Mudar de Vida

Estamos sempre a tempo de mudar. Em todos os setores é possível recomeçar

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Não é só o desemprego que leva a mudanças de vida. Há quem mude depois de 20 anos em carreiras de sucesso, preenchidas, compensadoras. Eles mudaram.

São a prova de que mais do que a vida nos dar a volta, o melhor é dar a volta à vida. Mudaram depois de muitos anos em carreiras preenchidas. Em alguns casos o desemprego bateu-lhes à porta, mas não baixaram os braços. São cinco histórias que seguiram o lema do cantor António Variações: na vida não se deve viver contrafeito e estamos sempre a tempo de mudar.

Das telecom à cerveja
Trocou os smartphones e campanhas de publicidade por cerveja artesanal e não se arrepende. Depois de 16 anos na Vodafone Portugal, António Carriço decidiu mudar de vida. A multinacional estava a dar incentivos para a saída de quadros e Carriço, na época diretor de comunicação e marketing, aproveitou. “Quis sair enquanto ainda estava bem.” Tinha 62 anos. “Quando saí há três anos pensei que não queria continuar a trabalhar em telecomunicações, queria mudar de vida”, conta. “A ideia de reforma, no sentido de não fazer nada, nunca me passou pela cabeça. O que me atraía era mudar de vida e ter um projeto próprio.” Queria ser mais do que uma peça numa engrenagem. E assim foi. Aos 65 anos é um feliz produtor e mestre cervejeiro de cerveja artesanal: a Lince. Começou na garagem lá de casa com “um equipamento muito básico”, até que, há cerca de um ano, juntamente com o seu atual sócio, Pedro Vieira (outro ex-Vodafone), decidiu “abrir um negócio”.

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Marvila foi o bairro escolhido para instalar a fábrica com cerca de 200 m2 e capacidade para produzir 4 a 5 mil litros/mês. E já estão a vender, sobretudo na zona de Lisboa, para restaurantes, bares e lojas gourmet a sua Lince estilo belga. Avançaram “só com capital próprio: cerca de meio milhão”, que esperam recuperar em 2,5 anos. “É um negócio interessante. O mercado da cerveja está a crescer um pouco por todo o mundo. Não fazia sentido estarmos limitados a dois grandes cervejeiros em Portugal”, comenta António Carriço. “Já existe produção de cervejas artesanais muito boas e ainda vai haver mais”, acrescenta.

O número de produtores de cerveja artesanal não tem parado de crescer nos últimos anos. Só em Marvila há mais duas cervejeiras instaladas: a Dois Corvos e a Musa. E há planos de transformar o bairro histórico num beer district, prova do interesse que este tipo de produto está a ter junto do consumidor, com bares especializados a surgir um pouco por todo o país.

Os anos à frente da comunicação da multinacional ajudaram António Carriço na altura de pensar e criar a marca, Lince, mas para ser mestre cervejeiro andou “num pequeno curso”. “Tivemos muito apoio de todos os outros cervejeiros artesanais, inclusive do produtor da Letra (de Braga) que ajudou a afinar a receita da Lince.” Depois de anos numa multinacional, gosta de estar envolvido em todas as decisões e fases do processo. “Eu e o meu sócio fazemos de tudo, até varrer o chão.” Mas compensa. “É muito gratificante entrar num restaurante e ver as pessoas a beber a minha cerveja.”

Da panela de pressão ao gin
Foi também uma bebida que mudou a vida do alentejano António Cuco: o gin. E foi com uma velha panela de pressão transformada em alambique que começou, em 2014, um negócio que dois anos depois gerou 900 mil euros de receitas antes de impostos (EBITDA): a Sharish Gin.

A mudança de vida não podia ter sido mais radical. Há quatro anos, o antigo professor de Turismo ficou desempregado e os amigos sugeriram vender no restaurante dos pais em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, um gin da casa. “Peguei em todas as minhas poupanças e nos 8800 euros a que tinha direito de subsídio de desemprego [que recebeu numa única tranche através de um mecanismo de criação do próprio emprego do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP)] e investi” na produção das primeiras garrafas do Sharish Gin.

