira vez que uma empresa portuguesa o consegue. “É talvez o acelerador mais difícil de entrar, o mais conceituado. A taxa de entrada não chega a 1% das candidaturas.”

A equipa foi viver para Mountain View em janeiro e regressa a Portugal a 16 de abril. Na próxima semana, tem duas provas de fogo: segunda-feira apresenta os resultados dos três meses de aceleração aos seus pares e na terça aos investidores. O que tem para apresentar é animador: crescimento de 15% por semana.

“O desafio era crescer muito. Durante estes três meses estivemos a encontrar clientes, a falar com os nossos utilizadores e a resolver como melhor chegar ao mercado”, conta Sofia Pessanha. “O foco deles é muito o crescimento. Aquilo que estivermos a medir, seja número de utilizadores, faturação ou número de clientes, tem de crescer.”

A seguir, começa a ronda de angariação de financiamento. O YCombinator investe 100 mil euros nas empresas que acelera, mas a Unbabel precisa de mais nesta fase, para cima de meio milhão de euros. “A nossa visão de longo prazo é sermos o motor de tradução humana da internet”, refere a empresária. “Para isso é preciso muitas pessoas a trabalhar de formas diferentes, não apenas online, também no telemóvel.” O dinheiro vai servir para desenvolver o produto, com a contratação de engenheiros, e a comunidade. “Temos 3500 pessoas na plataforma, mas precisamos de mais. Nós queremos ser o Google Translate com a qualidade humana.”

A plataforma está pronta, mas ainda é uma versão inferior ao que a equipa ambiciona. Querem, por exemplo, que o software seja capaz de aprender quando faz escolhas erradas. “Precisamos de dinheiro para contratar engenheiros que construam um melhor produto, aplicações que tornem o processo de tradução muito simples, e contratar pessoas de gestão de comunidades e de marketing, para gerir a comunidade que se está a criar à nossa volta.”

A Unbabel está sediada nos Estados Unidos (era uma condições dos investidores), mas o desenvolvimento e gestão serão feitos a partir de Lisboa.

Quem usa a Unbabel

Dos 40 clientes que usam os serviços de tradução, alguns são empresas ali mesmo de Silicon Valley, de vários tamanhos. “Há uma série de startups que nos estão a utilizar, que traduziram o seu site, depois começaram a traduzir todos os emails de suporte ao cliente, as suas publicações de blogue, campanhas de lançamento, comunicados de imprensa”, explicita Sofia Pessanha.

A língua mais popular, neste momento, é o espanhol, e a entrega das traduções muito rápida: um texto de mil palavras, cerca de 6 mil caracteres, é entregue em duas a três horas. A missão seguinte é alargar a comunidade de tradutores para introduzir mais línguas e continuar a crescer, a partir de Portugal.

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