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Lyfetaste: A sua garrafeira pode exportar para todo o mundo

João Pedro Monte lançou a plataforma Lyfetaste. Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens
João Pedro Monte lançou a plataforma Lyfetaste. Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens

Wine with Spirit quer reinventar a distribuição: criou uma plataforma que permite às pessoas desenvolverem um negócio

João Pedro Montes começa com uma história. Um dono de um restaurante à procura de um rendimento extra vende as suas primeiras garrafas a clientes apaixonados por vinho português. Os clientes, turistas belgas, chegam à Bélgica e dão o vinho a provar a amigos.

Passam poucos dias antes de os estrangeiros perguntarem ao dono do restaurante algarvio como podem, também eles, vender os vinhos na Bélgica. O episódio serve de exemplo para o negócio lançado, no início do ano, pelo gestor, de 43 anos, fundador da Lyfetaste.

João Pedro passou pela consultoria de Gestão, na Andersen, e por empresas internacionais de energia, até se mudar para a Virgínia onde fez o MBA, e para Nova Iorque, para trabalhar na indústria farmacêutica. “Na Pfizer fui convidado a vir com outras pessoas para a Europa numa altura em que a indústria estava em grandes remodelações e fusões. A Pfizer, que cresce fundamentalmente por aquisição e não organicamente, fez várias aquisições e havia uma panóplia de produtos, terapêuticas e culturas empresariais para uniformizar”, recorda João Pedro.

No final desse processo, em 2003, ponderou pela primeira vez aventurar-se numa carreira “não tão corporate” e, em 2009, João Pedro decide vender a posição na empresa onde trabalhava e começar a pensar em criar um negócio seu. Nessa altura, criou um fundo de investimento de cerca de meio milhão de euros e ponderou apostas.

“Defini alguns critérios de investimento que estabeleciam o que eu queria fazer a seguir mas, sobretudo, balizavam para não ser apenas um sonho meio doido”, conta. A ideia começa a materializar-se pouco depois tempo depois, ao mesmo tempo que a vontade em investir na indústria.

Mais de 90% das pessoas, quando compram um vinho, não o fazem em função de uma tecnicidade, o que não quer dizer que as pessoas não saibam apreciar e distinguir a qualidade

“Queria perceber se era possível transformar um setor primário num setor de ponta. Tive várias ideias e os medos típicos de quem vai investir os seus recursos para começar alguma coisa mas decidi avançar”, recorda, em entrevista ao Dinheiro Vivo. Foi mais ou menos nessa altura que recebeu a chamada telefónica que mudou o rumo aos seus planos.

João Pedro foi contactado por amigos do MBA, que precisavam da sua ajuda para encontrar vinhos da velha Europa para um projeto na Ásia Central. “Só que, ao contrário do que eu pensava, eles não queriam vinhos de quintas, marcas tradicionais. A verdade é que eu percebi que havia uma oportunidade e nessa altura resolvi, antes de pôr em prática uma ideia que tinha, tentar validá-la de alguma forma.”

Encomendou um estudo de análise de tendências que agregou três conclusões fundamentais que serviram de base àquilo que viriam a ser as linhas mestras da empresa que fundou, a Wine with Spirit (WWS).

Mais de 90% das pessoas, quando compram um vinho, não o fazem em função de uma tecnicidade, o que não quer dizer que as pessoas não saibam apreciar e distinguir a qualidade; diferentes regiões do planeta têm diferentes necessidades quanto ao vinho, por isso se vamos para a Polónia ou a Ucrânia, a necessidade de líquido mais alcoólico e mais doce é importante, mas se vamos para a Ásia, a cor pode ser fundamental.

“Em Portugal temos a ideia de que o vinho tem de ser uma coisa muito barata. Não temos noção da construção de todo o processo.”

E a terceira, “provavelmente a mais importante”: 90% das pessoas que tinham o impulso de beber vinho faziam-no em função de um momento ou emoção. “Isto quer dizer que quando eu acordo não penso que quero beber um tinto envelhecido em carvalho francês com os taninos específicos. Quer dizer que penso no que bebo se vou jantar com uma miúda, se marquei encontro com amigos para ver a bola ou se quero comemorar uma data importante na minha vida.”

As conclusões levaram à criação da Wine with Spirit, uma empresa de produção e venda de vinho, que criou marcas como a Bastardo! “Não viemos inventar a roda, mas quisemos aproximar as pessoas do vinho em função do momento e de emoções e fazer a ligação entre esse impulso, o produto que se bebe e o momento de consumo”, um conceito que mistura o enotainement e o marketing comportamental.

Só que, com o tempo, a inovação bateu com o nariz na porta do conservadorismo. E, a juntar à produção e à venda, era preciso apostar na distribuição nos mercados onde os vinhos já estavam – Polónia, Brasil, Reino Unido, Japão, Estados Unidos, entre outros – e consolidar a marca em Portugal.

Foi há cerca de um ano que João Pedro decidiu desenvolver o conceito que seria uma espécie de fecho de ciclo do processo de produção: da prateleira à adega… e da adega à mesa. Com o negócio estabilizado e uma boa base acionista, a Wine with Spirit decidiu começar a desenvolver a Lyfetaste, o fim da cadeia de produção.

“Em Portugal temos a ideia de que o vinho tem de ser uma coisa muito barata, não temos a noção de construção de todo o processo. Nesse sentido, da mesma maneira que inovámos com uma nova maneira de produzir e de beber vinho, pensámos numa nova maneira de vender vinho”, conta.

A Lyfetaste surge assim, no final do ano passado, como uma plataforma inteligente que conduz determinados vinhos aos seus consumidores ideais. “Temos hoje sete níveis de like no Facebook e no Instagram, e conseguimos através disso perceber qual é o momento para comunicar determinado produto aquela pessoa e não a outra, naquele momento e não noutro”, explica.

Mas, para fechar o ciclo na distribuição e tornar mais independente o processo, era preciso um lado mais humano. Assim, a empresa decidiu cruzar o marketing comportamental e o e-commerce, “como se tivéssemos fundido a Amazon com a Amway ou a Redbull”, e criou uma plataforma que permite franchisar e entregar às pessoas um negócio que elas podem desenvolver.

“Amanhã posso ter uma loja online que funciona em toda a União Europeia sem ter de me preocupar com faturação, logística, comunicação e marketing. O nosso back office gere o negócio, permite aos empreendedores verem a sua rede e facilita formação contínua, que pode ir de novos produtos, a e-commerce e a campanha em redes sociais.

A plataforma, lançada em versão beta em 2016, já conta com mais de mil afiliados em Portugal e em mais oito países, entre os quais França, Inglaterra, Bélgica, Suíça e Noruega.

Com um investimento que pode variar entre os 75 e os 3500 euros, a ideia da Lyfetaste é permitir que qualquer pessoa possa ter uma opção de rendimento extra ou principal. Sim, é que a plataforma conta com empreendedores que chegam a faturar 40 mil euros por mês com a sua rede de lojas.

A percentagem recolhida depois pelos donos destas lojas Lyfetaste varia entre os 15% e os 45%, mediante o nível de investimento. E apenas 20% dos afiliados têm este como complemento ao trabalho a tempo inteiro.

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