Jaime Abello Banfi: “O bom jornalismo precisa de novas fontes de financiamento”

ng3121528

A primeira vez que falaram do projeto da Fundação, Jaime Abello Banfi foi convidado pelo próprio Gabriel Garcia Marquez para almoçar. O escritor estava preocupado com o facto de os jornalistas mais novos não terem jornalistas mais velhos com tempo e vontade para lhes ensinarem a profissão. Estávamos em 1993.

Siga o Dinheiro Vivo no Facebook e conheça mais histórias de Fazedores.

Ao mesmo tempo que se reduzem as equipas nas redações, surgem novas formas de financiamento do jornalismo, sobretudo na América Latina: a crónica ganha lugar nos jornais e o jornalismo de investigação é muitas vezes pago por empresas particulares ou até fundações que se encarregam de assegurar os custos, como é o caso do grupo jornalístico chileno Copesa (que não intervém na produção da informação) assim como da Open Society Foundation (de George Soros) e da Fundação Ford, que financiam o centro de investigação jornalística do Chile (CIPER), grupo de investigação criado pela jornalista Mónica González.

“Vai continuar a haver jornalismo regular, de informação geral. Depois, vai haver gente que funcione segundo as regras do jornalismo bem feito, bem editado, com boas imagens. Em suma: informação de qualidade. O bom jornalismo precisa de novas fontes de financiamento.”

O caso do CIPER serve de exemplo a um centro de grandes reportagens de investigação pagas por empresas externas ao processo. “A resposta para o jornalismo atual são também, por exemplo, as parcerias entre universidades e jornalistas [sobretudo durante os processos eleitorais]. Estamos numa época de flexibilidade.”, explica Banfi, em conversa com os alunos do mestrado de jornalismo La Nación/Universidad Torcuato di Tella, em Buenos Aires.

“O jornalismo deve cada vez mais ser feito para conhecer melhor as sociedades. Viajar ao interior do próprio país, onde ha grandes desconhecimentos internos entre setores da sociedade”.

Neo-jornalismoDesde o primeiro encontro com Gabriel Garcia Márquez, muito mudou entretanto. Aliás, segundo Banfi, tudo está a mudar. “Assistimos a uma época de profundas mudanças no jornalismo, nas redações e nas empresas jornalísticas. Primeiro, o fator principal da mudança, um fator tecnológico. As condições de fazer jornalismo mudaram, assim como a relação com a audiência. E mudou também realmente o modelo de financiamento da actividade jornalística, sobretudo nos meios mais tradicionais como a imprensa.”, explica o diretor da Fundação para o Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI).

No entanto, a génese da Fundação Gabriel Garcia Márquez mantém-se: na formação dos jornalistas ou aspirantes a jornalistas nunca devem faltar os ateliês práticos, sempre ministrados por jornalistas no ativo. “As quebras de publicidade afetam a economia dos meios tradicionais que antes eram a garantia de estabilidade dos jornalistas. Daí, mudam-se os hábitos”, garante. Essa mudança é visível nos cortes do pessoal nas redacções – em jornalismo e fotojornalismo – e na maneira como se faz jornalismo atualmente. “A liberdade do jornalismo é algo que não é garantido só por estar consignado na Constituição. Há que trabalhar por essa liberdade todos os dias. Por isso mesmo tem de haver uma rede de segurança que suporte essa liberdade.”, explica, acrescentando: “Vivemos numa fase de mudança e de reorganização empresarial, do jornalismo como ofício e também de uma nova relação com a audiência, que faz uso permanente da sua grande vigilância social face ao trabalho do jornalista. Há uma capacidade de retificação permanente dos leitores para com os jornalistas e vice-versa.”

Jornalista enquanto marca“O maior ativo de um jornalista é o seu nome. É essa a marca que mais deve preservar.”, explica o co-fundador da Fundação Gabriel Garcia Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano.

Ainda que admita que cada vez menores redações exijam jornalistas cada vez mais dotados – a formação em vídeo e fotografia é sempre uma mais valia -, Abello Banfi diz que é a capacidade de adaptação de cada aspirante a jornalista que vai ditar a sua continuação ou não na profissão. “A versatilidade é ajuda, é uma resposta para se sobreviver no novo contexto mas a vocação é fundamental. É simples, não compliquemos: há que ter vontade de ser jornalista, de procurar a verdade e de contar as histórias da melhor maneira. Quem não tem vontade, o melhor é ir embora já.”, sublinhou.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje

Página inicial

BCP

BCP propõe distribuir 30 milhões em dividendos

Miguel Maya, CEO do Millennium Bcp.
(Leonardo Negrão / Global Imagens)

Lucro do BCP sobe mais de 60% para 300 milhões em 2018

Outros conteúdos GMG
Conteúdo TUI
Jaime Abello Banfi: “O bom jornalismo precisa de novas fontes de financiamento”