startups

Empreendedorismo. Escadas: As deles são rolantes, as delas de madeira.

Cultura, educação, falta de confiança ou excesso de zelo? Representação feminina é inferior mas estudos indicam que a presenta delas é valiosa.

Um dia, em reunião com um cliente, ele disse-lhe. “Sim sim, mas eu quero falar com o tech guy”, conta Cristina Fonseca. A engenheira de telecomunicações, de 28 anos, respondeu calmamente e depois pôs-se a pensar.

“É um facto. As estatísticas revelam que há menos mulheres a trabalhar em startups e em tecnologia e isso pode ser uma questão de confiança. Arriscamos menos”, conta, em entrevista ao Dinheiro Vivo. A admissão dos números é um banho de realidade. Cristina Fonseca cofundou a Talkdesk em 2011, com o sócio Tiago Paiva.

Em fevereiro, Cristina deixou o dia da dia da Talkdesk para dedicar mais tempo a outras coisas. “Durante um dia inteiro recebi, um a um, todos os que quiseram falar comigo”, contou na altura ao Dinheiro Vivo. Houve de tudo: confissões de admiração, referências de inspiração, saudades antecipadas, lágrimas. “Eu estava muito lá, estava sempre lá, presente.”

“Mesmo as mulheres em cargos de chefia percorreram um caminho longo e difícil, tiveram que abdicar de muita coisa. E levou tanto tempo que há quase uma questão de proteção de espaço. Não arriscam porque demoraram muito a pertencer aos boys’ club”, analisa Filipa Neto, cofundadora da tecnológica Chic by Choice. Ou, como ilustra Dália Costa, vice-presidente e cofundadora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género, “na escada da carreira, a deles é rolante e tem todos os fatores de promoção do empreendedorismo. A delas é de madeira, têm de subi-la degrau a degrau, sempre com muito cuidado para não cair para trás e ainda levam uma criança e uma panela penduradas”.

No ecossistema empreendedor, o cenário não é tão desigual como nas grandes empresas, mas também só se cumprem os mínimos olímpicos. No PSI 20, há zero presidentes. A nível geral, 28,5% dos cargos de liderança ou gestão das empresas em Portugal são ocupados por mulheres, uma melhoria de 5,2 pp face aos últimos cinco anos. Este valor passa para 32,3% nas startups.

“Acho que existe um problema de funil desde a universidade. Precisamos de mais mulheres a estudar ciências e tecnologia, e precisamos de mais foco de recursos humanos para promover a diversidade. Está comprovado que mais diversidade gera melhores resultados operacionais”, analisa Carolina Brochado, principal no fundo de capital de risco internacional Atomico.

No PSI 20, há zero presidentes. A nível geral, 28,5% dos cargos de liderança ou gestão das empresas em Portugal são ocupados por mulheres, uma melhoria de 5,2 pp face aos últimos cinco anos. Este valor passa para 32,3% nas startups.

O estudo Is gender diversity profitable?, feito por investigadores do Peterson Institute for Internacional Economics e da Georgetown University, que analisa 22 mil empresas de 91 países, prova isso mesmo. Segundo as contas, uma empresa rentável em que 30% dos cargos de liderança sejam ocupados por mulheres pode conseguir uma rentabilidade 15% superior a uma empresa, também rentável, que não tenha qualquer mulher na liderança.

Ilustração: Richard Câmara

Ilustração: Richard Câmara

A representação feminina também é inferior no campo do investimento: apenas 7% das sócias de empresas de Venture Capital são mulheres, de acordo com a Crunchbase. Segundo os mesmos dados, e apesar de mais de metade da população europeia ser feminina, menos de 30% de todos os empreendedores são mulheres. Este número é ainda menor em Berlim e Londres, os dois grandes centros tecnológicos, com apenas 9% e 18%, respetivamente. A educação pode ser a chave desta questão.

