Lição de Jobs: Tolere apenas os melhores

Steve Jobs
Steve Jobs

Jobs tinha fama de ser impaciente, petulante e duro com as pessoas
à sua volta. Mas a forma como tratava as pessoas, embora não sendo
louvável, resultava da sua paixão pela perfeição e desejo de
trabalhar só com os melhores. Era a sua maneira de impedir aquilo a
que chamava “a explosão de palhaços,” situação em que as
chefias são tão educadas com pessoas medíocres que estas se
confortáveis por perto.

“Não acho que trate mal as pessoas mas se
algo não está bem, digo-lhes na cara. É meu dever ser honesto”,
disse. Quando lhe perguntei se poderia ter tido os mesmos resultados
sendo mais simpático, ele respondeu “talvez”. “Mas não é assim que
sou”, disse. “Talvez haja uma maneira melhor – um clube de
cavalheiros onde todos usam gravata e falam brâmane com palavras de
veludo – mas eu não conheço essa maneira, pois faço parte da
classe média da Califórnia.”

Mas será que todo o seu comportamento tempestuoso e abusivo era
necessário? Provavelmente não. Havia outras formas de motivar a
sua equipa. “As contribuições de Steve podiam ter sido feitas sem
tantas histórias sobre como ele aterrorizava o pessoal,” disse
Wozniak, cofundador da Apple. “Gosto de ser mais paciente e não
ter tantos conflitos. Acho que uma empresa pode ser como uma boa
família.” Mas depois acrescentou algo que é inegavelmente
verdade: “Se o projeto Macintosh tivesse sido gerido à minha
maneira, provavelmente teria sido uma confusão.”

É importante reconhecer que a rudeza e brusquidão de Jobs eram
acompanhadas por uma capacidade de ser inspirador. Ele incutia nos
funcionários da Apple uma paixão permanente por criar produtos
inovadores e a crença de que podiam realizar o que parecia
impossível. E temos de o julgar pelos resultados. Jobs tinha uma
família unida e e a Apple também era assim: os seus protagonistas
tendiam a ficar por lá mais tempo e a serem mais leais do que os de
outras empresas, incluindo os que eram liderados por chefes mais
amáveis e gentis. CEO que estudem Jobs e decidam imitar a sua dureza
sem compreenderem a sua capacidade de gerar lealdade estão a cometer
um erro perigoso.

“Aprendi com os anos que, quando se tem pessoas realmente boas,
não temos de ser paternalistas com eles”, contou-me Jobs. “Ao
esperar que façam coisas fantásticas, consegue que o concretizem.
Pergunte a qualquer membro da equipa Mac. Dir-lhe-ão que o
sofrimento valeu a pena.” E a maioria deles fazem-no. “Houve
momentos em que ele gritou nas reuniões: “Idiota, nunca fazes nada
bem””, recorda Debi Coleman. “Mas eu considero-me a pessoa mais
sortuda do mundo por ter trabalhado com ele.”

Envolva-se cara a cara

Apesar de ser um cidadão do mundo digital, ou talvez porque
tivesse consciência do seu potencial para se isolar, Jobs era um
forte defensor das reuniões cara a cara. “Existe a tentação, nesta era do trabalho em rede, de pensar que se pode criar ideias por
e-mail e iChat”, disse-me. “Isso é de doidos. A criatividade
surge em reuniões espontâneas, a partir de discussões aleatórias.
Esbarra em alguém, pergunta-lhe o que está a fazer agora e
diz “Uau”, e rapidamente dá por si a engendrar todo o tipo de
ideias.”

Ele fez com que o edifício da Pixar tivesse um design adequado à
promoção de encontros e colaborações não planeados. “Se um
edifício não encorajar isso, perderemos imensa inovação e a magia
que é provocada pelo acaso”, explicou. “Por isso, projetámos o
edifício para fazer com que as pessoas saiam dos seus gabinetes e se
misturem no átrio central com outras que, de outra forma, poderiam
não ver.” As portas de entrada e escadas e corredores principais
dão para o átrio; o café e as caixas de correio encontram-se
aí; as salas de conferência têm janelas de onde se pode ver este
espaço; e o anfiteatro com 600 lugares e duas salas de projeção de
filmes mais pequenas estavam todos em cima dele. “A teoria de Steve
funcionou desde o primeiro dia,” recorda Lasseter. “Estava sempre
a encontrar pessoas que não via há meses. Nunca vi um edifício que
promovesse a colaboração e a criatividade tão bem como este.”

