Miss Can. Porque as conservas têm nome de mulher (ou de sereia)

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Na casa da família Soares Ribeiro não faltavam histórias da indústria conserveira. Com a família reunida para um petisco de conserva, o pai de Tiago e Bárbara recordava os tempos passados nas fábricas fundadas em 1911 pela família, em Setúbal e Olhão, encerradas nos anos 60.

Agora os dois irmãos têm novas histórias para contar à quarta geração Soares Ribeiro. Uma delas é como é que a Miss Can ganhou 25 mil euros no prémio nacional das indústrias criativas, promovido pela Super Bock e Serralves.

“Vem numa altura espetacular”, diz Tiago Ribeiro, um dos sócios de Miss Can, com a irmã Bárbara Cabral e Marta Fernandes, bisneta de João Rodrigues, armazenista e distribuidor da primeira fábrica de conservas portuguesa. Com este histórico familiar, não havia volta a dar e, das primeiras conversas à criação da Miss Can foi apenas um salto. O pregão “From Portugal with Love” já está a ser ouvido na Alemanha, Luxemburgo, Bélgica ou Holanda e em setembro, a Miss Can prepara-se para “abrir a sua casa”: uma petisqueira, perto do Castelo de São Jorge, em Lisboa.

Foi também nas raízes familiares que os sócios foram buscar inspiração para a sua marca de conservas. “Fomos à procura do método tradicional do nosso avô [Luís Ribeiro Soares], procurámos e encontrámos na Póvoa de Varzim, na Poveira. Onde fomos criar um pack para cada tempero”, conta Bárbara Cabral. Cada Miss Can tem um pack com três latas (sardinha, atum e cavala), mas também com bacalhau. Cada uma assume uma designação conforme o tempero. Há Miss Can para todos os gostos: a Hot (com azeite picante), a Brave (em molho de tomate) ou a Patriot (com várias receitas de bacalhau). A tradição também norteou a escolha do nome: uma Miss porque reza a tradição que as conservas têm nomes de mulher. Mas para Miss Can, filha de uma varina quase sereia e de um pescador e que vive em Alfama, os sócios queriam uma imagem especial. Para isso, viraram-se para um português do outro lado do Atlântico: o ilustrador André Da Loba, colaborador regular do New York Times.

O programa Lisboa Empreende, um microcrédito promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, assegurou um financiamento de 20 mil euros, permitindo dar o arranque ao negócio em junho de 2013. O primeiro ponto de venda foi no Castelo de São Jorge. “O Castelo recebia cerca de um milhão de pessoas por ano e achamos que era o sítio ideal para instalar o nosso primeiro ponto de venda”, justifica Tiago Ribeiro. Depois foi uma questão de obter a autorização da EGEAC para instalar uma Piagio APE 50 de 21 anos totalmente restaurada e transformada na venda ambulante da Miss Can.

Quem compra a Miss Can “leva tradição, cultura e as receitas da mãe Graça”. Ao todo, são 15 receitas, aprimoradas em muitas refeições de família, que podem ser encontradas na embalagem das 16 referências de produto. Receitas como a do bacalhau com grão-de-bico ou de atum com feijão-frade com o toque da mãe de Tiago e Bárbara. Mas com com os packs vai também curiosidades sobre a indústria conserveira e também sobre Portugal. Sabia que Portugal tem 250 dias de sol por ano? E que a primeira fábrica de conservas portuguesa nasceu há mais de 150 anos em Vila Real de Santo António, no Algarve? Ou que Sayonara, adeus em japonês, deriva da expressão “sai ao mar” usada pelos navegadores portugueses quando se preparavam para partir do porto onde estavam? Quem compra packs da Miss Can na loja online ou nos cerca de 25 pontos de venda, entre os quais o Aeroporto de Lisboa, “de onde voamos para Alemanha, Holanda, Bélgica e Luxemburgo”, tem acesso a isto e muito mais.

No ano passado, a Miss Can vendeu 15 mil latas. “Neste momento, as vendas do primeiro semestre são superiores às do ano passado”, diz Bárbara Cabral. “Tivemos um crescimento de 60%” e ainda sem o nosso melhor mês: julho. Um quarto das vendas são para o exterior. Faturaram 70 mil euros e, para este ano, o objetivo é “dobrar este valor”, diz Tiago Ribeiro. Querem criar uma linha de produtos avulso – “o pack funciona melhor em Portugal do que lá fora” – e, já em setembro, abrir a petiscaria Miss Can. Uma loja de 26 m2, com esplanada, no Largo do Contador Mor, 17, com arquitetura de interior a cargo de Leo Marote, o mesmo que transformou a Piagio numa banca ambulante. “70% do negócio será o petisco. Serão servidos produtos tradicionais portugueses além das referências da Miss Can, mas com empratamento, e 30% das vendas dos produtos e da linha de merchandising”, descreve Tiago Ribeiro. Os aventais da Miss Can, por exemplo, poderão ser ali adquiridos. “A ideia é replicar o conceito da Miss Can em outras cidades onde o fluxo turístico seja elevado, com o Porto”, acrescenta. Meta? “Daqui a um ano.”

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