Pastelaria

A Metalúrgica. Cinco gerações a fazer formas para bolos

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A globalização tirou-lhe o título de maior fábrica de formas do mundo, mas a qualidade tornou-a fornecedor de referência da indústria de panificação

A história de sucesso d’A Metalúrgica atravessa três séculos e cinco gerações familiares. Três das quais continuam, hoje, a comparecer diariamente naquela que chegou a ser a maior fábrica do mundo de formas para bolos e que ainda é a referência mundial para a indústria de pastelaria e panificação. Panrico, Bimbo, Panike e Dan Cake são algumas das marcas mais famosas cujo pão e bolachas são produzidas com as formas da empresa portuguesa. Hoje dá emprego a 100 pessoas, tendo faturado, em 2015, quatro milhões de euros. Os mercados externos valem 95%.

Foi em 1896 que Joaquim Moreira Pinto fundou A Metalúrgica. Revolucionário assumido, esteve a operar sem alvará até abril de 1911, por causa das suas atividades contra o regime. Só seis meses após a implantação da República, o tão ansiado comprovativo foi passado. Uma relíquia exposta com carinho nas instalações da fábrica, em Valongo.

A empresa, que começou por se dedicar ao fabrico artesanal de regadores, lamparinas de iluminação, almotolias e pequenas formas para bolos em folha de flandres, marcou o início da indústria de formas para bolos em Portugal. E foi, precisamente, perante a iminência da venda d’A Metalúrgica a alguém que pretendia acabar com o negócio das formas, que Agostinho Santos, marido da bisneta do fundador, comprou a empresa, em 1977.

A Metalúrgica. Fotografia: Rui Oliveira / Global Imagens

A Metalúrgica. Fotografia: Rui Oliveira / Global Imagens

Na altura, eram cinco trabalhadores num espaço de 200 metros quadrados, no centro do Porto, com duas máquinas apenas. Hoje, A Metalúrgica tem mais de 200 máquinas a operar, grande parte delas robotizadas, e está instalada numa moderna unidade industrial, que construiu de raiz, com 6000 m2 de área coberta e 25 mil de área descoberta. Um espaço à medida da ambição de crescimento da família.

“Comprei-a ao avô da minha mulher porque tive pena que se perdesse esse património familiar. Depois, foi preciso fazer tudo, sem dinheiro, a partir do zero”, explica Agostinho Santos. Como? “Com muita capacidade criativa e reinvestindo sempre os lucros que a empresa tinha”.

O sogro foi o seu parceiro no negócio até à chegada da geração mais nova. As filhas Raquel e Ana Santos vieram ajudar a levar a empresa mais longe ainda. Raquel tem a seu cargo o contacto mais direto com os clientes; Ana está mais ligada ao controlo de produção e de qualidade.

A capacidade de reação, garante o empresário, é a grande “mais valia” d’A Metalúrgica. Que não só teve de formar os trabalhadores, como desenvolver e produzir grande parte das máquinas, já que não encontrava no mercado a resposta às suas necessidades.

A antecipação das consequências da globalização permitiram a aposta no segmento industrial, que fez disparar o crescimento da empresa. “Comecei a aperceber-me que as formas domésticas eram muito fáceis de copiar e pensei entrar no ramo industrial. São fábricas com quilómetros de linhas de produção. E tive a sorte de a Bauli, o maior grupo italiano neste segmento, ter visto o nosso catálogo e nos ter pedido para aplicarmos as nossas formas individuais à dimensão industrial. Entrar na indústria italiana, famosa pela qualidade da sua pastelaria e pela sua exigência, abriu-nos portas a outros mercados”, explica.

Hoje, o segmento industrial vale 70% da faturação d’A Metalúrgica, mas a tendência é para continuar a crescer. Schneider e Städter, na Alemanha, Bauli, Barilla e Dal Cole em Itália, Pasquier em França ou Mercadona em Espanha são apenas alguns exemplos dos grandes grupos que se abastecem em Portugal. Só a Mercadona produz 80 milhões de pães por dia. São 15 linhas de produção com 40 mil placas de baguettes a trabalhar continuamente.

A internacionalização está, desde sempre, no ADN da empresa. Já o filho do fundador tinha um cliente em Boston, nos EUA. Aliás, este chegou a ser o principal mercado externo d’A Metalúrgica, antes da escalada do euro que retirou competitividade às exportações. Mas foi com a chegada de Agostinho Santos que as vendas para o estrangeiro não mais pararam de crescer. “A primeira coisa que fiz, quando cheguei à empresa, foi pôr um telex. Coisa que só os bancos e as seguradoras tinham, na altura, mas que era fundamental para uma relação próxima e imediata com os clientes estrangeiros”, recorda. O primeiro computador que comprou, um IBM, custou então 1500 contos (hoje 7500 euros). A presença em feiras internacionais, designadamente em Frankfurt, na Alemanha, ajudaram ao “crescimento brutal” dos mercados externos.

Mas a inovação foi também fundamental neste percurso, designadamente na procura de melhorar a eficiência dos artigos. A mais recente consistiu no desenvolvimento de um sistema de fecho automático das placas para a indústria que permite gerar um pão de forma “perfeitamente quadrado”. Qual é a vantagem? “Permite uma cozedura uniforme, com menor gasto de matérias-primas e energético, e reduz o desperdício nas aparas do pão de forma sem côdea”, explica Raquel Santos.

E qual é o segredo do sucesso de uma empresa que atravessou três séculos? “A longevidade está nos pequenos pormenores. Na amizade, na seriedade constante, na capacidade de fazer bem e ser criativo, na lealdade absoluta aos clientes e em saber ganhar pouco e dar ‘berço’ à descendência”, garante Agostinho Santos, sublinhando que o fator berço é fundamental porque, senão, “à terceira geração as empresas morrem”. Sempre se preocupou em ensinar às suas filhas que o dinheiro da empresa “é sagrado” e que “só se leva para casa o que é nosso”.

Não esconde o orgulho por as filhas, no final do ano, terem abdicado da sua parte dos lucros para permitir uma maior distribuição nos 70 mil euros que foram entregues aos funcionários. E lamenta o clima de tensão contra os patrões. “Os empresários não são diferentes dos trabalhadores, nem menos sérios que eles. Há gente maravilhosa nas empresas e que, muitas vezes, não levaram dinheiro para casa para pagar os ordenados aos funcionários. Há quem não ligue nenhuma? Claro que há, mas não merecemos que se meta tudo no mesmo saco”.

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