Vitivinicultura

Madeira Vintners. Há um novo vinho que quer homenagear as mulheres

Produção e internacionalização do vinho da Madeira no feminino
Produção e internacionalização do vinho da Madeira no feminino

Na Cooperativa do Funchal o tema das quotas não se põe. A única marca de Vinho Madeira criada nos últimos 80 anos é liderada por mulheres

Mulheres no vinho há muitas. Mas um projeto de vinho exclusivamente no feminino, ainda por cima na Madeira, é caso único. A iniciativa é da Cooperativa Agrícola do Funchal e a marca Madeira Vintners é já um sucesso, com vários prémios internacionais. Oferece um vinho “jovem, de baixo teor alcoólico, mas muito fresco e equilibrado” e no qual “é possível sentir a subtileza do toque feminino”. Um produto que pretende ser uma homenagem às mulheres madeirenses, conquistando novos consumidores para um vinho generoso, tradicionalmente com grande teor alcoólico e que, por isso mesmo, não agrada a todos os palatos.

O projeto arrancou em 2012, mas os primeiros vinhos só chegaram ao mercado em 2016. A Madeira Vintners foi finalista dos Prémios Europeus de Promoção Empresarial (EEPA), uma iniciativa de Bruxelas que distingue as boas práticas empreendedoras, e recebeu já atenções da Euronews, que deslocou uma equipa de reportagem à Madeira para conhecer estes novos vinhos.

A Cooperativa Agrícola do Funchal existe desde 1951, tendo por base o comércio por grosso de produtos e serviços necessários ao desenvolvimento regional da agricultura. Em 2011, e com a cooperativa a sofrer os impactos das dificuldades deste setor, a direção da cooperativa quis criar uma nova área de negócio. “Achávamos que era possível ir mais além nesta relação com o setor primário e, dado que havia apoios comunitários disponíveis, no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural da Região Autónoma da Madeira, e por proposta do governo regional, decidimos avançar para a produção e comercialização de Vinho Madeira”, explicou Coito Pita, presidente da CAF, em declarações ao Dinheiro Vivo. O negócio deste vinho licoroso é dominado por sete empresas e este é o primeiro projeto novo que surge nos últimos 80 anos.

Porquê uma equipa exclusivamente feminina? “Foi um acaso. Os enólogos do Vinho Madeira e as equipas das outras casas são, maioritariamente, homens. Nós temos a Micaela Martins, a pessoa responsável desde o início pela parte organizativa dos vinhos, e temos a Cristina Nóbrega, que assegura a relação direta com os viticultores. E escolhemos a Lisandra Gonçalves, uma jovem enóloga madeirense, filha de um funcionário da casa que, na altura, estava na Nova Zelândia e que convidámos a vir trabalhar connosco neste projeto, apoiada pela Regina Pereira, a nossa enóloga consultora sénior, já com experiência no setor.”

O departamento financeiro está a cargo de Suzanne Pedro e a área comercial é assegurada por Gabriela Pestana. Jacinta Pedra trata do apoio jurídico. O que não significa que não haja homens envolvidos nos vinhos da Madeira Vintners. A começar pelos viticultores e alguns outros que asseguram o trabalho braçal mais complicado. “Há sempre algum apoio dos homens, mas as mulheres é que dirigem o projeto.”

A primeira vindima foi feita em 2012, ainda em instalações arrendadas. Entretanto já foi construída uma adega de raiz. O orçamento global de arranque da Madeira Vintners foi de dois milhões de euros, dos quais 1,4 milhões apoiados por fundos comunitários. “Há mais de 80 anos que não havia nenhum produtor novo no negócio do Vinho Madeira. Um negócio que não é fácil, mas no qual queremos fazer uma aposta diferente, com um vinho jovem e mais subtil, mais feminino”, diz Gabriela Pestana, a responsável comercial.

Os primeiros vinhos chegaram ao mercado em abril de 2016, para assinalar o 65º aniversário da CAF, mas haviam já sido distinguidos, no mês anterior, no Concurso Internacional Vino y Mujer 2016, em Madrid: o Madeira Vintners 2012 meio seco foi distinguido com o prémio Diamante e o meio doce uma Menção Honrosa, ambos na categoria de vinhos generosos. No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, foi lançado o primeiro vinho da marca com cinco anos de envelhecimento, nas versões doce, meio doce, seco e meio seco. Lisandra Gonçalves esteve esta semana nos EUA, num périplo pelos vários estados, a divulgar os vinhos, seguindo daí para a Prowein, a feira que arranca este domingo em Dusseldorf, na Alemanha.

A diferenciação é a grande aposta, com vinhos “jovens, com um grau alcoólico mais baixo do que o habitual – o Madeira pode chegar aos 22º graus, estes não vão além dos 17º -, e mais subtis”. Gabriela Pestana reconhece a intenção de chegar a um público mais jovem e mais feminino. “Não quer dizer que os homens não o possam beber, mas queremos ter um produto em que se sinta a subtileza da mulher.”
Estados Unidos, Canadá e União Europeia são as principais apostas da Madeira Vintners, a par da vontade de entrar em países asiáticos como o Japão ou a Coreia do Sul. A valorização do vinho é a principal preocupação. “Um bom vinho de mesa custa muito mais do que um Madeira que tem, pelo menos, três anos de estágio”, lamenta Coito Pita. Tudo passa, reconhece, por conseguir impor a marca. “Não é fácil, mas somos perseverantes. Isto é um trabalho que demora, mas as coisas estão a correr bem”, diz Gabriela Pestana.

Ainda este ano chegarão ao mercado duas novidades, dois monovarietais de castas nobres da região, um Malvasia de São Jorge e um Bual, ambos com cinco anos de envelhecimento. “Entre 2012 e 2016 comprámos mais de 940 kg de uvas e produzimos 821 mil litros de vinhos. Destes, 320 mil estão a envelhecer em barricas de carvalho”, explica a responsável comercial da Madeira Vintners. As vendas duplicaram entre 2016 e 2017, mas, sendo um projeto que está a nascer, a cooperativa não avança com objetivos. “Queremos estar nestes mercados, que mais valorizam o vinho, mas não temos, para já, metas. As coisas têm de ser feitas com calma.” Certo é que a notoriedade da nomeação para os prémios EEPA tem ajudado à promoção internacional da nova marca. “A Euronews visitou-nos em janeiro e a peça passou há dias. Tem-nos dado visibilidade internacional. Tem sido muito bom”, garante Gabriela Pestana.

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