Empreendedorismo e inovação. Primeiro estranha-se, depois entranha-se

Incubadoras e aceleradoras falam na necessidade de aproximar os especialistas das empresas de maneira a aproveitar o talento português na economia nacional

Ter uma ideia pode ser o ponto de partida para criar o negócio, mas só depois de posta em prática pode ser testada e ter sucesso. João Vasconcelos, fundador e diretor executivo da Startup Lisboa - que já incubou mais de 200 empresas nos últimos três anos - sabe a lição de cor. "Temos ideias que não são novas mas que dão muito dinheiro. E ideias muito inovadoras que não dão dinheiro nenhum. Não tem que ver com a ideia, com a patente ou com a inovação. A maior percentagem do sucesso é execução", garante.

No lançamento do Prémio Inovação NOS, João Vasconcelos falou de inovação mas sobretudo de premiar o trabalho desenvolvido depois da ideia inovadora. "A nossa grande fonte de empreendedores são grandes empresas: gente que deixa o seu trabalho e decide arriscar, numa altura em que não coloca tudo em causa.", esclarece. Por isso, na Startup Lisboa não se desenvolve ciência, inovação ou investigação. "Trazemos clientes e investidores para criar riqueza e emprego. Interferimos pouco com a inovação mas na transformação da inovação em empresa", diz.

Também habituado a receber diariamente ideias e planos de negócios, José Novais Barbosa, presidente da direção da UPTEC, mantém muitos dos objetivos do Parque Tecnológico intocados desde o primeiro dia. O responsável pelo parque que estreita o caminho entre a Universidade do Porto e uma incubadora de startups assegura que existe um espírito de inovação em Portugal que pode ser desenvolvido de inúmeras formas e considera que inovar de nada serve se não trouxer ganhos. "Fui aprendendo dia a dia com as necessidades e os desafios (...). Parece-me que a palavra empreendedorismo já está demasiado gasta. Gosto mais de inovação. Todas as pessoas são empreendedoras, têm ideias novas. O aspeto essencial aqui é a inovação. Considero que inovar é não fazer diferente mas fazer de forma melhor. Para além disso é necessário que inovar tenha valor", considera.

Recordando os primeiros meses antes da fundação da UPTEC, José Novais Barbosa disse que a estrutura criada nas antigas instalações de um estaleiro foi inicialmente muito criticada. "Havia uma desconfiança em relação ao desenvolvimento e ao crescimento desse parque. Começámos por instalar a primeira empresa e procurámos desenvolver uma cadeia de valor da inovação vinda da universidade", explica o presidente da direção do parque. "Desde logo entendemos que o nosso conceito devia ser alargado e associar outro tipo de instituições."

Além de uma incubadora, foram criados laboratórios onde empresas e universidades podem criar novos produtos com valor económico para as empresas e o mercado - sobretudo internacional - e ainda a possibilidade de integração de empresas-âncora, que não são propriamente do Parque de Ciência e Tecnologia mas que beneficiam da interação que procuram alargar e potenciar. "A inovação depende de um espaço onde as pessoas possam encontrar-se e onde não se sintam constrangidas para desenvolverem os seus estudos. Tem de haver um interesse económico das empresas e terão de existir disponibilidades laboratoriais para que a criação dos protótipos possa ser desenvolvida", disse.

Elvira Fortunato, a portuguesa que inventou o transístor de papel, está habituada a viver em ambientes do género. Defende que os portugueses não sabem valorizar o que têm e que é preciso paciência para ter sucesso. "A investigação básica demora a ter resultados", afirma. No entanto, a cientista assegura que a futura geração de displays - sejam televisores, tablets ou telemóveis - "terá um bocadinho de Portugal". Além dos muitos contactos que tem, está já a desenvolver um projeto com a Samsung e a trabalhar com o Instituto de Telecomunicação da Coreia do Sul. Para isso, reconhece, são necessárias pessoas bem qualificadas. "Só essas fazem que as coisas avancem. (...) Descobrimos que a celulose é um componente da eletrónica. Estamos rodeados de embalagens e a tendência mundial é a de substituir embalagens de plástico por papel, incorporando uma série de sensores que permitem ter informações. Há uma miríade de potencialidades."

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