Jobs detestava apresentações formais, mas gostava de reuniões
livres cara a cara. Ele reunia a sua equipa executiva todas as
semanas para trocarem ideias sem uma agenda formal, e passava todas
as tardes de quarta-feira a fazer o mesmo com a sua equipa de
marketing e publicidade. As apresentações de powerpoint foram
proibidas. “Detesto a forma como as pessoas usam apresentações de
slides em vez de pensarem”, recordou Jobs. “As pessoas
enfrentavam um problema, criando uma apresentação. Eu queria que
elas se envolvessem, que pusessem as cartas na mesa, em vez de
mostrarem um monte de slides. As pessoas que sabem do que estão a
falar não precisam de PowerPoint.”

Saiba a perspetiva geral e os detalhes

A paixão de Jobs era aplicada tanto a grandes questões como a
minúsculas. Alguns CEO são visionários; outros são gestores que
sabem que Deus está nos detalhes. Jobs era os dois. O CEO da Time
Warner, Jeff Bewkes, diz que um dos traços salientes da personalidade
de Jobs era a sua capacidade e o desejo de vislumbrar uma estratégia
global ao mesmo tempo que se focava nos aspetos mais mínimos do
design. Por exemplo, em 2000 ele teve a grande visão de que o
computador pessoal devia tornar-se um “hub digital” para gerir
toda a música, vídeos, fotos e conteúdo dos utilizadores, e assim
colocar a Apple no negócio de dispositivos pessoais com o iPod e
depois o iPad. Em 2010, apresentou a estratégia sucessora – o “hub”
mudar-se-ia para nuvem – e a Apple começou a construir a
propriedade enorme de servidores para que o conteúdo de todos os
utilizadores pudesse ser enviado e depois perfeitamente sincronizado
com outros dispositivos pessoais. Mas mesmo quando estava a esboçar
estas grandes visões, ele continuava a preocupar-se com a forma e
cor dos parafusos que se colocam dentro do iMac.

Combine as Humanidades com as Ciências

“Em miúdo, sempre pensei em mim como uma pessoa de Humanidades, mas gostava de eletrónica”, contou-me Jobs no dia em
que decidiu cooperar na biografia. “Depois, li algures o que um dos
meus heróis, o Edwin Land, da Polaroid, disse sobre a importância
das pessoas que se conseguem posicionar no cruzamento das Humanidades
com as Ciências, e decidi que era o que eu queria fazer.” Era como
se estivesse a descrever o tema da sua vida, e quanto mais o
estudava, mas percebia que esta era, realmente, a essência da sua
história.

Ele ligou as Humanidades às Ciências, a Criatividade à Tecnologia, as Artes à Engenharia. Houve grandes tecnólogos
(Wozniak, Gates), e certamente melhores designers e artistas. Mas
mais ninguém na nossa era conseguiu unir melhor poesia e
processadores de uma forma que abalasse a inovação. E ele fê-lo
com um espírito intuitivo para estratégia empresarial. Em quase
todos os lançamentos de produtos na última década, Jobs terminou
com um slide que mostrava um sinal no cruzamento das Letras com a Rua
da Tecnologia.

A criatividade que pode ocorrer quando uma queda tanto para as Humanidades como para as Ciências existe numa personalidade forte
foi o que me interessou mais nas minhas biografias de Franklin e
Einstein, e acredito que será a chave para desenvolver economias
inovadoras neste século. Esta é a essência da imaginação
aplicada, e é por isso que tanto as Humanidades como as Ciências
são críticas para qualquer sociedade que queira estar na linha da
frente da criatividade no futuro.

