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My Nurse. Quatro passos para ter uma enfermeira em sua casa

App portuguesa é a única no mundo que disponibiliza cuidados de saúde numa lógica Uber: basta registar-se para aceder à plataforma.

Há uns meses, com a mãe e a avó doentes e fã da aplicação de transportes Uber, a jurista Marta Veiga pôs-se a pensar no bom que seria existir um serviço semelhante que permitisse às pessoas terem acesso a uma rede de cuidados de saúde ao domicílio, que fosse de acesso simples e serviço previsível. “Constatei que era muito complicado arranjar pessoal que fosse a casa, cuidadores qualificados e dentro daquilo que eram as minhas expectativas relativamente às pessoas que iam entrar-me pela casa adentro e que iriam cuidar dos meus familiares. Além de ilustres desconhecidos, variavam e nem sempre eram aquilo de que eu estava à espera”. Na altura procurou referências entre amigos e contactos em centros de enfermagem e percebeu que, na maioria das vezes, era necessário recorrer a empresas.

No dia em que Marta falou da ideia a duas amigas enfermeiras – uma na Médis e a outra na Santa Casa da Misericórdia e, por isso, com duas experiências diferentes em termos de cuidados de saúde -, a resposta teve tanto de entusiasmo como de desafio. “Disseram-me: olha que ideia gira, é capaz de dar certo”, conta Marta, sobre a reação das também sócias da My Nurse, Isabel Carvalho e Joana Pereira. Mas a jurista de 40 anos pensou em canalizar essa expectativa para algo concreto.

Com experiência de trabalho num escritório de advogados especializado em propriedade industrial, decidiu falar com outro amigo, que trabalhava na área financeira numa multinacional de saúde, para discutir a viabilidade do negócio. Com a ajuda de Gonçalo Garção, trabalhou num plano de negócios que contemplasse, tanto aquilo que podiam fazer como as inspirações a que deviam recorrer. Pouco tempo depois, percebiam que, nos mercados português e mundial, não havia nada do género. De seguida, meteu-se no ecossistema. Marcou reuniões com fundadores de startups e, foi num desses encontros, que foi apresentada por Hugo Macedo, da Unbabel, a Pedro Santos, da DarwinLabs.

Pedro entusiasmou-se tanto com a ideia do negócio que, numa quinta-feira à noite, lhe propôs sociedade se Marta conseguisse 20 parceiros e um cliente. Bastaram poucas horas, durante a noite, para que Marta conseguisse reunir 40 prestadores de serviços e o primeiro cliente, confirmados a Pedro na sexta de manhã. Era o avanço de que precisava para poder arrancar com o negócio.

Em Pedro – que entretanto se tornou sócio da My Nurse, com 5% do equity da empresa -, encontrou o parceiro certo para a área tecnológica, cujo desenvolvimento tem sido feito num ambiente OutSystems. Nos últimos meses, é uma equipa de três pessoas da DarwinLabs que tem desenvolvido a aplicação da My Nurse, uma plataforma onde os utilizadores podem solicitar serviços de cuidados de saúde ao domicílio, sejam enfermeiros, fisioterapeutas, auxiliares de ação médica ou outros terapeutas – há, por exemplo, também psicólogos na base. “Apenas quatro meses depois do lançamento da plataforma, a My Nurse é já a maior rede de prestadores reunidos numa só base, a nível nacional. Temos mais de 200 prestadores de apoio ao domicílio”, conta Marta.

O segredo, considera, está na maneira fácil com que, tanto prestadores como utilizadores, podem registar-se na plataforma, assim como na simplicidade com que, em quatro passos, podem requisitar-se e pagar-se serviços específicos no dia e à hora pretendidos, poupando tempo e dinheiro aos prestadores e aos clientes.

“Apenas quatro meses depois do lançamento da plataforma, a My Nurse é já a maior rede de prestadores reunidos numa só base, a nível nacional. Temos mais de 200 prestadores de apoio ao domicílio”, conta Marta

“O cliente introduz a morada, o tipo de serviço que quer e a disponibilidade dos prestadores é apresentada com base numa agenda que a plataforma gere. O cliente tem acesso aos perfis sobre a experiência e críticas anteriores. Escolhendo, o prestador já sabe quais as necessidades que vai encontrar e quanto vai ganhar e os clientes sabem exatamente quanto vai ser cobrado”. O pagamento é feito através da plataforma, de maneira a eliminar imponderáveis: no fundo, a My Nurse é “apenas” a ferramenta que possibilita a relação direta, sem intermediários, entre o prestador e o utilizador. “Essa simplicidade”, explica Marta, “faz com que haja maior eficiência porque, pelo facto de ser na mesma zona geográfica, reduzem-se os custos de transporte dos prestadores. Por outro lado, em termos de tempo, faz com que a resposta seja mais rápida e diminui a incerteza quanto ao custo e ao preço cobrado.”

O modelo de negócio da My Nurse é tão transparente quanto a explicação das vantagens do serviço: a empresa não cobra pelo registo mas, por cada serviço prestado, a startup recebe uma percentagem do valor total que ronda os 30%. No entanto, se forem serviços de longa duração – por exemplo, cuidados contratados durante vários meses – tanto o preço total do serviço como a percentagem cobrada pela empresa podem ser negociados, caso a caso. “Assim que o depósito é feito à My Nurse – logo que o serviço é concluído -, o prestador do serviço é pago através de um IBAN que está associado ao seu perfil”, esclarece a jurista, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

“O que se vê é um logótipo com uma aplicação, mas o que está por trás disso tem-nos dado muito trabalho.”, diz Marta

A equipa, que atualmente conta com 10 pessoas, três engenheiros, trabalha segundo um modelo de desenvolvimento cidade a cidade, e contou com um investimento inicial de 50 mil euros. Por isso, o serviço foi lançado em Lisboa e deverá crescer para Faro e Porto este ano, e chegar a Madrid em 2017. “Em Espanha, o mercado de apoio de saúde ao domicílio tem exatamente as mesmas características que o nosso, com um benefício extra que é o facto de não existirem apoios de saúde ao domicílio gratuitos, assegurados em Portugal pela Santa Casa da Misericórdia e outros do Sistema Nacional de Saúde”, considera. Isso para nós é muito interessante e é claramente o nosso próximo passo.

O foco da empresa passa também por desenvolver um maior número de serviços disponíveis, desde cuidados básicos de saúde a áreas menos exploradas, ligadas à neonatologia e a obstetrícia, sobretudo nos períodos pós-parto. “É um segmento de mercado muito interessante e, depois, obviamente o segmento dos seniores, muito através dos filhos e dos netos. Tínhamos algum receio que as pessoas com mais idade conseguissem aceder mas, a verdade é que não só conseguem como estão desejosas que alguém lhes ensine”.

° My Nurse ° Lançada em abril deste ano, a aplicação serve para contratar cuidados médicos ao domicílio ° Tem mais de 200 prestadores de serviços de saúde associados ° Equipa fundadora investiu 50 mil euros para desenvolver a aplicação e arrancar com o negócio ° Expansão em 2017 passam pelas cidades do Porto, Faro e Madrid ° www.mynurse.pt

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