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Miguel Santo Amaro. “Se criássemos uma startup nation seria fantástico”

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Cofundador da Uniplaces quer lançar a startup para a estratosfera do empreendedorismo, com mais uma mão-cheia de mercados e novas contratações.

No início de 2012, três recém-licenciados decidiram juntar-se em Lisboa para criar uma empresa digital de alojamento universitário. Desde então, já muito aconteceu ao português Miguel Santo Amaro, ao argentino Mariano Kostelec e ao inglês Ben Grech. A Uniplaces teve a maior ronda de investimento Série A numa startup portuguesa, com 22 milhões de euros angariados. Sediou-se na estação do Rossio, em Lisboa, numa inauguração que contou com a presença do primeiro-ministro António Costa. Explorou novos mercados. Fez mais de uma centena de contratações. Cresceu 400% em 2016 e os fundadores querem o mesmo para 2017. A Uniplaces pode estar prestes a tornar-se um colosso do empreendedorismo português. No mês em que completa cinco anos, o Dinheiro Vivo e a TSF entrevistaram o cofundador Miguel Santo Amaro.

Foi destacado pela Forbes Europa, junto com os outros dois cofundadores da Uniplaces, na lista 30 abaixo de 30. O que é que isto representa, para vocês e para a Uniplaces?

Mais do que um título individual, é um título coletivo, para toda a gente que já esteve na Uniplaces. É um prémio que acaba por distinguir cinco anos de trabalho. Como português, é um orgulho dizer que, a partir do nosso país se criou um negócio digital, com expressão a nível mundial, mas com uma equipa maioritariamente portuguesa. É um reconhecimento e um mérito para aqueles que trabalham todos os dias e não têm tanta exposição mediática como nós, os fundadores.

Esta não é a primeira distinção que a Uniplaces tem. Desde a sua fundação tem recebido vários prémios. Que startup é esta? Como é que isto tudo começou?

É um negócio digital. Começou há cinco anos, quando eu, o Mariano e o Ben, três estudantes universitários acabados de se graduar lá fora, decidimos vir para Portugal, primeiro para o Porto e depois para Lisboa, onde entrámos na Startup Lisboa.

Estamos a falar de que ano?

De 2012, de fevereiro de 2012. Eu, o Ben e o Mariano decidimos criar uma startup digital porque dois dos fundadores não eram portugueses e queriam que o projeto tivesse uma expressão mundial. E também estávamos numa altura de crise, e fazer um negócio só para Portugal não fazia sentido. A Uniplaces acaba por ser um sítio, um endereço eletrónico, onde qualquer estudante no mundo inteiro, português ou estrangeiro, pode procurar casa e, através de dois ou três cliques, reservar a sua próxima estada. A reserva é muito rápida e muito simples, sem o problema das visitas, sem saber quem é que está do outro lado. Nós fazemos essa intermediação, controlamos os pagamentos e os estudantes têm a certeza de que o apartamento foi verificado pela nossa equipa. Há também uma série de serviços que disponibilizamos aos senhorios, de forma a dar-lhes mais garantias. Hoje, o mercado dos estudantes tem mais de 200 milhões de pessoas a nível mundial. Se fosse um país, era um pouco maior do que o Brasil. E não existe uma outra marca que consiga transformar esta experiência, que é estudar fora ou noutra cidade, de uma forma simples, tranquila e segura.

Miguel Santo Amaro. Fotografia: Leonardo Negrão

Miguel Santo Amaro.
Fotografia: Leonardo Negrão

Interessante falarmos do mercado internacional de estudantes. Tendo em conta que a Uniplaces tem três fundadores, cada um da sua nacionalidade, porque é que veio sediar-se em Portugal?

Londres na altura era, e ainda hoje é, a meca do empreendedorismo europeu. Na altura equacionámos ir para lá, mas percebemos que era muito caro e que era mais vantajoso começar em Lisboa, mais barata, com melhor qualidade de vida e com muito talento tecnológico. Aqui há uma capacidade técnica muito boa a nível de engenharia, de design e de produto, que é muito importante para começar. É fácil contratar em algumas dessas áreas, em comparação com o mercado inglês ou o americano. E não se paga muito barato, o que é um bom sinal. Um estudante que saia de Engenharia Informática, da FEUP, do Técnico ou de outra universidade portuguesa tem muitas oportunidades. Isso também é um dos contributos das startups. Há um emprego qualificado que se consegue gerar. E estas pessoas depois saem das startups e vão arranjar bons trabalhos em multinacionais.

Quando fundaram a empresa, Lisboa estava a dar os primeiros passos no mundo do empreendedorismo. Hoje está quase a tornar-se cidade-bandeira. A Uniplaces contribuiu para isso?

