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Os seus móveis são monos? A solução

Guida é sócia do marido, Ricardo
Guida é sócia do marido, Ricardo

Guida Costa Santos começou há anos a recolher móveis velhos no lixo – os chamados monos. O marido, Ricardo Dias, estranhava. Mas habituou-se. “E agora até já põe cobertores na mala do carro. É à vontade”, conta.

Guida, 35 anos, estudou comunicação e cultura entre a Universidade Católica e a de Letras, em Lisboa. Foi hospedeira na Air Luxor e trabalhou numa agência de marketing. Mas as regras de um trabalho com hora marcada e em que o telefone não parava de tocar deram mau resultado.

“Cheguei a um ponto em que já não conseguia ouvir o telefone. Não sei, houve uma altura em que achei que aquilo não era para mim. Decidi tentar outra coisa.” A viragem coincidiu com o curso de Marcenaria e com o nascimento do primeiro filho. “Adorei. Era o trabalho ideal para mim, sem stress, e era uma coisa que eu sempre gostei de fazer.”

Guida sempre fez transformações em casa dela. “Sou tipo coletor, uma daquelas pessoas que anda à procura de coisas nos contentores das obras”, explica. Recolhia móveis, reaproveitava outros, pintava-os, adaptava-os. Em 2009, abriu a primeira oficina da Monstros, uma cave sem janelas que servia como espaço de trabalho, mas não se adequava às necessidades da marca em que investiu com o marido, sócio da Monstros, que mantém o “emprego estável e certo”.

O atelier Monstros arrancou com a mudança de espaço para uma oficina com montra perto do Mercado de Arroios, em Lisboa. Através do vidro, veem-se toucadores coloridos, mesas de cabeceira com andorinhas brilhantes pintadas e cómodas enfeitadas com rendas e croché. São efeitos de uma vontade criativa que Guida intercala com as encomendas para colar, pintar e redecorar móveis antigos. Uma forma de dar uma nova vida aos velhos monos.

“Regra geral, gosto de escolher e fazer as peças. Recolho-as. Nunca as compro. Para mim a criatividade é o mais importante”, diz. Por enquanto, as encomendas representam o maior volume de trabalho do atelier (Guida teve de deixar de lhe chamar oficina porque os amigos perguntavam se ela “alinhava direções”). E nunca rejeita um trabalho. Por isso, os tempos pós-encomenda são os favoritos. É nessas horas que dá espaço e tempo de antena à imaginação.

“A ideia era recuperar os monos, móveis de grandes dimensões. Basicamente, os monstros que temos lá por casa e já não queremos. Queria fazer coisas diferentes. Sempre com o propósito de reciclar as coisas, de lhes dar uma nova vida.” Entre as criações estão alguns móveis que Guida resgatou da casa da avó, “os favoritos pela questão da memória”. “Tudo o que nós temos é herdado, não compramos nada.”

Para arrancarem com o projeto, Guida e Ricardo foram investindo os lucros dos primeiros trabalhos na renda do atelier. “Os primeiros meses não foram fáceis e há alturas difíceis. Às vezes penso em não avançar mais com o negócio, porque é sempre muito incerto e quando temos filhos arriscamos menos. Os meses de férias são sempre péssimos, mas é como os jornais: também são fininhos.”

Além de querer dar uma nova vida aos velhos móveis, a Monstros quer tentar combater o consumismo desmedido de móveis novos, ao mesmo tempo que apresenta alternativas às pessoas que querem mudar a decoração da casa sem terem de recorrer às sugestões das lojas de sempre.

“Entramos noutras casas e parece que as coisas são todas decoradas da mesma maneira, com coisas dos mesmos sítios. Então, achámos que seria uma boa ideia, não só na vertente ecológica mas também na criativa.” Só que Guida confessa que a tarefa não tem sido fácil de concretizar.

“Às vezes até gostam das propostas, das coisas mais ousadas, mas é raro. Normalmente as pessoas até mandam a fotografia, para o tom do móvel não fugir do do tapete e para a tela não fugir da cor do tapete, por exemplo. Acho que é como a roupa: as pessoas às vezes combinam as roupas com cores e padrões exatamente opostas e funciona. Às vezes acho é que as pessoas têm medo de criar o seu próprio estilo, não arriscam, e então vão um bocado pelo seguro, pelo padrão.”

Guida quer que a marca Monstros cresça além da oficina. Os workshops de marcenaria, pintura e restauro são reflexo dessa vontade. “As pessoas perguntam e adoram fazer estas coisas, saber como se fazem. É até calmante, tira o stress”, diz. A fundadora da Monstros gostava de ter mais tempo para investir na recuperação de peças novas e aprender em cursos novas técnicas para desenvolver os produtos e a criatividade. A criação de uma linha de móveis de crianças recuperados é um dos planos mais imediatos. “Por ter sido mãe – e pelas necessidades que surgiram daí -, não encontro nada de diferente que se adeque ao meu gosto e pensei nessa possibilidade.”

Os preços dos Monstros variam com os materiais – os móveis de mogno, por exemplo, são dos mais caros -, mas sobretudo com o trabalho e o tempo que Guida dedica a cada peça para ela se tornar aquilo que é. Um cabide pode custar35 euros, uma mesa de apoio em regra varia entre os 50 e os 60 euros. Uma cómoda pintada e restaurada pode alcançar os 850 euros.

“A parte primordial do nosso trabalho é fazer que algo que não tenha valor nenhum adquira algum valor. E, além disso, garantir que as memórias e as histórias que cada peça podem contar não serão esquecidas.”

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