Mesmo já em fase terminal, Jobs começou a planear “rebentar”
com mais indústrias. Ele teve a ideia de transformar manuais
escolares em criações artísticas que qualquer pessoa com um Mac
podia criar e personalizar – algo que a Apple anunciou em janeiro
de 2012. Também sonhava em produzir ferramentas mágicas para
fotografia digital e formas de tornar a televisão simples e pessoal.
Estas, sem dúvida, também aparecerão. E embora ele não vá estar
cá para as ver concretizadas, as suas regras para o sucesso
ajudaram-no a construir uma empresa que não só criará estes e
outros produtos disruptivos, como se posicionará no cruzamento da
criatividade com a tecnologia enquanto o ADN de Jobs persistir no seu
núcleo.

Mantenha-se ávido e louco

Steve Jobs foi um produto dos dois maiores movimentos sociais que
surgiram na área de São Francisco, na Califórnia, em finais dos
anos 60. O primeiro foi a contracultura dos hippies e ativistas
antiguerra, que ficou marcada por drogas psicadélicas, música rock
e antiautoritarismo. O segundo foi a cultura de alta tecnologia e
piratas informáticos de Silicon Valley, repleta de engenheiros,
cromos (viciados em tecnologia), especialistas em redes, malucos por
telefones, ciberpunks, aficionados e empresários de garagem.
Sobrejacente a ambos estavam vários caminhos para desenvolvimento
espiritual – zen e hinduísmo, meditação e ioga, terapia do grito
e privação sensorial, Esalen e est.

Uma mistura destas culturas foi encontrada em publicações como o
Whole Earth Catalog de Stewart Brand. Na primeira capa, estava a
famosa foto da Terra tirada do espaço, e a sua legenda era “acesso
a ferramentas”. A filosofia subjacente era a de que a tecnologia
podia ser nossa amiga. Jobs – que se tornou hippie, rebelde, alguém
numa busca espiritual, um maluco por telefones e aficionado por
eletrónica, tudo em um) – era fã.

Ele ficou especialmente
impressionado com o último fascículo, que saiu em 1971, quando
ainda estava no secundário. Levou-a com ele para a universidade e
depois para a comunidade na quinta de maçãs onde viveu depois de
desistir dos estudos. Recordou mais tarde: “Na contracapa do
fascículo final estava uma fotografia de uma estrada rural ao início
da manhã, do género daquelas em que podemos dar por nós a pedir
boleia se formos aventureiros. Por baixo encontravam-se as palavras:
“Mantenha-se ávido e louco”.”

Jobs manteve-se ávido e louco
durante toda a sua carreira, certificando-se que a parte de negócios
e engenharia da sua personalidade era sempre complementada por um lado hippie e inconformista dos seus dias de rebelde artista e
consumidor de ácidos à procura de iluminação. Em todos os aspetos
da sua vida – as mulheres com quem se relacionou , a forma como lidou
com o seu diagnóstico de cancro, a maneira como lidou com a sua
empresa – o seu comportamento refletiu as contradições,
confluência e eventual síntese de todas estas vertentes.

E mesmo quando a Apple se tornou o que é hoje , Jobs afirmou a sua vertente
rebelde e de contracultura nos seus anúncios, como se quisesse
proclamar que no íntimo ainda era um hacker e hippie. O famoso
anúncio “1984” mostrava uma mulher renegada a fugir da polícia
do pensamento, conseguindo atirar um martelo contra o ecrã de um Big
Brother Orwelliano.

Quando regressou à Apple, Jobs ajudou a
escrever o texto para os anúncios “Think Different”: “Viva os
malucos. Os desadaptados. Os rebeldes. Os arruaceiros. Os peixes fora
de água…” Se houvesse alguma dúvida de que, conscientemente ou
não, ele estava a descrever-se a si próprio, esta dissipou-se com
as últimas frases: “Embora alguns os vejam como malucos, nós
vemos génios. Porque as pessoas que são suficientemente malucas
para pensar que podem mudar o mundo são as que realmente o fazem.”

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