“Imagine, com 34 anos, casado, dois filhos, desempregado e fazer essa jogada de póquer.” Saíram-lhe quatro ases: em três meses atingiu o breakeven; no primeiro ano vendeu 21 mil garrafas, “três vezes mais do que o previsto”. E tem sido sempre a crescer: vendeu o ano passado 65 mil garrafas, está presente em 14 mercados, com 35% das vendas no mercado externo. “Comecei com a panela de pressão, desde então tem sido um crescimento sustentado, o risco sempre muito calculado, o maior foi mesmo o investimento inicial.”

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Apanhou um mercado em crescimento, com os bares de gin a impulsionar o consumo. Em agosto do ano passado, o estudo TGI da Marktest apontava que mais de um milhão de portugueses tinha consumido gin. Ou seja, 12,3% dos residentes no continente com 18 e mais anos. Classes alta e média alta (22,7%) e média (16,2%) a liderar o consumo.

Prepara-se para dar um novo salto: candidatou-se ao programa Portugal 20/20 e conseguiu um investimento a rondar os 800 mil euros para aumentar a capacidade de produção, engarrafamento e armazenamento da destilaria. Mil metros quadrados de nova construção na Quinta do Moureal, dos quais 250 m2 para um centro de interpretação do gin que deverá abrir portas em setembro. A capacidade de produção da destilaria vai passar das atuais 120 a 130 mil garrafas ano para um milhão. Produz e engarrafa vodca e whiskey, mas também gin de terceiros. “Vamos produzir para uma outra marca, em França e Brasil, e estamos a negociar produzir para outra, em Espanha.”

São ervas aromáticas, senhor
O nascimento da sua primeira filha fez Bruno Vargas pensar duas vezes na vida profissional. Aos 34 anos estava em Angola, a trabalhar em marketing na área dos vinhos, tinha passado também pelo marketing do Sporting, mas a chegada da filha, em 2012, “foi o momento de rutura”. “Pensei que estava a perder coisas que nunca mais iria recuperar na vida.” Hoje, tem quatro hectares de terreno, o equivalente a oito estádios de futebol, no sopé das serras de Aire e Candeeiros, perto de Rio Maior.

Candidatou-se ao ProDer que financiou em 2014 em 50% o projeto de 112 mil euros. Produz desde então, e pelo método biológico, ervas aromáticas como hortelã, lúcia-lima, cidreira ou tomilho. Exporta anualmente, através de uma associação de produtores no Alentejo, cerca de 15 toneladas para Alemanha, França e países nórdicos. No verão passado avançou com uma marca própria, a Herbas, para venda direta em lojas gourmet e online, de ervas para infusão e tempero.

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O investimento inicial deverá atingir o breakeven em breve. “Estamos a entrar numa nova fase de investimento: queremos aumentar a produção em mais 3,5 hectares”, estando a preparar uma candidatura ao Programa de Desenvolvimento Rural (PDR). Bruno Vargas afasta a ideia lírica de um regresso ao campo que a tantos encanta, afinal, quando falha a produção ou a bomba de água deixa de funcionar, há “momentos de desespero”, mas admite que, apesar de ter de se levantar de madrugada, “quando chego ao campo e respiro, sinto que estou a carregar as baterias”. As filhas (entretanto nasceu outra menina) adoram ir para o terreno com o pai.

Das estradas para as casas
A reestruturação da empresa de construção de obras públicas no final de 2012 foi o rastilho para a mudança de vida de Teresa Fonseca. Para trás ficaram 21 anos no mesmo setor, na mesma empresa, a MonteAdriano. Tinha 49 anos. O país vivia uma crise que arrastou o setor das obras públicas. A Federação Portuguesa da Indústria da Construção e Obras Públicas falava num aumento de 60% do número de falências no setor.

