Joana Rego. “A informação está com as pessoas”

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Como é que o teu trabalho te levou a ser uma das 35 empreendedoras no Reino Unido?Atualmente trabalho para a GPW, uma consultora de inteligência económica. De uma maneira muito sucinta, trabalho na recolha e análise de informação, para que os meus clientes possam tomar decisões informadas sobre os seus negócios.

E como funciona esse processo?

Atuamos essencialmente em momentos: numa fase de pré-transação e numa de pós-transação de negócios. Na pré-transação, ajudamos os clientes que querem entrar num novo mercado ou sector e nos pedem informações sobre a situação geopolítica, económica, informação acerca dos canais de influência nos diferentes países ou sectores em que pretendem atuar e que possam afetar os seus investimentos. Quando um cliente encontra um potencial parceiro comercial, investigamos qualquer aspeto da reputação desse parceiro que possa ter um impacto negativo no investimento ou na reputação do cliente. Isto é especialmente válido em mercados emergentes, onde o acesso à informação é mais limitado. Este processo, a que se chama due diligence, é por vezes obrigatório. Por exemplo, aqui, em Inglaterra, temos o Bribery Act, a legislação antissuborno, que recomenda a realização de investigações ao historial das empresas, aos acionistas, diretores, parceiros e consultores, para que o investidor mitigue o risco de corrupção e se exima de responsabilidade criminal.

Depois disso vem o pós-transação…

Exato. Neste caso, trabalho com gabinetes de advogados ou departamentos jurídicos no apoio a todos os aspetos investigativos de disputas comerciais complexas, arbitragens, investigações de fraude, propriedade intelectual ou investigações regulatórias. Este trabalho abrange a identificação e recuperação de ativos – de indivíduos, empresas e Estados soberanos -, obtenção de provas ou identificação de testemunhas no âmbito de processos judiciais. Também fazemos investigações de fraude interna ou externa e forenses.

Jornalista de investigação, detetive privada, procuradora da Justiça e mulher de negócios. Cabe tudo?

Tal como se diz, “informação é poder”. Quando somos convidados a trabalhar num projeto temos de avaliar à partida o seu objetivo. Geralmente, o objetivo é claro: uma empresa quer investir noutra e necessita de se certificar de que aquela entidade é aquilo que diz ser. Ou, no caso de uma arbitragem ou de um processo litigioso, o cliente necessita de provas ou de identificar ativos que possam ser apreendidos. É importante analisar o objetivo de cada projeto, porque há aspetos políticos ou sensibilidades associadas que nos podem levar a recusar um projeto. Já recusámos projetos para indivíduos que achámos que não deveriam ser nossos clientes. Também já recusámos projetos de entidades de Estados, porque o propósito das missões não seria o mais indicado.

Como é o teu dia-a-dia?

Tenho de reunir toda a informação pública disponível. Consultamos registos comerciais, balanços submetidos ou os media. Gastamos cerca de um milhão de libras por ano em bases de dados que nos fornecem mais informação do que o que está disponível no Google. Também sabemos o que procurar e onde procurar, caso se trate de um projeto em Hong Kong, no Panamá, no Brasil ou no Cazaquistão. Neste processo identificamos pessoas que possam contribuir com mais informação para em seguida as contactar por telefone ou pessoalmente.

Mas como é a tua rotina?

Viajamos, passamos muito tempo em escritórios, esplanadas ou bares de hotéis em vários locais do mundo para conseguirmos falar com as pessoas indicadas e que nos vão ajudar a chegar às respostas que precisamos. Geralmente o que acontece é que, depois destes encontros, obtemos mais informações que nos permitem analisar dados públicos com outros olhos. Se nos dizem “fulano tem uma empresa registada nas ilhas Virgem”, com o nome da empresa, podemos avançar com as investigações. Resumindo, passamos muito tempo ao computador, somos muito experientes na recolha de informação pública, mas também passamos muito tempo em aviões, comboios, carros e até camelos para falar com fontes. Apesar do fascínio recente com o domínio público e a internet, a verdade é que a informação está com as pessoas. Existe muita informação no domínio público, mas há que saber procurá-la, analisá-la e usá-la. Daí que, na minha opinião, a diferenciação das empresas que trabalham neste sector passe pelo tratamento da informação, mas, acima de tudo, pelo capital humano.

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