Esta portuguesa está na lista das sub 35 do Reino Unido

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Ela chegou ao Rio de Janeiro, onde moro há mais de um ano, e mal aterrou já dominava melhor o sotaque carioca do que eu. Antes de viajar para o Brasil, avisou-me por mensagem, em cima da hora: vinha por dois dias e para obter informações sobre um importante homem de negócios do Rio. No caminho do aeroporto para Ipanema, deixou o motorista do táxi encantado a ponto de o senhor, Genilson Jarvas, se ter prontificado a fazer o caminho de volta com ela, mesmo calhando o regresso no seu dia de anos.

Foi na praia que comentou comigo, sem dar muita importância ao fato, de que iria aparecer num artigo sobre empreendedoras em Inglaterra. Passados quatro dias, a notícia espalhava-se pelas redes sociais: Joana Rego fazia agora parte da lista Its 35 Women Under 35, elaborada anualmente desde há 15 anos pela revista Management Today, em parceria com a Accenture, e onde já constaram nomes como os de Elisabeth Murdoch (fundadora da produtora Shine) ou da estilista Stella McCartney. Só no ano passado, Joana angariou 717 mil euros em novos negócios para a empresa em que trabalha, a GPW (ver texto ao lado), apesar de ter estado seis meses de licença de maternidade.

Desse assunto, rapidamente passámos para outros, entre os quais o patinho de borracha verde que ela leva sempre consigo nas viagens para tirar fotos e ir mostrando ao filho, Laurence ou Lourencinho: “Tem de dar nas duas línguas”, diz. Portanto, houve selfies com o brinquedo, fotos dentro e fora de água, para em seguida as enviarmos para o bebé que, segundo a babysitter, via Skype, estava tão entusiasmado com a piscina insuflável recém-chegada ao jardim de casa, em plena onda de calor em Londres, que não quis saber do pato.

Conhecemo-nos há 24 anos e a nossa amizade, se já durou tanto tempo, será para ficar. E é curioso como ela ainda me toma de assalto, seja porque vem ter comigo vestida à executiva, montada nuns stiletti gigantes e, mesmo assim, consegue andar mais rápido do que eu, ou porque pode descambar por completo tal como quando era adolescente. Fosse este texto interativo e a 3D, ela poderia entrar aqui no meio, num carro descapotável, e dizer–me: “Bora, que hoje estás por minha conta!” Ou então passar montada num cavalo descontrolada e a gritar: “Ajuda-me, como é que paro isto?!” Eu, sorrindo, iria desfrutar do espetáculo, com ela a chamar-me nomes. Não seria a primeira vez.

Sofremos as duas de bullying na escola, numa altura em que a palavra ainda não se usava, por um professor que nos tinha um ódio de estimação. Disse-nos várias vezes que não tínhamos inteligência para terminar o 12.° ano na Escola Alemã, mas éramos rijas e conseguimos ir ligeiras até ao então medonho Abitur, os exames finais. Recebemos várias cartas de mau comportamento em casa, mas com jogo de anca e assaltos às caixas de correio em casa, conseguimos ir empurrando a bolha de notificações em papel timbrado até esta atingir proporções angustiantes – quase chumbámos no 10.° não por más notas mas por provocações quase diárias. Foi por essa altura que o nosso diretor de turma, Herr Castro, pediu a demissão do cargo alegando “esgotamento por não nos aguentar mais”.

Após o ultimato de reprovação, fomos obrigadas, para todo o sempre e em qualquer sala, a sentarmo–nos em pontas diametralmente opostas. Plantaram-nos uma em cada lateral e ao lado de um bom aluno certinho, o que só nos trouxe melhores apontamentos e um maior refinamento.

Quando havia confusão, éramos geralmente responsáveis e por isso as expulsões eram frequentes. Adaptámo-nos bem, de tal forma que, quando mandavam uma para a rua, a outra acusava-se e afirmava que o justo era sair também. Lá fora estavam os rapazes mais velhos que faltavam às aulas, fumavam cigarros e jogavam à bola em tronco nu. Bebemos cervejas à hora de almoço, fizemos 30 por uma linha e mantivemos durante anos a fio uma acesa luta de pioneses nas cadeiras. Para quem não conhece a brincadeira, o objetivo é que o adversário se sente sem reparar na armadilha.

Para ressabiamento de Herr Ludwig, ambas terminámos o liceu com médias decentes, ela com 17 e eu com um valor abaixo. Depois disto, Joana Rego estudou Sociologia no ISCTE, em Lisboa, tendo terminado o curso na Université Paris X Nanterre. Ainda na mesma cidade – onde também conheceu o seu marido, Sam -, fez um mestrado em International Affairs Conflict Prevention and Resolution, na Sciences PO. Até se estrear na área em que hoje é experiente, trabalhou para a OCDE, para o Instituto de Estudos de Segurança da UE e para o Programa de Desenvolvimento da ONU. Neste momento ela é associate partner na empresa onde trabalha desde 2010, a GPW. Antes disso, viveu quatro anos em Bruxelas, trabalhando para a Diligence International, que também presta serviços de informação económica, e onde chegou a senior analyst and project manager.

Fazer um perfil de alguém que se conhece bem pode nem sempre obedecer à imparcialidade jornalística. Mas, tal como a Joana diz, a “informação está com as pessoas”. Parte da nossa conversa profissional, para alinhar datas e pormenores da sua experiência, aconteceu via Skype e divagações para assuntos menos sérios não faltaram. “Ai, desculpa, agora vou ter de interromper só para te dizer que o meu marido está a aspirar a relva (sintética) e o meu filho está com um ar perplexo a olhar para o aspirador!”

Sempre que estou com ela, é rara a vez em que não me fala dos pais e irmãos, Rita e Zé Maria, com um enorme carinho. “Fui superacompanhada por eles, foram das pessoas mais importantes para mim durante a adolescência. Eles e o professor Valentim, sempre me apoiaram.” À cabeça vêm-me imagens do dia em que se casou e onde, mais uma vez, me voltou a surpreender. Num discurso bonito feito pelo seu pai, fiquei a saber que em criança, quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande, ela respondia: “Noiva.” Hoje, está numa lista das 35 empreendedoras brilhantes e determinadas que a Management Today destaca no Reino Unido.

Voltando a Ipanema. Andámos pela praia, comemos pastéis e passeámos pelas lojas. Fui com ela para o hotel, na Avenida Vieira Souto, de frente para o mar e onde fica a maioria das casas mais caras do Brasil. Dei por mim esparramada na cama a roubar-lhe chocolates e à conversa, enquanto ela fazia a mala. Falámos de coisas banais, stressámos à procura do pato e, por momentos, parecia que estávamos em mais uma viagem de turma. Caí em mim quando me virei para a janela com uma vista que explica bem o preço da diária. Mudei de opinião outra vez, quando a observei de novo, a minha executivazita furacão, e pensei: “Há coisas que nunca mudam. E ainda bem que assim é.”

Como prometido, Genilson, que adiantou a festa com a família, apareceu ao início da noite para a ir levar ao aeroporto. E ela ainda o conseguiu convencer a, pelo caminho, deixar-me em casa.

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