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Investimento e educação: O que sabemos de startups vai mudar

Ilustração: Pedro Fernandes
Ilustração: Pedro Fernandes

As startups fizeram correr muita tinta. Mas estas empresas altamente tecnológicas ainda são uma realidade nova no país. Como vai ser a próxima década?

Há mais de cinco séculos que o empreendedorismo corre nas veias de Portugal. Se tudo começou com as caravelas que atravessaram o mundo, agora a viagem é outra. E a velocidade também. Numa era em que as tecnologias rapidamente deixam de estar na moda, antecipar a próxima década é um desafio de proporções colossais.

Ainda assim, desafiámos alguns dos maiores conhecedores do ecossistema nacional a prever os próximos anos. Cristina Fonseca, Rita Marques, Carlos Silva e Carlos Oliveira expõem a sua visão em temas como a educação, a captação de financiamento e o ambiente que as startups vão enfrentar até 2029.

Educação
“São necessárias grandes mudanças na formação em Portugal. O mundo académico e o mundo real ainda têm um gap [diferença] muito grande. A maior parte da investigação feita em Portugal não tem aplicação prática não gerando spin-offs”, salienta Cristina Fonseca, sócia do fundo de capital de risco Indico e antiga aluna do Instituto Superior Técnico, em Lisboa.

“As universidades vão ter de se adaptar a uma nova realidade, sobretudo na área da engenharia. As pessoas em Portugal são formadas para a área de serviços, para consultoria – áreas que vingaram cá -, mas que não se aplicam a uma startup. Isto obriga a repensar os skills [competências] que conseguiram na universidade. É preciso formar mais gente capaz de desenvolver e de trabalhar em produto”, acrescenta Carlos Silva, co-fundador da plataforma de investimento Seedrs e responsável pela área de inovação na Accenture em Portugal.

Leia mais: Startups. O tanque dos tubarões pode esperar?

Já Carlos Oliveira, conselheiro do Fundo Europeu de Investimento, não esconde que “o talento é um dos grandes desafios da atualidade e podemos ser vítimas do próprio sucesso, deixando de atrair investimento internacional”. “Portugal é dos últimos países com muito talento qualificado disponível. Agora, atingimos praticamente o pleno emprego em engenharia. Por isso, as startups têm de estar bem financiadas para poderem contratar; caso contrário, as pessoas saem da universidade e vão logo parar às grandes empresas. As startups já estão a ter mais dificuldade em contratar”.

Financiamento
O levantamento de capital é um desafio para qualquer empresa. Uma startup – empresa jovem e por vezes sem provas dadas no mercado – quando tem de convencer investidores a apostar em si, tem pela frente uma missão quase impossível. “A primeira grande alteração [que vamos ver nos próximo anos] vai ser ao nível dos investidores. A banca deverá ser substituída para entrarem personalidades com poder económico e empresas. E, claro, vai continuar a haver algumas sociedades de capital de risco com envolvimento do governo”, sustenta Rita Marques, CEO da Portugal Ventures, sociedade pública de capital de risco. Além disso, “os projetos vão ter cada vez mais qualidade. Temos muito empreendedorismo em Portugal, muita gente voluntarista, mas já se percebeu que isto não é um campeonato para todos”.

O passo chave nesta área é conseguir casos de sucesso que, além de serem um exemplo a seguir, possam colocar dinheiro em projetos. “Neste momento, precisamos de exits [venda de empresa a outra ou entrada em bolsa], porque é preciso ter retorno para os investidores e ter lá a faixa do unicórnio no final no dia não lhes compensa”, assume Carlos Silva. “Quando há um exit, há capital que entra, as pessoas da empresa vão usar parte do dinheiro para criar novas firmas e lançar um novo ciclo virtuoso para o país. Os unicórnios não são nada até haver um exit. Exits por fusão de companhias ou entrada em bolsa são sinal de um ecossistema muito mais vibrante”, acrescenta Carlos Oliveira.

Ecossistema
O mundo das startups nacionais terá começado no início desta década. É um ecossistema jovem, que muitas vezes enfrenta as dores de crescimento. “O ecossistema vai ter de se profissionalizar mais um pouco: as startups têm demasiada notoriedade antes de terem um produto e, às vezes, tração. Nos últimos anos, tivemos 12 empresas que fizeram rondas internacionais decentes, o que acontece a cada ano e meio. Isto deixa muito espaço para falarmos sobre outras, que não são necessariamente de boa qualidade”, alerta Cristina Fonseca.

A líder da capital de risco pública acredita ainda que, nos próximos anos, o apetite por parcerias quer de empreendedores quer de investidores vai crescer. “Antigamente, eram muitos os empreendedores que apareciam e diziam: o projeto é meu. Hoje, se virem um projeto que possa ser complementar, há quase um M&A (fusão&aquisição) numa fase preliminar. Os promotores começam a organizar-se, porque são inteligentes e percebem que se juntarem outras valências, de outras empresas, podem ter um projeto melhor. Os investidores também. Não investem sozinhos, estão sempre à procura de um parceiro investidor que possa complementar o risco, tentando gerir o risco. Estamos muito mais abertos ao mundo”, remata Rita Marques.

Carlos Oliveira, também ele empreendedor, nota que, para Portugal “é mais natural competir no mercado B2B do que no B2C, que é muito mais complexo”. “Áreas como inteligência artificial e desenvolvimento do carro do futuro” são segmentos em o país pode dar cartas.

“Na Comissão Europeia será possível apostar em projetos a mais longo prazo, sobretudo com ótica de mercado. Os próximos 10 anos em Portugal vão servir para apostar no scaleup de startups, desenvolvimento de ecossistema de financiamento para ter melhores ligações ao mundo e investir em mais startups que nasçam no país; não temos de ter problemas com as empresas que nascem em Portugal e que acabem por sair. A Web Summit é uma plataforma de contactos que temos de aproveitar”.

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