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MoteLx: O terror não lhes mete medo

Festival vai na 6ª edição
Festival vai na 6ª edição

Nunca decoraram a data em que, pela primeira vez, se encontraram num sótão de Benfica, em Lisboa, para começarem as sessões de filmes à sexta-feira à noite. João Monteiro, 35 anos; João Viana, 34; Carlos Pontes, 33; Pedro Souto, 35; e Luís Canau, 41, conheceram-se naquele bairro lisboeta e começaram a juntar-se todos os fins da semana para trocarem preferências cinematográficas. E, claro, verem filmes.

Rapidamente perceberam que havia qualquer coisa de especial nos encontros. “Preparávamos um alinhamento, cada um com as suas propostas. A determinada altura começou a ser uma evidência: quase todos os filmes que passavam eram de terror – acho que foi assim que aconteceu. Eram os mais vistosos dos clubes de vídeo, as melhores capas “, recorda João Monteiro.

Foi no sótão de Benfica que nos anos 1990 (mais precisamente em 97, dizem os fundadores) começou de modo informal o Cineclube de Terror de Lisboa (CTLX), com as famosas sessões um sótão. Os encontros às sextas tornaram-se tão frequentes que, numa dessas sessões à meia-noite, decidiram abrir as portas a outras pessoas. Entretanto, também tinham começado a ir a festivais internacionais do género, sempre curiosos com as novidades que iam surgindo de todas as partes do mundo.

Surpreendido com a grande afluência nas sessões, João Monteiro – que na altura trabalhava na Atalanta Filmes – falou com o realizador Paulo Branco. “Quis saber se ele nos deixava fazer uma sessão. Ele ofereceu-nos duas meias-noites no cinema King e nós juntámos os nossos trocos e trouxemos um filme de 35 mm chamado Ichi the Killer. Foi um sucesso. Esgotou as duas sessões.” Em 2003, foi o sinal de que precisavam para avançar com a organização de qualquer coisa relacionada com cinema de terror e que coincidiu também com a criação de uma associação sem fins lucrativos “para fazer projetos, qualquer tipo de projetos”, explica.

Dez anos depois da primeira sessão oficial de Benfica arrancou a primeira edição do MoteLx, o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, cuja sexta edição decorre entre 12 e 16 de setembro, no Cinema São Jorge. O nome MoteLx vem da vontade de apresentar “uma experiência intensa e inesquecível, tal como num motel. Lx porque é em Lisboa”, explica Pedro Souto.

“Um bocado a partir dos filmes que víamos e aos quais não tínhamos acesso de outra forma que não fosse em festivais. Estas sessões esporádicas limitavam depois a procura de patrocinadores e apoios e a divulgação tinha os seus limites. Começámos a pensar se um festival nos poderia facilitar a vida nesse aspeto”, conta Pedro. Por isso, em 2007, e em apenas seis meses, os cinco fundadores do festival montaram a primeira edição do MoteLx, “conscientes do que queríamos e não queríamos fazer”, assegura João Viana.

“É bastante suicidário para quem está a montar um festival todo pela primeira vez tratar de tudo, desde o espaço à programação, em apenas seis meses. Quando demos o passo ainda não tínhamos espaço nem apoios garantidos. Mas estávamos dispostos a levar as coisas até ao fim. Na iminência de não haver dinheiro, fomos às nossas poupanças e àquele círculo de família e amigos e quem mais pudesse ajudar. As coisas montaram-se num espaço relativamente pequeno mas minimamente ajustado àquilo que era o nosso ideal de festival”, explica. Sempre centrado nos filmes, na programação, “uma programação coerente e pertinente”, afirma.

Com os anos, pouco mudou. “Acho que ainda não nos afastámos muito disso. Só no facto de agora ser um ato contínuo. Não há um início e um fim da montagem do festival porque está sempre a acontecer. Na sessão de encerramento do festival deste ano já estamos com trabalho para 2013. Essa é a grande diferença para a primeira edição”, diz João Viana. Carlos Pontes acrescenta: “A evolução do festival tem coincidido com a evolução vertiginosa da comunicação, e mesmo dentro das próprias indústrias de cinema. Se na altura da primeira edição quase poderia ter havido uma ausência de comunicação durante um ano, agora a velocidade é muito mais vertiginosa, há uma comunicação constante e continuada durante um ano. É muito engraçado ver a evolução de formatos, durante seis anos de festivais tem sofrido muitas alterações.”

As alterações são com fartura e o festival foi acompanhando a evolução do cinema, assim como vai servindo de montra à produção nacional de cinema de terror (através do Prémio MoteLx, uma distinção de três mil euros, assim como vouchers de pós-produção vídeo e áudio, entre outros). E até na hora de escolher a programação há concursos. “É quase uma competição para ver quem está mais atualizado”, diz Carlos Pontes.

A quinta edição do MoteLx custou “entre 50 e 100 mil euros” e teve 13 100 espectadores. Este ano, os fundadores querem manter ou superar esse número, conscientes de que tudo se alterou. “O próprio negócio mudou completamente, a ideia que toda a gente tinha de cinema eram as latas, e agora já não há, isso tudo acabou. A mim impressiona-me é a rapidez com que as coisas mudaram em apenas seis anos. E vão continuar a mudar. Qualquer dia vamos poder encomendar um filme por e-mail”, diz João Monteiro. Por isso, o verdadeiro terror não está nos filmes. “Está na passagem do tempo.”

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