“Há uma dimensão fundamental que é a da liderança. Quando olhamos para os cursos superiores que eles e elas escolhem, continuamos a encontrar muitas mulheres nas áreas da saúde, da educação, na ‘dimensão do cuidar’. São fundamentalmente os homens que investem em tudo o que implica liderança e gestão com tomada de decisão”, esclarece Dália Costa.

Para Stephan Morais, administrador executivo da Caixa Capital, um dos maiores fundos de capital de risco nacionais, é tudo uma questão de tempo. “Gostavamos que houvesse mais Cristinas [Fonseca] e Filipas [Neto], mas acho que também são esses exemplos que vão levar a que haja mais mulheres a experimentar. Não são pessoas que arrisquem pouco”, assinala.

Segundo um estudo, uma empresa rentável em que 30% dos cargos de liderança sejam ocupados por mulheres pode conseguir uma rentabilidade 15% superior a uma empresa, também rentável, que não tenha qualquer mulher na liderança.

Uma questão de bra feeling
A sorte de Linda Pereira foi ter um pai português, assegura. Criada à “boa maneira inglesa”, em Londres, Linda, 56 anos, decidiu, ainda antes de acabar o curso, que queria abrir a própria empresa, há mais de 20 anos. “O meu pai é antiquado, ainda hoje acha muito estranho que eu faça o que faço. Dizia-me que eu queria era mandar em mim própria. Eu queria ter uma voz”, conta.

Fundou o primeiro projeto do grupo CPL Meetings & Events, do qual é diretora executiva, numa altura em que pouco se falava de organização profissional de eventos em Portugal. Com o passar dos anos, além dos negócios, foi-se envolvendo em causas. Trabalhou com ONG’s e percebeu, pelo trabalho do dia a dia, que as mulheres agem muito por inspiração.

Por isso, aos 30 começou a investir noutras empresas fundadas por mulheres, uma forma de as incentivar a criar. Aquilo a que chama bra feeling. “Torno-me muitas vezes sócia de mulheres que estão a começar negócios. É como se sentissem um aconchego que as leva a continuar”, conta.

De forma mais técnica, esse sentimento é aquilo que a investigadora Maria Helena Santos, do Centro de Investigação e Intervenção Social, descreve como “fenómeno universal não explicado cientificamente”. “Continuamos muito agarrados aos estereótipos e aos papéis de género, que determinam quais os comportamentos relevantes para cada um dos sexos e as expectativas que deverão ser cumpridas pelas mulheres e pelos homens em diferentes situações sociais, especialmente na sua vida familiar e profissional”, diz.

A investigadora sustenta que “continua a esperar-se das mulheres que tenham um comportamento communal, enquanto se espera que os homens sejam agentic, ligado à autoconfiança, domínio e à necessidade de realização pessoal”. Ou seja: “As mulheres não nascem naturalmente assim, com falta de autoconfiança intrínseca que as impede de avançar. É antes a ordem social de género que as limita, ou como se diz, os ‘travões impostos pela sociedade’”, assegura.

No entanto, pode não ser apenas uma questão social: Linda Pereira continua a ver a mesma aversão das mulheres ao risco. “A maioria começa negócios quando os filhos vão para a universidade, uma espécie de twilight carreer, usando a experiência que têm nalguma área. E, quando criam startups é normal fazerem-no em parceria com um homem. As mulheres tendem a abdicar das suas vontades internas em prol dos maridos, dos filhos e da extrema dedicação dos outros às carreiras. E a sociedade ainda não está estruturada para aliviar esse parte.”

É a aversão ao risco que gera insegurança? Ou o contrário? A coach Alexandra Vinagre responde: “A pressão da sociedade conduz à falta de confiança, porque não existe um estímulo social para que as mulheres sejam bem sucedidas profissionalmente. Contudo, estamos num momento de mudança do mindset, de alguma forma a perceber que é tão importante para elas o facto de serem mães como o poderem desenvolver um negócio.” O problema é conciliar os dois. “Quando um homem tem filhos, a sua carreira progride. Quando uma mulher tem filhos, a sua carreira regride”, resume Elza Pais, deputada e presidente da Subcomissão da Igualdade e Não Discriminação.

