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Kencko. A startup que usa tecnologia da NASA em frutas e vegetais

Ricardo Vice Santos e Tomás Froes, cofundadores da kencko
Ricardo Vice Santos e Tomás Froes, cofundadores da kencko

Criada pelos portugueses Tomás Froes e Ricardo Vice Santos, a empresa acaba de receber um investimento de 3,4 milhões de dólares

A última coisa que Tomás Froes queria ouvir no final de 2014 foi precisamente o que o médico lhe disse: antes de completar trinta anos, seria condenado a tomar omeprazol para o resto da vida. Quase uma década de problemas de estômago, refluxo e má digestão culminaram num diagnóstico de gastrite aguda que teria de ser tratada com farmacêuticos permanentes.

Froes, um empreendedor português que estava a viver na Ásia, não se conformou com a fatalidade do diagnóstico. A solução que arranjou para curar o seu problema crónico veio a tornar-se numa nova geração de produtos, que usam tecnologia da NASA e captaram a atenção de investidores de relevo. Mais precisamente da NextView Ventures, LocalGlobe, Kairos Ventures, Techstars, Max Ventures e alguns executivos da Danone, que hoje anunciaram um investimento de 3,4 milhões de dólares na startup sediada em Nova Iorque.

A história por detrás da kencko segue o formato típico do empreendedorismo puro: um problema pessoal, um espírito inovador, uma ideia genial e vários anos a afinar o produto. Foi assim que tudo aconteceu.

“Estava no início de 2015 a sair do meu último negócio e tinha mais tempo para mim”, conta Tomás Froes ao Dinheiro Vivo, explicando que procurou educar-se sobre formas de tratamento natural. “Comecei aos poucos a fazer mudança para uma dieta plant-based [baseada em produtos vegetais e não animais] e comecei a sentir mudanças imediatas”, lembra. “Nunca mais tive problemas de estômago, refluxo ou acidez.” A dieta, tendencialmente vegana, focava-se em frutas e vegetais. Froes conversou com nutricionistas e especialistas em produtos biológicos e automedicou-se com comida saudável. Em breve se deparou com um problema: “Quando queremos levar frutas para todo o lado, dentro da mochila ou no avião, não são fáceis de transportar.”

Foi assim que surgiu a ideia para a kencko, que começou a ser trabalhada no final de 2016. O conceito foi sendo testado nos Estados Unidos com uma missão central: ajudar as pessoas a consumirem as doses diárias recomendadas de frutas e vegetais através de saquetas em pó que podem ser dissolvidas em água, leite ou água de coco. Parece simples, mas a tecnologia por detrás deste produto é altamente sofisticada.

“É a tecnologia que a NASA usa para enviar comida para o espaço”, revela Tomás Froes. “Tem-se acesso a frutas e vegetais da forma mais fresca que existe, seja para viajar, seja para levar para o ginásio ou escritório, ou ter em casa sem precisar de cortar fruta e arranjar”, resume. “Não precisa de aparelhos. É acessível em termos de preço e garante-se que chega de forma económica a casa porque não é preciso transportar grandes pesos. Em termos de experiência para o consumidor é bastante mais vantajoso”, garante.

A diferença em relação a outros produtos que prometem a mesma coisa – ajudar a consumir as doses recomendadas de frutas e vegetais – é que a kencko usa uma combinação inovadora de congelamento mais desidratação. “Quando nós congelamos os ingredientes e depois desidratamos os mesmos a uma temperatura controlada de 60º por um período de 13 horas, a única coisa que vai desaparecer é a água e nenhuma das propriedades inerentes às frutas e vegetais, à cor, sabor e cheiro.” Ou seja: os benefícios dos alimentos ficam intactos e não levam conservantes nem aditivos. As saquetas têm uma validade de oito meses e após abertas e dissolvidas em líquidos podem ser consumidas durante quinze dias.

No início, Froes nem sequer sabia se isto ia interessar a alguém. Andou meses a visitar fábricas e a testar formas de melhorar a longevidade dos produtos sem perda de propriedades nutricionais. Foi a curiosidade de amigos e familiares em provar o que estava a fazer que o fez aperceber-se de que o produto que estava a criar para si era útil para muito mais pessoas. E tinha a sua própria experiência pessoal como prova dos benefícios: não voltara a sofrer do estômago.

Em breve chamou a atenção de Ricardo Vice Santos, o experiente executivo que liderou a internacionalização do Spotify, e ambos foram para a frente com a abertura da empresa, sediada nos Estados Unidos mas com a base em Lisboa, onde se encontra a equipa de investigação e desenvolvimento. Baseados em Nova Iorque, os cofundadores levantaram agora a primeira ronda de investimento institucional, que será utilizada não só para expandir e diversificar as receitas como para garantir a sustentabilidade dos materiais utilizados – as saquetas com o produto passarão a ser compostáveis, minimizando o impacto no meio ambiente.

Com a produção feita na Europa, as frutas e vegetais vêm de todo o lado. Mirtilos do Canadá, banana da Costa Rica, ananás do Vietname. No futuro, a equipa gostaria de usar pêra rocha portuguesa e maçã de Alcobaça. O embalamento é feito na Alemanha e enviado para os Estados Unidos a partir de Portugal.

O foco, para já é, o mercado norte-americano, e está no horizonte o investimento no retalho, além da subscrição online. A proposta da kencko é um serviço de entrega periódica de caixas com 10, 30 ou 60 unidades. Cada saqueta equivale a 2 doses (mais ou menos 200gr) de frutas e vegetais e o preço vai dos 2,1 aos 3,29 dólares por unidade, conforme a quantidade da caixa. “Queremos ajudar as pessoas a criarem uma rotina diária”, resume Froes.

A expectativa da startup, que tem agora vinte empregados, é conquistar mercados insuspeitos – como Texas e Illinois – onde há menos oferta de opções saudáveis que nas duas costas nos Estados Unidos (Califórnia e Nova Iorque). E para quem está curioso em relação à origem do nome, kencko significa “saúde” em japonês. É uma vénia à cultura japonesa e ao cuidado que têm com o seu bem-estar.

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