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Elide Fire. A bola de contra-ataque aos incêndios urbanos

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Elide Fire. A bola de contra-ataque aos incêndios urbanos

Luis Vieira trouxe para Portugal a tecnologia tailandesa que nasceu para evitar fogos como o que deflagrou na Torre Grenfell, em Londres.

Há vinte anos, uma tragédia marcou o verão da Tailândia. A 11 de julho de 1997, um incêndio num hotel de luxo na localidade de Pattaya, em muito semelhante ao que teve lugar na Torre Grenfell, em Londres, em junho último, vitimou perto de uma centena de pessoas. No apuramento de responsabilidades, concluiu-se que a cidade, a cerca de 200 quilómetros a sudeste da capital do país, não tinha serviços e infraestruturas capazes de dar uma resposta célere em situações de urgência. Muitas pessoas tinham morrido porque os bombeiros tinham demorado a chegar.

Nesse incêndio estava Phanawatnan Kaimart. O tailandês sobreviveu ao desastre, mas as imagens do que viveu perseguiram-no por bastante tempo. “Vi mulheres a fugirem com crianças de colo. Não havia nada que eu ou alguém pudesse fazer,” afirmou mais tarde à imprensa.

Kaimart decidiu desenvolver uma tecnologia que pudesse ajudar em situação de incêndio e que fosse eficaz como primeira abordagem às chamas. Demorou três anos até ter pronta a Elide Fire: uma bola extintora, que pesa pouco mais de um quilo e pode ser usada por qualquer pessoa. Utiliza um pó químico composto por monofosfato de amónio que explode quando entra em contacto com o fogo, extinguindo as chamas numa área de oito a dez metros quadrados e de volume entre 30 a 35 metros cúbicos.

Quinze anos mais tarde, Luis Vieira assistia a vídeos em catadupa no YouTube sobre a utilização da bola. Estava fascinado. “Comecei a ver um vídeo com a bola em ação num carro, depois um vídeo numa casa, depois com um frigorífico, com uma impressora, com uma frigideira… e a coisa tomou caminho”, explica ao Dinheiro Vivo. Uma série de contactos depois, Luis abriu a Record Reference e tornou-se no representante oficial e distribuidor exclusivo da bola Elide Fire em Portugal.

A empresa foi criada há vários meses e até ao momento já vendeu cerca de 600 unidades. “Custa 120 euros mas estamos a tentar subir as vendas, encomendar mais quantidade de forma a poder reduzir o preço. A ideia é chegar ao maior número de pessoas possível. Na Ásia e em países como a Grécia e a Turquia faz imenso sucesso. No Vietname há inclusive drones que transportam a bola para combater incêndios. E o mercado turco vende 50 milhões de bolas. Faz tanto sucesso que até há várias empresas a tentar vender imitações”.

Só que a patente da tecnologia pertence a Phanawatnan Kaimart e a casa mãe já teve vários processos litigiosos contra companhias que vendem versões falsificadas da bola. Em abril, a Elide Fire colocou a Alibaba em tribunal por vender réplicas do produto, da má qualidade e que não funcionavam, e que acabavam por pôr em causa a reputação da empresa tailandesa. As perdas estimadas foram de aproximadamente 86 milhões de dólares (72,23 milhões de euros).

Ainda assim, não foram suficientes para travar o sucesso e crescimento da marca, presente já em 21 países. Apesar de ser sobretudo um grande auxílio em incêndios urbanos, em casos como o de Pedrógão Grande, que em junho vitimou mais de meia centena de pessoas em Portugal, também poderia ter sido uma ajuda. “A bola não é apropriada para fogos florestais porque não consegue apagar esses. Mas pode ajudar a criar janelas de escape para as pessoas fugirem. Já em casos como o da Torre Grenfell, em Londres, com as chamas a começarem num frigorífico, se houvesse uma bola destas por perto, teriam sido extintas de forma imediata e a tragédia teria sido evitada”, assegura Luis Vieira.

Para além da extinção do fogo a bola utiliza serve ainda como alarme, já que a sua explosão emite um som semelhante ao do rebentamento de uma bomba. E apesar de servir maioritariamente para uso particular e doméstico, não pretende ser um produto concorrente do extintor, antes um complemento. “São coisas distintas. A bola é também um meio automático, não precisa de ser operada por ninguém, como o extintor. Basta ser colocada em locais estratégicos de maior fragilidade que rebenta em caso de fogo.”

Neste momento, na Record Reference só a tratar da divulgação e venda da Elide Fire. A bola é vendida ao público através do site ou pelas parcerias que Luis está a estabelecer. A empresa trabalha também em proximidade com a polícia, a proteção civil e os bombeiros. “Pode facilitar o trabalho deles. Se estiver um apartamento a arder, antes de entrarem os bombeiros podem atirar lá para dentro uma bola que lhes vai abrir uma via de entrada”, explica Luis Vieira, junto ao quartel dos Bombeiros Voluntários da Malveira, onde fez ao Dinheiro Vivo uma demonstração da utilização da bola.

A Elide Fire pode ser utilizada de várias maneiras. Pode ser atirada para as chamas ou colocada junto a possíveis focos de incêndio, como o fogão ou o quadro elétrico da casa. O representante acredita que também pode ser uma mais-valia em automóveis. “Se a bola for colocada ao pé do motor e ele sobreaquecer e incendiar-se, ela imediatamente vai explodir e apagá-lo,” explica, acrescentando que traz valor para famílias, empresas e instituições, como escolas e hospitais. É o cumprimento do objetivo inicial de Phanawatnan Kaimart, que pretendia criar uma tecnologia que fosse acessível a qualquer pessoa, ajudando por isso na prevenção de fogos confinados, evitando que se tornem em grandes tragédias. “Para além disso o pó da bola é inofensivo. Não mancha a roupa, não faz mal à saúde nem ao ambiente. É absolutamente seguro”, conclui Luis Vieira.

Para além de ser certificada pela Autoridade Nacional de Proteção Civil, a Elide Fire tem arrecadado vários galardões, como o prémio europeu de invenções Eureka de Inovação, a medalha de bronze no prémio Genius, de ouro no prémio WIPO e no prémio KIPA e uma medalha de ouro da Agência Federal de Ciência e Inovação da Rússia e do Conselho Nacional de Pesquisa da Tailândia.

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