Hub Criativo do Beato abre portas no final deste ano

Concluídas as obras de infraestruturas, a incubadora Factory e o espaço alimentar Praça serão os primeiros locais a entrar em atividade. Entre os 18 edifícios, há ainda três sem dono.

O portão pintado a verde não esconde a transformação que o antigo espaço da manutenção e de armazenamento de cereais está a sofrer. Estamos no Beato, na zona oriental de Lisboa. No local que antigamente servia os militares movem-se agora dezenas de trabalhadores com capacete, atarefados com a reabilitação dos edifícios num espaço com 35 mil metros quadrados onde criatividade, tecnologia e criação de empregos vão andar de mãos dadas.

Cinco anos depois da primeira apresentação, o Hub Criativo do Beato (HCB) vai finalmente abrir portas no final deste ano.

É pela entrada da travessa do Grilo que o espaço vai começar a funcionar, com a ocupação de quatro dos 18 edifícios. A incubadora de empresas tecnológicas Factory vai acolher as primeiras startups e empresas ligadas à tecnologia e indústrias criativas - como o centro tecnológico da Mercedes em Portugal; o espaço alimentar Praça receberá os primeiros visitantes da montra de sabores nacionais biológicos de produtores locais de todo o país.

Dentro do HCB, já foi posto alcatrão e foram montados os bebedouros, postes para estacionar as bicicletas e ainda alguns ecopontos. "Também foram refeitas as redes de água e de esgotos e ainda tratada toda a parte elétrica", acrescenta Miguel Fontes, diretor executivo da Startup Lisboa e guia da visita do Dinheiro Vivo. Ficam ainda a faltar as máquinas para compactar o lixo.

O complexo será inimigo dos carros e vai privilegiar quem se desloca a pé ou de transportes públicos, com acesso aos autocarros da Carris que atravessam a avenida Infante D. Henrique e a rua do Grilo. Haverá ainda docas para o sistema de bicicletas partilhadas da cidade, Gira.

Depois de passarmos pela futura esplanada da Praça, chegamos à The Browers Company. Em maio de 2018, foi apresentado o projeto para a microcervejeira que ali surge, com investimento de três milhões de euros, liderado pelo grupo Super Bock.

As obras de transformação da antiga central elétrica até tinham começado: por dentro, tudo tinha sido demolido mas a pandemia parou as obras e o entulho já não foi removido. Os trabalhos serão retomados no próximo mês e espera-se que as primeiras bebidas ali sejam servidas daqui a um ano.

No HCB também haverá moradores. Com 4400 metros quadrados, o projeto de residências partilhadas (coliving) irá contar com "130 alojamentos, que poderão ser micro-apartamentos ou apartamentos". As obras no antigo Convento das Grilas deverão arrancar ainda neste ano, depois da apresentação do promotor, embora não haja previsão para o final da intervenção.

A Câmara Municipal de Lisboa já investiu 18 milhões de euros no complexo. Além dos mais de 4,2 milhões de euros nas obras de infraestruturas, o município acabou por gastar 12,3 milhões de euros na compra do espaço ao Estado, podendo utilizá-lo por um período de 40 anos - o projeto original previa uma cedência dos terrenos por 50 anos.

A folha de despesas do HCB inclui ainda mais de 700 mil euros para o transporte e depósito de solos contaminados, e 800 mil euros para as obras no edifício que será ocupado pela Startup Lisboa, adiantou em maio o Observador.

As obras no interior dos edifícios ficam a cargo das empresas promotoras cuja despesa servirá para abater no preço das rendas ao longo dos anos seguintes.

Prazos derraparam

Em junho de 2016, na primeira apresentação do HCB, estava previsto que o projeto ficasse concluído no espaço de três anos. Em 2017, a Factory disse mesmo que o seu primeiro edifício ficaria pronto no final de 2018. O calendário, no entanto, foi derrapando, assume Miguel Fontes.

"Nunca me ouviram dizer que isto era para se fazer em dois dias. É um projeto exigente, ambicioso e que tem uma complexidade de montagem com impacto no tempo", defende-se. Ao contrário do que acontece no hub de empreendedorismo francês Station F, "que tem apenas um promotor", o HCB reúne "mais de uma dezena de entidades, cada uma com o seu contrato".

