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Em Sintra não há só queijadas

Alexandra Castelo, sócia da Muu
Alexandra Castelo, sócia da Muu

As peles chegam, de todas as cores, e Alberto corta-as, peça a peça. Isabel arma a base da mala. Amélia cose. Isabel acrescenta. Amélia volta a coser. É um vai e vem, até Alberto chegar aos acabamentos finais. Assim se constroem as malas na fábrica da Muu, empresa 100% portuguesa que surgiu quando duas amigas que trabalhavam em produção de moda – Joana Lucena e Marta Deslandes – se aperceberam de uma lacuna no mercado: não havia sacos grandes e confortáveis. Em 2001, juntaram-se a um designer e começaram, eles próprios, a criar e vender as malas em pele, feitas à mão através de métodos tradicionais.

Vídeo: Veja aqui como se fazem as Muu

“Era tudo feito de forma muito doméstica e artesanal, em casa”, conta Alexandra Castelo, que entretanto se juntou como sócia, no final de 2012. “Primeiro vendiam aos amigos, depois foram ganhando maior proporção e passaram para as lojas.” Cinco anos depois de começar, houve necessidade de “profissionalizar mais” a Muu. A marca ganhou canais e distribuição e visibilidade e começou a produção em fábrica. Uma produção que, na verdade, “não é muito diferente” daquela que era feita em casa. “O que se vê aqui podia ser feito numa garagem, mas há melhores condições. Não temos maquinaria pesada, nem a queremos”, diz Alexandra Castelo, licenciada em Sociologia e com uma pós-graduação em Gestão.

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Da escolha da pele aos acabamentos, passando pelas ferragens e pela linha, tudo é discutido pela equipa. O resultado é que “cada peça é única, quase como se fosse alta costura ou ourivesaria. Cada mala é feita individualmente, com todo o carinho e cuidado”. Por isso, garante Alexandra Castelo, quem tiver uma Muu dificilmente encontra alguém com uma mala igual. A exclusividade, a par da aposta em matéria-prima de qualidade e mão-de-obra especializada – apresentando duas coleções por ano – dita os preços: uma mala Muu pode chegar aos 390 euros. Nada que afaste as clientes, que já vão bem além do mercado português. Alemanha, Bélgica, Suécia e Estados Unidos – neste país, estão com uma loja própria, em New Jersey – são os países onde a Muu já chegou e vende cerca de 20% das 130 malas produzidas por mês.

Foi precisamente graças ao crescimento dos canais de distribuição, que trouxeram novos clientes, e à aposta na revenda em lojas de qualidade, como a Pedra Dura ou o El Corte Inglés, que a empresa sobreviveu ao pior da crise. Hoje, a Muu dá trabalho a seis pessoas na fábrica de Sintra e mais quatro nas três lojas próprias: na Rua da Misericórdia (Chiado), no Hotel Penha Longa (Sintra) e na Rua José Falcão (Porto) – o espaço mais recente, que abriu no mês passado. Nas We3, as lojas do Chiado e do Porto, a Muu partilha o espaço com outros produtos portugueses complementares: os sapatos de Catarina Martins e a roupa da TM Collection.

Para Alexandra Castelo, a ideia de partilhar a loja com outras marcas é não só natural como traz imensas vantagens e sinergias. Aliás, diz, só traria benefícios à economia se o modelo fosse replicado por todo o país. “Todos temos uma loja própria, mas partilhamos o espaço, os empregados e todos os custos. E ainda exploramos a complementaridade das três marcas, quem compra uma mala acaba por comprar um par de sapatos ou um vestido, e criam-se sinergias extremamente importantes que são até facilitadoras em termos de expansão das marcas”.

O modelo também ajudou a ultrapassar os efeitos da crise e este ano está já a correr bem. Alexandra acredita mesmo que a nova loja no Porto, onde “a revenda ainda é pouca e a distribuição muito incipiente”, venha trazer notoriedade à marca, já que vai permitir que os clientes possam ver as malas ao vivo e a cores sem terem de vir a Lisboa. “Se este ano for tão bom como o último [quando faturaram à volta de 250 mil euros], já não será completamente mau”, diz.

Para o futuro, fica sempre a promessa de novos produtos, alguns até feitos à medida das clientes.

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