Investidores procuram startups em ano recorde

Fora dos palcos, capitais de risco mundiais estarão em Lisboa para conhecer novos projetos. Depois da contração da pandemia, nunca houve tanto investimento em novos negócios.

Enquanto centenas de oradores estiverem a falar nos palcos da Web Summit, investidores de todo o mundo estarão espalhados pelos quatro pavilhões da FIL para procurarem novas startups. Depois de um ano em modo remoto, a edição deste ano da cimeira tecnológica ganha ainda mais importância: o investimento em novos negócios está a bater recordes em Portugal e na Europa.

O Dinheiro Vivo falou com quatro investidores nacionais para explicarem o que acontece à margem dos palcos.

Até ao final de outubro, as startups registadas em Portugal receberam injeções de capital de 864 milhões de euros; o anterior máximo era de 489 milhões de euros, em 2018, estima a plataforma Dealroom.

Na Europa, no primeiro semestre, as startups receberam investimentos de 59 mil milhões de euros, mais 18,5 mil milhões do que no mesmo período de 2020, contabiliza a plataforma Crunchbase.

O que mudou?

Em março de 2020, a pandemia chegou em força ao mundo ocidental e as rondas de investimento em startups foram afetadas, recorda Lurdes Gramaxo, sócia da capital de risco ibérica Bynd.

"Num primeiro momento, o facto de todos termos sido apanhados desprevenidos e a contínua imprevisibilidade condicionaram a realização de novos investimentos e abrandaram o ritmo de investimento. Nesta altura, a prioridade foi dar apoio às startups do portefólio, aconselhando-as nas medidas a tomar para fazer face ao impacto negativo da pandemia".

Mais tarde, com a sociedade a conviver com a pandemia, "já as startups se tinham reinventado e colocado as suas soluções ao dispor dos vários setores, como alavanca para uma retoma da atividade e para a recuperação económica. A sua estrutura flexível e habituada a navegar em mares incertos ajudaram-nas a ultrapassar a primeira vaga e a seguirem mais fortes para a segunda", acrescenta a investidora.

No meio da turbulência, o mercado de investimento ficou com "volumes de liquidez elevados", o que correspondeu ao "aumento da procura e do investimento em empresas de vários segmentos, entre os quais se destacam as infraestruturas digitais, cibersegurança e tecnologias de acesso remoto, destaca Benjamin Júnior, da equipa de investimentos da Sonae IM.

Para José Guerreiro de Sousa, sócio da Armilar, a pandemia deu mais horizontes internacionais ao capital de risco: "hoje, 75% das oportunidades vêm de fora de Portugal, o que compara com os anteriores 60%".

O regresso ao vivo

Eventos como a Web Summit "vêm valorizar o investimento, dedicação e desenvolvimento deste setor", entende Lurdes Gramaxo. Mais do que de dia, "muitos dos contactos mais profícuos acontecem after hours [na Night Summit], em ambiente informal e relaxado".

José Guerreiro de Sousa, da Armilar, nota que o acontecimento "é mais uma forma de descobrir novas empresas" e permite "falar cara a cara com os fundadores das startups". Pedro Santos Vieira, da Shilling, corrobora e lembra que a cimeira "serve de montra do ecossistema nacional e internacional".

Benjamin Júnior deixa um alerta e recorda que "os negócios não são fechados" na Web Summit: "O maior volume de atividade de um investidor passa pela interação mais pessoal e direta com os promotores das empresas e com o ecossistema de investidores a nível global".

Forças e desafios

Na montra mundial, Portugal tem como pontos fortes " muito talento em áreas tecnológicas formado nas universidades, condições de clima e de segurança", além da "qualidade das infraestruturas tecnológicas", segundo Lurdes Gramaxo.

Pedro Santos Vieira destaca que o país tem garantido "o grau de exposição e interesse" suficientes para empreendedores estrangeiros mudarem-se para Portugal e cá "fundarem e escalarem os seus negócios".

As qualificações dos portugueses são elogiadas pelos investidores mas também podem ter o efeito reverso. "A escassez de profissionais na área gera pressão na captação de talento em benefício das empresas que nascem e crescem cá, versus a contratação por empresas internacionais", sinaliza Benjamin Júnior.

Outros dos desafios de Portugal estão ligados à "falta de previsibilidade do quadro legal, fiscal e regulatório". Para a investidora da Bynd, "alterar as regras do jogo com demasiada frequência" acaba por "afetar a credibilidade do país, em comparação com outros ecossistemas".

Mais taxativo, José Guerreiro de Sousa defende que é preciso "baixar o nível de impostos que direta ou indiretamente são pagos pelas startups, mesmo antes de terem proveitos".

A nível dos trabalhadores, o membro da Sonae IM sustenta que é necessária uma "evolução substancial" na área comercial; Pedro Santos Vieira apela a "mais projetos, mais diversos nos modelos de negócio e das equipas".

À procura

Durante a Web Summit, os investidores vão procurar "equipas fundadoras com visão, completas (do ponto de vista técnico e de gestão), com uma grande capacidade de execução e entrega e ainda de incorporação de tecnologia própria", antevê o sócio da Armilar.

"Se daqui a dez anos queremos estar presentes nas empresas que vão receber grande parte da atenção do mercado, é neste momento que temos de começar a apostar nelas. Todos os processos de digitalização e abstração de infraestrutura computacional (cloud native containers), edge computing (computação e armazanamento de dados próximos das fontes) ou serverless computing (computação sem servidor) são alguns exemplos de disrupção", antecipa Benjamin Júnior..

A caça aos próximos unicórnios está quase a começar.

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