Pedro Rocha Vieira em entrevista. Ser empreendedor não é algo milagroso

Em entrevista ao Dinheiro Vivo diretor da Beta-i detalha o crescimento da organização que cresceu à medida do empreendedorismo.

Explorers Festival, Seedcamp Lisbon, Sillicon Valley comes to Lisbon, Fast Track Lisbon, Investment Summit, Lisbon Challenge. De quantos destes nomes já ouviu falar? Em quantos participou ou conhece alguém que tenha participado?

A Beta-i, uma organização sem fins lucrativos criada em 2010, é a cara e o nome por trás desta lista inacabada. A organização já recebeu nestes e noutros eventos mais de 9300 participantes e o número de startups inscritas nos seus programas já ultrapassa as 3700. A organização independente apoiou mais de 550 negócios e conta com mais de 60 delas que já recolheram financiamento junto de investidores. O Dinheiro Vivo conversou com Pedro Rocha Vieira, diretor da Beta-i sobre o início, a ambição e os principais desafios de uma das primeiras organizações em Portugal a tratar os fazedores por tu.

A história da Beta-i não é muito comprida mas tem alguns momentos de relevância. O que é que a Beta-i queria ser e o que é que a Beta-i é hoje? O que é que mudou desde o início?

A história da Beta-i é uma história feliz porque é uma história de quem iniciou em Portugal um movimento que, de certa forma, foi um movimento feliz em todo o mundo: uma importância crescente do empreendedorismo e da inovação. Foi uma organização criada de empreendedores para empreendedores, pessoas que viam o que estava a acontecer lá fora e de como isso era inevitável e que perceberam que, em Portugal, as condições ainda não estavam criadas.

Começámos só com a vontade de criar um impacto na sociedade e de criar uma mudança cultural, ligando Portugal com o mundo. Outro objetivo era aproximar empreendedores e investidores internacionais a Portugal, numa lógica muitíssimo altruísta e de fazer qualquer coisa acontecer. É uma história feliz, de sucesso, no sentido em que fomos fazendo, o país e o mundo foram mudando e nós fomos acompanhando essas mudanças.

Quais foram as dificultades fundamentais na criação de uma entidade assim, em 2010?

Num país onde toda a gente fala de empreendedorismo é fácil mas, naquela altura não foi assim tão fácil. Em seis anos, as coisas mudaram imenso e nos últimos três, drasticamente. Na altura, o que eu sinto é que falava e ninguém ouvia. Agora, as pessoas estão atentas: as grandes empresas, universidades, e até o governo. Porque, de facto, o ecossistema tem conseguido criar algum impacto. O que agora temos agora é uma fase muito mais dinâmica... todo o ecossistema foi crescendo, passando por fases diferentes, amadurecendo.

Mesmo que o resto do mundo vá com anos de avanço...

Nos últimos anos, o mundo tem sofrido grandes mudanças na forma de trabalhar e de como toda a economia está estruturada. Cada vez mais, as grandes empresas têm dificuldade em, sozinhas, responderem aos principais desafios económicos. Cada vez mais é preciso estarem articuladas com outras empresas mais pequenas, devido à enorme revolução enorme que trouxe a digitalização, o mobile, e outras lógicas que alteraram drasticamente os hábitos de consumo. É mais fácil hoje em dia criar um projeto, seja ele qual for, desde que se tenha informação de dados que suporte esse investimento.

Lisboa, 24/06/2016 - Pedro Rocha Vieira, director da Beta-i. (Leonardo Negr‹ão / Global Imagens) (Leonardo Negr‹ão / Global Imagens)

Dentro da Beta-i, o Silicon Valley goes to Lisbon e, depois, o Lisbon Challenge, organizou e começou a trazer os primeiros investidores a Portugal. E isso começou a expor as nossas startups ao mundo, mudando também um bocadinho a cultura dos investidores. Diria que temos um Lisbon Challenge, que é o primeiro programa de aceleração, para desenvolver as primeiras competências, uma forma de testar e de aprender sobre empreendedorismo de uma forma diferente da das escolas e das coisas mais institucionais.