Homem + atraente = €

“As mulheres não nascem naturalmente assim, com falta de autoconfiança intrínseca que as impede de avançar. É antes a ordem social de género que as limita, ou como se diz, os ‘travões impostos pela sociedade’”, assegura Maria Helena Santos.

“Se eu fosse um homem de 21 anos, vestido com uma camisola de capuz, a Vivoom seria ainda mais atrativa para os investidores.” O desabafo de Kathryn Hays, fundadora desta startup tecnológica que já estabeleceu parcerias com gigantes como a Microsoft, não está longe da realidade. Um estudo realizado por professores da Wharton School, da Universidade de Harvard e da Sloan School, resume as dificuldades que as mulheres enfrentam para arranjar financiamento com uma fórmula simples.

Um homem atraente tem 36% maior probabilidade de convencer investidores com um pitch do que um não atraente. Mas qualquer homem, atraente ou não, está em vantagem em relação a uma mulher: a mesma ideia de negócio tem uma probabilidade 60% maior de ser bem recebida por investidores se for apresentada por um homem.

Cristina Fonseca viveu na pele esta estatística. “Sempre foi o Tiago [Paiva, sócio na Talkdesk] que liderou as rondas de financiamento mas fazia parte do processo que eu conhecesse os investidores. E acho que eles nunca duvidaram de que eu fosse capaz. Por isso gosto de responder que não, que não sinto diferença. Mas é certo que não sei se isso aconteceu porque o Tiago também estava lá, porque éramos dois”.

Os fatores que influenciam a recetividade dos investidores não acabam no aspeto físico de quem apresenta ideias. Sandra Correia é empresária desde 2003 e está habituada a participar em conferências onde os oradores são quase exclusivamente homens, o que ilustra grande parte do problema. A fundadora da Pelcor acredita que a reticência no financiamento de negócios de mulheres não está relacionada com uma falta de iniciativa delas. Antes, com a falta de exposição que têm quando o fazem.

Aliás, o projeto de empreendedorismo que criou, A New Beginning for Portugal, reúne 500 empreendedores, dos quais 70% são mulheres. O problema é que “estas mulheres não têm a mesma visibilidade que o género masculino: por falta de conhecimento do meio envolvente, porque os lobbies masculinos são muito mais visíveis do que os femininos ou porque elas não têm tanta disponibilidade social para mostrarem empreendedorismo”, diz.

No fundo, há “um desconhecimento geral da existência do empreendedorismo feminino, sobretudo pelas autoridades públicas”. E é às próprias mulheres que cabe tornarem-se mais visíveis e criarem estratégias para mudar, defende. O fator “padrão” pode pesar na equação. “É uma espécie de fórmula de sucesso. Um investidor tende a financiar áreas e empresas do tipo das que já tiveram sucesso. No caso das mulheres, é muito difícil criar um padrão numa coisa que é tão pouco representada. E se o mundo continuasse a investir em padrões, nunca teria tido disruptores”.

A sociologia também explica esse fenómeno. “Funcionamos com zonas de conforto e é muito mais confortável trabalharmos com aquilo que é habitual e não desafia a norma social. E aquilo que não desafia a norma é ser um homem empreendedor”, resume Dália Costa. Talvez por isso, Cristina Fonseca se sinta sozinha quando lhe perguntam acerca de mais mulheres empreendedoras. “Olho em volta e não há. É triste.”

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
João Lousada no deserto de Omã como astronauta análogo, em 2018

João Lousada. Conheça o primeiro português a liderar a Estação Espacial

João Lousada no deserto de Omã como astronauta análogo, em 2018

João Lousada. Conheça o primeiro português a liderar a Estação Espacial

Fotografia: REUTERS/Henry Nicholls - RC122C9DD810

Cartas de Boris Johnson causam surpresa e perplexidade em Bruxelas

Outros conteúdos GMG
Empreendedorismo. Escadas: As deles são rolantes, as delas de madeira.