Contribuiu muito pouco, para ser honesto. Não faz sentido dizer que a Uniplaces teve impacto. Há várias iniciativas que o tiveram, como a incubadora Startup Lisboa ou a aceleradora Beta-i ou os fundos que começaram a investir nas startups, que sem eles era difícil começar em Portugal. E depois, sim, as várias startups, como nós, que começam agora a ter resultados positivos. Eu não acredito que exista ainda um grande caso de sucesso ainda a partir de Portugal. Já temos a Farfetch, com uma escala muito significativa e um fundador CEO português, o José Neves, mas começou a partir de Londres. Eu eu acredito que se consiga, nos próximos anos, criar um grande colosso digital a partir de Portugal. Ainda não aconteceu, mas vai ter de acontecer. A Web Summit foi uma grande montra internacional para o país, muito mais do que para as startups. Portugal tem uma mensagem no mundo muito virada para o futebol ou para o turismo. São duas bandeiras nossas. Uma terceira poderá ser, sem dúvida, a tecnologia. Somos um país de dez milhões de pessoas, parece pequeno, mas Israel é uma potência mundial, a rivalizar com a China, e tem muito menos habitantes do que Portugal. Se criássemos uma startup nation, como Israel criou, seria fantástico. O PIB português ainda tem uma representação de tecnologia muito pequena, é menos de 2%, o que não faz sentido tendo em conta o potencial do que se faz em Portugal. Temos ótimas condições para criar algo grande a partir de Portugal.

Miguel Santo Amaro. Fotografia: Leonardo Negrão

Miguel Santo Amaro.
Fotografia: Leonardo Negrão

Não só a Web Summit, temos várias organizações a vir para cá, tal como a Entrepreneurs Organization, que abriu recentemente uma delegação em Portugal, da qual é presidente.

Sim, e isso é importante. Temos de assumir que ainda estamos num país pequeno, com pouca tradição tecnológica, e podemos beber do conhecimento destas redes, como a Entrepreneurs Organization, com mais de 12 mil membros, que foi fundada nos EUA em 1987. Permite uma maior exposição a cidades e países que já estão mais avançados a grandes empreendedores. Tivemos cá um primeiro evento em Portugal, onde reunimos mais de 150 presidentes da Entrepreneurs Organization no mundo. Estiveram presentes membros do governo português, e isso acaba por lhes mostrar que estes empreendedores digitais podem ter de impacto na economia.

Há uma certa mística à volta da figura do empreendedor. Como é que se faz este caminho? Como é que se cria uma empresa e se vai do zero a um milhão?

Eu acho que a Entrepreneurs Organization tem um papel importante porque desmistifica isto do que é um empreendedor. O empreendedorismo acaba por ser mais uma atitude. Não é uma categoria de empresas. Existem empreendedores com pequenas, médias ou grandes empresas. O Mark Zuckerberg autointitula-se de empreendedor e o Facebook, apesar dos vários mil milhões que vale, de startup tecnológica. Um empreendedor médio fatura quatro milhões de euros por ano, tem 42 anos e 236 colaboradores. Estamos a falar de uma dimensão de empresa, não de dez ou 15 pessoas numa garagem a trabalhar uma ideia. Em Portugal há muito a ideia de startups ligadas às universidades ou a pessoas que perderam o emprego. É preciso saber que uma startup tecnológica pode e deve ser criada por pessoas que sabem o que estão a fazer, com 15 ou 20 anos de experiência e que veem uma oportunidade que decidem atacar. É o empreendedorismo qualificado, e é isso que falta em Portugal. É o salto que falta dar. Precisamos de Cristianos Ronaldos das startups, que dominem os setores onde estão.

A Uniplaces já está nesse patamar. Em 2015 foram notícia porque angariam 22 milhões de euros. Em 2016 tiveram a inauguração da sede na estação do Rossio. Qual o grande marco de 2017?

Vai ser um ano para consolidar processos e dominar os mercados onde já estamos.

Em que mercados estão?

Portugal, Espanha, Itália e Alemanha. E temos também um escritório em Inglaterra. Importa consolidar a presença, crescer a receita, ser sustentável em todos os países e ter uma posição dominante. Neste momento estamos com boas bases para crescer para ainda mais cidades e mais países, e é isso que estamos a preparar: a abertura de quatro a cinco novos mercados. Em termos de contratação queremos também trazer mais pessoas. Em 2016 crescemos quase 400% e o plano é crescer mais 400% para 2017. Isso parte muito desta premissa nas startups, crescer a um ritmo muito acelerado. Acaba por ser esse o desafio que nos motiva a trabalhar na Uniplaces e acredito noutra startup qualquer.

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