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O que torna os inovadores diferentes, segundo o autor de ‘Outliers’

Malcolm Gladwell
Malcolm Gladwell

Num evento tecnológico, Malcom Gladwell explicou a importância do contexto social na inovação e o que diferencia os verdadeiros inovadores

Na era do empreendedorismo em série, o que é que faz de alguém um inovador a sério? O que o distingue de todos os outros que estão a tentar sobreviver num mercado em que startups e invenções surgem como cogumelos?

Malcolm Gladwell, autor do livro “Outliers”, jornalista da The New Yorker e orador frequente em eventos sobre inovação, tem uma perspetiva peculiar sobre isto. Durante o evento Dell EMC World, que decorreu em Austin, Texas, o autor fez uma apresentação em que falou da dimensão social da inovação. É algo em que não costumamos pensar. “Há a coisa que estamos a inovar e o contexto em que o estamos a fazer”, declarou Gladwell.

Usando os exemplos de várias pessoas que considera verdadeiros inovadores ao longo da história, como o médico que revolucionou o tratamento de cancro com quimioterapia, dr. Freireich, e o incontornável Steve Jobs, da Apple, Gladwell identificou os traços que são comuns a estes empreendedores que operam verdadeiras disrupções no mundo. Em todos os sectores. Estas são as características:

1. O inovador tem de navegar as águas tumultuosas da sociedade em que se insere e perseverar quando ninguém acredita nele

Quando o dr. Freireich teve a ideia de combinar as quatro drogas que eram usadas para tratar cancro, com elevadas doses de toxicidade e poucos efeitos nas crianças com cancro, a comunidade médica achou que ele estava louco. Não era assim que se faziam as coisas. “Mas este é um caso clássico de inovação. Ele teve uma ideia e correu um enorme risco operacional e social para a testar”, disse Gladwell.

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2. O inovador tem um sentido premente de urgência

Em vez de seguir os passos todos que os que vieram antes de si seguiram, o inovador tem pressa em testar, experimentar, provar, desenhar. Toma atalhos. Quer atacar o problema para o qual acha que encontrou solução rapidamente.

Gladwell relembrou uma história que mudou o curso da história para ilustrar esta faceta. Nos anos 70, o Xerox Park era o epicentro da Investigação e Desenvolvimento tecnológico do mundo. A Xerox tinha contratado os 60 engenheiros mais brilhantes do mundo. Quase todas as inovações que associamos aos computadores hoje vieram dali.

Em dezembro de 1979, tiveram a visita de um jovem chamado Steve, que tinha uma pequena empresa de computadores do outro lado da rua. Os engenheiros da Xerox Park mostraram-lhe a interface gráfica e ele ficou de queixo caído: aquilo era o futuro. Uma interface gráfica para que o utilizador não tivesse de introduzir linhas de comando! Ele saiu dali a correr, saltou para o seu velho Beetle, foi a conduzir a 80km/hora pela rua abaixo e disse aos seus engenheiros para pararem tudo o que estavam a fazer. O seu nome era Steve Jobs, e o que resultou desta epifania foi o Mac.

“O que é que distinguia Jobs dos engenheiros do Xerox Park? Eles são inteligentes. Inventaram aqui tudo. Seria ele um visionário, que viu o futuro com mais clareza? Teria ele mais recursos? Não. Ele tinha pressa. Tinha um sentido de urgência. Achava que isto tinha de ser para ontem, enquanto os engenheiros pensavam que tinham todo o tempo do mundo.” É difícil ter a ideia, reunir os recursos necessários e pô-los em prática, principalmente quando se trata de uma organização com algum tamanho. “Requer entusiasmo, carisma, personalidade.”

O inovador tem pressa em testar, experimentar, provar, desenhar. Toma atalhos

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3. O inovador não depende da aprovação dos outros para fazer o que considera correto

Esta é a mais dura das características: uma crença inabalável no seu caminho e a resistência à pressão que o rodeia, muitas vezes com sacrifícios pessoais. “Os verdadeiros inovadores são tão raros”, disse Gladwell. “Para ser um inovador, vocês tem de ser alguém que não precisa que o mundo lhe dê palmadinhas nas costas.”

4. O inovador é aberto, consciencioso e desagradável

Sim, assim mesmo. Tem de ser aberto e criativo; ter consciência do que está certo e errado, e escrúpulos para se manter fiel a isso; e capaz de ir contra a corrente em vez de tentar agradar aos pares.

Gladwell usou o exemplo do Ikea e de como o seu fundador foi contra tudo e contra todos quando decidiu fabricar a sua mobília na Polónia. Era o período pós-guerra e o país estava em ruínas. Em 1961, Ingvar Kamprad fez a primeira encomenda – eram cadeiras – a uma fábrica polaca. Foi denunciado, ostracizado, acusado de se ter virado para o outro lado (estava-se em plena Guerra Fria), mas ele perseverou. E construiu um império. “Essa qualidade é essencial para qualquer pessoa que queria levar disrupção ao que quer que seja. É um ato de disrupção social, não de disrupção técnica; uma disrupção na ordem das coisas”, disse o autor. “Você tem de ser o tipo de pessoa que tem a força interna para conseguir passar por isso.”

5. O inovador não acredita no status quo

Ao invés de olhar para o que existe, cultiva uma mentalidade de crescimento, evolução. “Freireich não tem a expectativa, quando acorda de manhã, de que o mundo será o mesmo lugar que era ontem”, explica Gladwell. “Todos os médicos na oncologia tinham uma forma de fazer as coisas, com alterações subtis ao longo do tempo. Mas ele não quis saber disso: estava preparado para virar tudo de cabeça para baixo amanhã.” Ou seja: ele acreditava que o conhecimento é altamente instável. “As coisas são sempre muito mais voláteis no nosso mundo que o que pensamos.”

 

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