O Lisbon Challenge é um marco bastante importante e que acho que coincidiu com a abertura da cidade ao empreendedorismo. E que posicionou Lisboa dentro do mapa internacional dos grandes projetos de empreendedorismo. E essa é uma coisa que a Beta-i conseguiu criar. Estes últimos dois anos, têm sido mais dedicados aos resultados desses projetos de empreendedorismo que têm começado a ter alguns reflexos: investimento sério, crescimento a nível internacional. Estamos agora numa fase muito mais séria para desenvolver as competências e estarmos capazes de lidar com os desafios atuais.

Quais são esses desafios?

Inteligência artificial, machine learning, tudo. Esta é a era mais competitiva. O que faz com que os pequenos atores possam ter uma grande capacidade de criar soluções poderosas. Houve esse shift, que também um cultural, das pessoas que estavam habituadas a viver de coisas mais certas, um trabalho para a vida inteira. E tudo isso aumentou a vontade de ser empreendedor, mudar cada vez mais de área e de projetos, fez com que haja muito maior predisposição para as pessoas estarem interessadas. A Beta-i nasce no pico da crise de 2009-2010. As crises são bons momentos de viragem.

Com todas estas alterações, mudou alguma coisa na visão da Beta-i?

Sou muito otimista, desde o princípio que via isto assim. Acho que aplicámos a nós próprios aquilo que diziamos aos outros para fazer: ir executando aos poucos e, passo a passo. Eu sempre tive esta visão: achava que Lisboa podia ser um grande hub internacional. E, há seis anos que estamos a dizer isto.

Leia mais: Wired coloca Lisboa na lista de hubs empreendedores

O momento chegou agora?

Acho que já estamos. Ainda não estamos a sério, não é sólido. 2016 vai ser o ano de prova no sentido em que temos todos grandes expectativas com o Web Summit. Acho que o Web Summit é só um evento mas traz uma credibilidade que o país pode usar em matéria de perceção e de tecnologia. Isso cria espaço mental: grandes empresas, decisores, o mundo, passam a olhar para as startups portuguesas de forma diferente. O Web Summit acho que ajuda para uma perceção positiva de Portugal. E isso significa que a estratégia que está a ser seguida. Tal como quando as startups portuguesas vão levantar dinheiro e aparecem noutros mercados. Ganhamos mais espaço. Isto vale anos de push, de esforço. No entanto, não podemos relaxar: isso é um grande erro que podemos cometer. Tal como na crise, porque acho que aligeirámos algumas reformas que não tinham de ser aligeiradas. É bom entrar em rutura, o que se ganha é um espaço mental. Uma das grandes vantagens que os portugueses têm, de que é preciso batalhar para se conseguirem os mesmos resultados que outros, este fenómeno faz com que, se formos de facto bons, à partida é mais consequente.

Mas nós dizemos que somos bons, assumimos isso?

Não, ainda não. Acho que agora começamos a ser mais assim. Acho que essa foi a mudança. A mudança cultural. Estamos inseridos e alinhados com o mundo quando começamos a ter a geração millennium a fazer startups e, estas, a serem financiadas por investidores internacionais e a terem esse reconhecimento. Os portugueses começam a perceber que são iguais aos outros e essa perceção é muito importante.

Outro fator tem a ver com o facto de sermos um país pequeno – e essa foi uma das coisas que tenho ouvido muitas vezes fora: faz-nos pensar logo num mercado global. Antes, era pequenino e era tão pequenino que não dava para nada. Hoje em dia, já percebemos que é pequeno mas isso não quer dizer nada. Temos competências: línguas, contactos, mundo. Isso pode ser uma vantagem quando olhamos para os espanhóis ou para os franceses, que têm um mercado maior e, portanto, acham que é suficiente. Acabam por estar demasiado focados, não vão para fora, não falam tão bem inglês e têm outras limitações. Alia-se esta nova geração muito mais competente, a projetos bastante melhores e ao facto de estarmos verdadeiramente conscientes de que o mundo é o mercado, de que somos capazes. Isso abre espaço mental que nos dá coisas como um unicórnio Farfetch, uma OutSystms, startups em early stage financiadas por investidores top. Isso faz esta primeira injeção de credibilidade, é possível. E essa é uma grande diferença.