Com sede na Póvoa do Varzim, a MonteAdriano (comprada em 2012 pelo fundo Vallis) tinha operação no mercado externo, que representava mais de 50% do volume de negócios, e a Teresa Fonseca foi-lhe dada a opção de ir para o exterior. “Se fosse sozinha tinha abraçado o desafio, mas com dois filhos pequenos não aceitei”, justifica. Era hora de começar de novo. E não baixou os braços. Numa feira de franchising contactou com uma consultora na área financeira. Tirou um curso na área de seguros e quando a companhia entrou na área imobiliária experimentou o setor. “Como a empresa tinha pouco know-how nessa área sentia--me um pouco limitada e comecei a ficar desiludida.” Em 2016 mudou-se para a Keller Williams Business. “Tive muita formação e neste momento estou muito bem. Gosto muito do que faço e não trocava esta área por outra”, assegura. “Descobri uma área bonita, em que o fundamental é o relacionamento com os clientes.”

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Nunca se sentiu derrotada. “Achei sempre que conseguia fazer qualquer coisa. Não me deitou abaixo”, garante. Da área imobiliária agrada-lhe poder trabalhar a partir de qualquer lado, ajudar os clientes a comprar a sua casa de sonho. “Tive um cliente que disse que só comprava casa comigo e isso é bom de ouvir”, conta. “Financeiramente, neste momento, ainda não atingi o que tinha antes, mas sei como lá chegar, é uma questão de mais uns meses”, diz confiante. E o setor dá sinais de animação. “Em 2016 sentimos o mercado a mexer”, diz. A APEMIP – Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal aponta para um crescimento de o ano passado na ordem dos dois dígitos e para este ano calcula que as vendas de casas deverá subir cerca de 30%. E os preços também. Nos próximos cinco anos a expectativa no mercado é que haja uma valorização anual dos preços na ordem dos 4%.

Gestão no alojamento local
Cansou-se do lado burocrático da gestão. Aos 41 anos, António José Nobre disse adeus a um cargo de CEO da Lemon, a produtora que trouxe o Noddy para Portugal ou, entre outros, organizou o festival do Panda. “Em 2013 saí e comecei do zero”, recorda. Para trás ficaram muitos quilómetros de estrada a conduzir a carrinha dos Polo Norte, o management da banda e a gestão da antiga União de Lisboa que assegurava o management dos Madredeus ou Santos & Pecadores. Depois de 20 anos na produção de espetáculos. Cansou-se. E saiu da Lemon onde era sócio. “Foi muito difícil, mas com a ajuda da minha mulher comecei do zero.”

A centelha para a nova vida surgiu depois de ouvir uma palestra no CCB, em Lisboa, sobre a explosão do turismo e um fenómeno que começava a ganhar expressão: o alojamento local (AL). Fez-se clique. Pegou no PPR, “as poupanças de 20 anos”, e com mais um investimento comprou um andar com 45 m2 na zona do Castelo, Lisboa. “Há uns anos era tudo mais barato. Comprava-se apartamentos por 100 mil euros”, conta. E não mais parou. Recebe clientes de todo o mundo, com check in personalizado. No início fazia de tudo: recebia clientes, assegurava a limpeza do apartamento. Hoje tem colaboradores que o ajudam. O negócio cresceu em 2015: passou a fazer a gestão de alojamento local de um apartamento, que lhe chegou porque ao proprietário agradaram-lhe os comentários positivos deixados por clientes. E em 2017 esse mesmo proprietário, que tinha investido na compra de um prédio, entregou-lhe mais quatro apartamentos.

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Atualmente, gere seis apartamentos, todos nos bairros históricos de Lisboa. “O meu conceito é que os turistas têm de viver com os locais. Não há automatismos. São recebidos por locais que lhes dão as dicas sobre o melhor restaurante ou mercearia do bairro”, defende. São também os bairros históricos que têm atraído mais negócios: dos 36 431 alojamentos locais registados em todo o país, 6852 são do concelho de Lisboa. Alfama e Mouraria são as zonas com maior concentração. “O AL tem trazido muita gente a Lisboa. A cidade está melhor, mais bonita”, diz e com mais postos de trabalho. E trouxe uma nova animação a bairros, visível em pequenas coisas. “O meu vizinho, de 80 anos, já diz bom-dia em inglês e conta-me isso com grande satisfação”, conta.

(notícia corrigida dia 23 de janeiro com volume de investimento realizado por António Carriço e sócio na cerveja artesanal Lince: de 1 milhão para meio milhão)

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