Mesmo antes da pandemia, os trabalhos preparatórios revelaram várias surpresas: no edifício da Factory, por exemplo, foram necessários reforços estruturais, explica Simon Schaefer, fundador e CEO da Factory.

À procura de dono

A visita continua com a passagem pela antiga fábrica de moagem, que será gerida pela entidade gestora da cultura na capital (EGEAC). Será aberto um concurso de ideias para reunir todas as memórias do antigo espaço da manutenção militar. Nos silos de ensacagem, há duas manifestações de interesse para o local, com 2400 metros quadrados.

A Startup Lisboa vai ocupar a antiga fábrica de pão, num edifício com mais de 7000 metros quadrados. Daqui a dois anos, o local terá ocupantes como a unidade tb.lx do grupo Daimler, a área de inovação da Delta (Diverge) e várias startups em forte crescimento.

A antiga fábrica de fritos será o CoRepair. No espaço dedicado à economia circular será possível reparar equipamentos elétricos e eletrónicos e trabalhar no desenho de móveis usados e de outras madeiras. Como o primeiro concurso ficou deserto, só no final deste ano será lançada uma nova procura de candidatos, escreveu em fevereiro de 2020 o Público. Junto ao local será explorado o espaço de cultura Casa do Capitão, cujas obras vão arrancar no início do próximo ano.

Chegámos enfim ao outro lado do HCB. A rua da Manutenção passou a ter saída para a Infante D. Henrique e é um dos acessos para o complexo. Junto ao portão haverá um parque de estacionamento pago, a ser explorado pela EMEL. E quem escolher esta entrada poderá contar com a Claranet: a tecnológica irá abrir um centro de competências para serviços de cloud e de cibersegurança no antigo supermercado. As obras deverão arrancar a partir de setembro.

Dos 18 edifícios do HCB, contudo, ainda há três que não têm dono: os antigos armazéns de cereais estão atualmente sem projeto; os celeiros servem atualmente de estaleiro para apoiar as obras nas restantes instalações do hub. Na lista das recuperações, ficaram no fim da lista.

Quando estiver totalmente operacional, o Hub Criativo do Beato deverá dar emprego a 3000 pessoas. Mas ainda não há previsão para o dia da última pedra.

Dois milhões de euros em laboratório para reduzir emissões em Lisboa

Além de criar empregos, o Hub Criativo do Beato (HCB) vai servir para desenvolver novas tecnologias e serviços para reduzir as emissões em Lisboa. Serão investidos dois milhões de euros num "laboratório vivo", com um total de nove iniciativas.

O projeto será financiado pela EEAGrants, entidade que gere os fundos da Islândia, do Liechtenstein e da Noruega para reduzir as desigualdades.

Comecemos pelos projetos ligados à eletricidade. Será criada uma comunidade de energia renovável com base em solar, que vai reunir produtores-consumidores, consumidores e meios de armazenamento de eletricidade. O sistema de iluminação no interior do HCB irá contar com vários sensores, para reduzir o consumo de energia.

Horta urbana no telhado

Na cobertura do edifício da Factory haverá uma horta de agricultura urbana, com 2000 metros quadrados. Também nesta área será desenvolvido um sistema alimentar circular, que irá envolver os restaurantes do complexo.

O acesso ao HCB será feito com autocarros que serão abastecidos por óleos alimentares usados recolhidos no HCB e na comunidade local para produção de biodiesel.

Também está previsto um programa de aceleração para startups que irá promover e apoiar a criação de produtos e serviços inovadores dedicados às tecnologias limpas.

Além da plataforma de gestão inteligente, o HCB terá ainda uma infraestrutura de postes equipados com sensores de ocupação e ambientais, sistemas de som e de TV em circuito fechado e carregamento de veículos elétricos de mobilidade suave.

A infraestrutura será complementada por uma estação meteorológica de referência e sensores de radiação instalados nas coberturas de edifícios selecionados do complexo.

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