Quando se começou há seis anos, parecia que estávamos a forçar, a inventar e a projetar uma falsa realidade. E acho que, com o trabalho e com persistência, conseguimos provar que Portugal tem o talento e a plataforma. E temos cada vez mais este posicionamento. De facto falta-nos mais: conseguir resultados sérios, empresas que, com o investimento consigam começar a faturar a sério, exits, para fechar um bocado o ciclo que é necessário em qualquer ecossistema. Empreendedores com sucesso e que estão a reinvestir.

Isso nota-se em tudo e, também na qualidade dos mentores que temos desde o início. No início, os investidores tinham uma mentalidade muito reduzida e tacanha, muito focada em Portugal. Só tínhamos um fundo verdadeiramente global. Há uma mudança muito grande.

E agora? A maior parte deles são estrangeiros?

Estrangeiros e nacionais. Começa a haver muitos empreendedores que já acumulam sucessos. Muita gente começa a dar que falar. Este ano é um ano de grande prova. Temos de estar prontos para continuar o esforço mesmo que haja muito más notícias – e pode haver -, é preciso continuar. Não estar só no empreendedorismo por uma excitação ou porque simplesmente é giro falar e aparecer nas notícias. Se bem que, para a maior parte das pessoas, também houve um hype exagerado. Muitas vezes há empresários, pessoas com imenso valor, que não são incluídas no grupo 'empreendedorismo', e não se fala deles. Portugal tem boas empresas há muito tempo: acho que estavam em setores mais tradicionais e hoje estamos a ir mais para sectores mais tecnológicos. E temos uma ambição mais global e uma lógica e mentalidade diferentes. Mas é preciso olhar para esta nova geração de empreendedorismo, não só de uma lógica global mas de uma forma séria e consequente. E não levar isto como uma buzz word. Precisamos de, cada vez mais, conseguir falar de assuntos mais complexos, mais técnicos. Insiste-se demasiado nas buzz words.

E isso pode levar a um afastamento de quem faz maiores negócios?

Acho que, se por um lado afasta alguma parte da população, por outro cria expectativas de que isto seja, de alguma forma, uma coisa milagrosa. E não é. Não é para todas as pessoas e vai ter um impacto limitado. Cria emprego mas, acima de tudo, cria emprego qualificado, cria marcas próprias e empresas que possam ter um valor acrescentado muito maior. É um tipo de economia que faz sentido em Portugal. Agora, estamos numa fase em que precisamos de saber como continuar a fazer crescer isto e como é que esta realidade pode contaminar o resto do país, o resto da economia nacional, todas as empresas.

A mudança de imagem da Beta-i teve a ver com essa transformação e contaminação?

A Beta-i faz várias coisas e o nosso modelo é um modelo misto. É um modelo integrado e baseia-se nas seguintes premissas: é importante haver uma comunidade de empreendedores, este talento. É preciso haver grandes empresas envolvidas e, claro, investidores interessados. E precisamos de criar iniciativas que fomentem a interceção destes stakeholders diferentes porque é nessa interação que se pode criar mais valor.

A nova imagem tem a ver com esta realidade. Esta evolução da marca, apesar de ter sido programada, acompanhou um crescimento de forma muito orgânica e incorporação de uma série de coisas. Fomos criando vários tipos de identidades e a Beta-i foi crescendo dentro desses espaços. Sentimos a necessidade de organizar isso. A maior parte das pessoas já não sabia o que é que era, quem é que fazia o quê. Quisemos criar uma identidade agregadora de todas as marcas e iniciativas do nosso universo e que tivesse uma plasticidade suficiente para que, como somos um bocado dinâmicos, para coisas que pudesse vir a acontecer.

 (Leonardo Negr‹ão / Global Imagens)
(Leonardo Negr‹ão / Global Imagens)

Novo vs antigo

A Indústria 4.0 é uma das bandeiras do governo e uma das denominações para o cruzamento entre startups e indústrias mais tradicionais. É possível fazê-las interagir?

As startups precisam de grandes empresas para arranjarem clientes, precisam de investidores para terem investimento, precisam da comunidade para recrutar talento. O que vamos sempre fazendo, e que está no nosso roadmap, é ter iniciativas que possam integrar estes stakeholders de uma forma que crie valor. Isto teve foi de ser gradual. Quais são as entidades? Eventos, programas de aceleração, consultoria, uma área de incubação e um fundo de capital de risco à parte, LC Ventures, no valor de 5 milhões de euros.

A ideia é ter startups que possam ter potencial e criar cada vez mais valor para as grandes empresas, de maneira a aproximar as startups das grandes empresas. Temos um funil: do lado dos empreendedores, começamos com pequenos eventos, masterclasses, programas de pré-aceleração, para tentar ajudar os projetos nas fases mais iniciais, como o Beta-start. Temos os programas de aceleração mais avançados, como o Lisbon Challenge. Temos espaço que acaba por ser uma forma de as pessoas estarem cá. E temos o fundo de investimento e uma rede de investidores. Isto é uma cadeia de valor, por isso no fim conseguimos apoiar os nossos projetos.

Ainda há muita desconfiança? Por que é que este processo é tão lento?

Acho que tem a ver com várias questões. Por um lado, estes novos projetos que nascem com uma raiz nas novas tecnologias podem servir áreas mais emergentes e há projetos novos que também podem aparecer nas economias mais tradicionais. O que pode acontecer é a economia tradicional ter de se reestruturar. E os grandes impedimentos estão, eu diria, a dois níveis: o cultural, porque há aqui uma necessidade de passar para novas gerações, que tendem a ser mais abertas e, o de capitalização. Há falta de capital para reestruturação destas áreas da economia mais tradicional. E podem perceber que podem inovar também através das startups. É isso que a Beta-i tem tentado fazer.

Do lado das empresas, percebemos que viam muito valor nos programas de aceleração e, também elas testavam as metodologias naquilo que lhes estava a acontecer. Através do contacto connosco, perceberam que era uma forma fantástica de eles poderem facilitar os próprios processos de inovação. Portanto na área da inovação, temos um conjunto de iniciativas para que, cada vez mais, possam estar disponíveis para trabalhar com as startups e com os programas de aceleração.

As grandes empresas inovam através das startups, e as startups conseguem, através das grandes empresas, grandes clientes. Mais importante do que investimento, é importante ter grandes clientes. Para as startups, ter bons clientes faz com que se consiga gerar dinheiro mais facilmente.

Qual seria o objetivo fundamental e mais imediato para o sucesso de uma startup?

É preciso faturar o mais rapidamente possível. Sem ganhar dinheiro, na Europa é mais difícil sobreviver. O investimento é menor, não há fundos de capital de risco a financiar tanto, esses deals na Europa são muito mais baixos. O seed está a crescer muito no primeiro trimestre porque a Europa cresceu mais em early stage do que os Estados Unidos. Mas como não existe essa realidade, é bom fomentar que as empresas consigam faturar rapidamente. A nossa estratégia a reter com estes programas tem muito essa particularidade. Há cinco anos tentámos logo fazer um programa de aceleração grande com fundos de investimento mas o mercado não estava pronto. Tentámos ir mais devagar.

Qual é a área fundamental de atuação da Beta-i depois desta evolução?

A área principal é a de aceleração - Lisbon Challenge -0 e, cada vez mais, os programas verticais. O Protechting da Fidelidade, Smart Open City, entre outros. Temos um roadmap com cinco ou seis programas verticais em pipeline, e o objetivo é fazer um por trimestre. Pegar numa indústria que seja relevante, segmentar. Alguns deles – Deloitte e Fidelidade – são projetos para continua. A Fosun gostou bastante da experiência, quer repetir e alargar para outras áreas do grupo, com uma lógica mais europeia. Acreditámos nisto e, para lá chegar, vamos cimentando os projetos passo a passo e, obviamente, sempre aprendendo. Temos vários programas verticais mas já tinhamos feito verticais na pré-aceleração. Turismo, indústrias criativas. É preciso ir ganhando competências, acesso a recursos, e ir acompanhando os projetos desde o início.

Criámos quase 600 projetos: cerca de 200 no Lisbon Challenge, no Beta Start 420. Destes, mais de 100 estão ativos e temos uma rede de alumni em que apoiamos essas empresas, essencialmente em três coisas: acesso a investimento, a novos clientes e outras redes e no acesso a visibilidade. Faz parte do programa. No fundo, apoiamos as startups em que acreditamos mais. Podemos investir os primeiros 50 mil euros e fazer um reforço de mais 150 mil, numa segunda ronda, que tem de ser em co-investimento. Porque sentimos que muitas empresas – startups – precisavam de um investimento mais rápido antes de receberem a ronda de investidores e este fundo permite alinhar interesses entre nós e as startups.

No início, o nosso objetivo era conseguirmos contribuir o mais possível para que o ecossistema crescesse. E, para crescer no início, era preciso que acontecessem muitas coisas, muito barulho, muitos mentores e eventos. E foi isso que fizemos. Estamos agora a caminhar para profissionalizar, mais qualidade do que quantidade. Sendo que é preciso um rácio de quantidade para conseguirmos ter alguma qualidade.

Nos nossos programas trabalhamos com 6 a 10% das startups que se candidatam e estamos a pensar investir numa lógica de entre 0,5 a 1%. Já investimos em três, uma holandesa e duas portuguesas.

A repercussão de um dos vossos eventos anuais, Investors Summit, é enorme. É este o vosso foco neste momento?

Focámo-nos no Lisbon Investment Summit como o grande evento por duas razões fundamentais. A primeira, o investimento, porque achámos que era a área mais crítica e quisemos de facto arranjar uma plataforma que trouxesse a Portugal, de uma forma repetitiva, os investidores essenciais para poderem investir nas startups. A segunda, a relação com estes investidores: muitos dos que estão agora a investir são pessoas com quem começámos a falar há seis anos. Há seis anos não vinham, dois anos depois começaram a vir às vezes e, há dois anos, começaram a vir com alguma regularidade. Isso é essencial, e começámos a focar-nos em formatos e em nichos que achámos que eram os mais importantes para esta nova fase. Quisemos manter o espaço e ter cada vez mais um programa de relevância a nível internacional, temos tido o acelerador mais dinâmico mas queremos ter cada vez mais resultados. E agora o que estamos a tentar é passar para uma lógica de investimento no Lisbon Challenge e focar, cada vez mais, nesta relação com as grandes empresas. Porque criando valor para as empresas, há um modelo de negócio alternativo.

 (Leonardo Negr‹ão / Global Imagens)
(Leonardo Negr‹ão / Global Imagens)

O que fazemos é algo complexo enquanto indústria: há dois ou três grandes players mundiais que funcionam muito bem - o Ycombinator, TechStars e o 500 Startups. São muito focados na lógica de investimento, são quase fundos com aceleradores, é difícil montar um modelo desses. Depois há outros que são apoiados por empresas, multinacionais, ligadas a empresas como a Google e a Microsoft, projetos de inovação com muito dinheiro. E depois projetos ligados aos governos. Organizações independentes como a nossa não há muitas mas são desafiantes. Estes programas de aceleração têm de encontrar sustentabilidade na forma como criam valor para as grandes empresas e para as startups. É esta a fase em que estamos e, a fase seguinte é de investimento. Não para competir com outros investidores mas podemos estar mais alinhados em termos de interesses, com as startups que apoiamos.

Como encara a estratégia para o empreendedorismo nacional, Startup Portugal, criada e implementada pelo governo?

A Beta-i esteve ligada ao início da Startup Portugal. Eu, pessoalmente, participei na primeira reunião, em 2011, em que fez uma call mundial para ajudar países ou regiões a replicar o modelo da Startup Chile. Foi um grupo que nasceu e foi crescendo. Fomos olhando para imensos exemplos a nível mundial do programa nacionais de apoio ao empreendedorismo e começámos a estruturar aquilo a que se chamou Startup Portugal. Houve uma tentativa de negociar isso com o governo anterior, chegou a ser anunciado pelo ministro da Economia, mas depois não se conseguiu encontrar um modelo que tivesse um equilíbrio entre o sector público e o sector privado. Na altura, o que acreditávamos era que devia estar mais no sector privado e que o governo deveria apoiar.

O modelo era parecido ao que está, muitas das iniciativas estavam lá, mas acho que hoje estamos numa realidade diferente da que tínhamos em 2011. Há coisas que podem fazer mais sentido agora, e outras menos. Estas iniciativas, para existirem, precisam de um apoio forte do governo. Acho que é importante o governo estar a levar isso para a frente, acho que a marca Startup Portugal é importante, mas há sempre uns desafios. Quando hoje pensamos em desenvolvimento económico, qual é a dimensão crítica territorial que faz sentido trabalhar? E muitas vezes são as regiões, sendo que as cidades são mais fáceis de trabalhar do que as regiões. Mas faz sentido trabalhar como país porque um país como Portugal tem todas as condições para de facto funcionar de forma mais agregada. De facto, muitas das coisas que fazem com que as coisas não funcionem melhor é todos estarmos desarticulados, por isso é tão importante haver uma união em torno de certos conceitos.

Qual é o papel de um governo na promoção e incentivo de um ecossistema como o empreendedor?

Os players devem ser os promotores da mudança, o governo deve estar ao lado para facilitar, e deve haver alguns conceitos agregadores para sabermos com o que estamos a falar, é uma equação que às vezes não é fácil de criar.

Vejo o programa Startup Portugal como uma boa evolução. Acho que muitas das medidas eram coisas que já se tinham, com outros nomes, mas mais agregadas e com coisas que fazem sentido. É preciso criar massa crítica e densidade para as pessoas poderem ter outro tipo de escala e impacto.

Gosto muito das iniciativas fiscais que facilitam que os privados possam arriscar e sejam beneficiados com isso. Que haja benefício para as pessoas que correm esse risco. Prefiro isso a modelos de coinvestimento ou de investimento direto. O Estado deve funcionar primeiro como incentivador da parte fiscal, para trazer privados a investir. Deve criar os incentivos para que os privados tenham iniciativa. Acredito que isso é mais eficaz pelos estímulos. Mas, num país como Portugal em que ainda não há muita gente com dinheiro, há imensos problemas culturais, às vezes por mais incentivos fiscais que se façam pode não resultar. Em momentos de crise, politicamente pode ser complexo criar estímulos excessivos do lado fiscal. Investimentos privados caracterizam sistemas mais líquidos, ou seja, permitem que, a qualquer momento, qualquer privado possa aparecer, criar o seu fundo para investir diretamente e ter o seu benefício. Não faz com que haja uma consagração de esforços no momento que depois cristaliza demasiado. O Estado deveria funcionar mais como fundo de fundo, portanto, primeiro com incentivos fiscais, depois como fundo de fundo e só numa terceira alternativa, investidor direto.

Pelo que percebo no plano da Startup Portugal, grande parte das medidas vai para a Portugal Ventures. Não sei se isso pode ou não desvirtuar o funcionamento de um capital de risco puro mas eventualmente pode funcionar. Basicamente é dar instrumentos que estavam noutros sítios. Medidas como os vales de incubação são benéficas porque é bom haver estímulos ao início para os empreendedores arrancarem. Há muitas barreiras ao início e muitos não conseguem. Mas preferia que os vales permitissem uma maior liberdade para que os empreendedores possam gastá-los onde de facto precisam e não na contratação de serviços de terceiros. Tem de se ter cuidado com os incentivos que se criam porque podem tornar-se perversos. Defendemos esse modelo em que os empreendedores devem investir em competências próprias mais do que nesses serviços.

Como é que Portugal é visto, neste momento, lá fora?

Portugal tem cada vez mais de mostrar que está unido e forte e coerente, quando estamos a falar precisamente para fora. Por dentro é importante mas é muito importante que, por fora, estejamos unidos. Israel é um país interessante porque quando se está fora ninguém diz mal uns dos outros. Parecem uma equipa de rugby, e nós temos de ser assim. A Startup Portugal pode criar isso.

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