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Perfil do fazedor. De que massa são feitos os nossos empreendedores?

Persistência e liderança são consideradas características fundamentais.
Persistência e liderança são consideradas características fundamentais.

Não é a idade. Não é o género. O curso também pouco importa. Tão-pouco a cor do cabelo ou dos olhos. O partido político não tem importância alguma, o prato favorito não interessa, nem as sopas que comeram enquanto eram miúdos. Podia pensar-se que era a altura, a religião, a educação. Mas não.

O tipo de música, os livros na mesa de cabeceira, a nota naquele exame são também pouco relevantes. Não interessa o nome dos pais, o sítio onde disseram a primeira palavra ou o primeiro avião onde entraram. Pouco importa o sotaque, se falam com as mãos, se escrevem com abreviaturas. Um fazedor é uma mistura de muita coisa, uma receita sem guião. Há, no entanto, ingredientes comuns, assegura quem conhece muitos, de muito perto. Agora, de que matéria são feitos os sonhos realizados? De fazedores. E de que são eles [fazedores] feitos? De tudo.

Leia mais: 50 mandamentos dos fazedores

Fazedor é quem executa

Quem pensa [uma ideia] e faz [concretiza-a]. Inês Santos Silva, cofundadora da Startup Pirates, que organiza semanas de formação para empreendedores em 16 países do mundo, diz que fazedores são “pessoas capazes de definir objetivos, idealizar projetos, mas que também têm a capacidade de os executar. São pessoas que sabem mobilizar recursos. Gosto muito da palavra inglesa resourceful, porque significa isso mesmo: alguém capaz de mobilizar recursos, definir um plano e executá-lo”, explica ao Dinheiro Vivo. Carlos Oliveira, diretor da incubadora Startup Braga, concorda. E alarga o âmbito a outras dimensões. “Não tem de ser necessariamente alguém que cria uma empresa. São pessoas focadas em atingir resultados e em fazer acontecer, independentemente do local.”

“É alguém que, ou olha para o mundo que o rodeia, pensa a realidade de outra forma e cria algo novo ou com uma nova abordagem ou, por outro lado, alguém que olha para o mundo e identifica uma necessidade a que consegue dar resposta”, descreve Graça Fonseca, vereadora da inovação e empreendedorismo da Câmara Municipal de Lisboa.

Fazedor é quem persiste

Resiliência, persistência, determinação. Um fazedor é, também, um conjunto de vontades. “Há pessoas que olham para as regras e cumprem-nas. Outras que olham para elas e interpretam-nas. Um empreendedor é, por regra, indisciplinado e muito emocional. Alguém que funciona sempre contra as regras. O que acontece é que, depois, rodeia-se e contrata alguém mais metódico para gerir a empresa”, diz João Vasconcelos, fundador e diretor da Startup Lisboa. Carlos Oliveira acrescenta. “É alguém que tem ambição e que sabe que pode fazer mais para alcançar aquilo em que acredita. Tem a capacidade de olhar e de vencer as adversidades. E que, nos momentos menos bons, tem capacidade de resistência e a certeza de que pode vencer, a convicção de que amanhã será outro dia.” Tiago Vidal, cofundador da GO Youth, uma das maiores conferências de empreendedorismo em Portugal, acrescenta: “Se há coisa que faço é tentar de todas as maneiras alcançar o objetivo”, conta o estudante de 20 anos que, nesta edição, traz a Portugal 20 oradores internacionais, incluindo o fundador do 9GaG.

Leia mais: Encontre-se com o fundador do 9GaG em Lisboa

Fazedor não tem medo

Quando se arrisca, a coragem não chega. “Em algumas situações, um fazedor age face a um total desconhecimento… e, às vezes, corre bem”, explica João Vasconcelos, da Startup Lisboa. Miguel Ribeiro, diretor da Zomato em Portugal, assegura que o nosso país assiste ao crescimento de uma geração atenta ao ambiente que a rodeia e que sabe aproveitar o contexto a seu favor. “Valorizamos as oportunidades que nos dão e entregamos a nossa paixão ao negócio. Muitos portugueses assumem o trabalho como um estilo de vida e não como um emprego, o que nos dá a vantagem extra de estar sempre ligados.” Carlos Oliveira fala noutra característica “muito portuguesa”: desenrascanço. “Face às dificuldades, os empreendedores portugueses são capazes de encontrar soluções fora do quadrado, o que, muitas vezes, é um fator diferenciador.”

Fazedor é quem lidera

“Deve ser um líder, uma inspiração para os seus seguidores, uma pessoa que dá o exemplo e não pede nada que não fizesse ele próprio também”, explica o diretor da Zomato. Miguel assegura que ser fazedor é “ter a capacidade de “sujar as mãos”, de fazer o que é preciso para conseguir algo épico”. Por isso, a noção da realidade é, também, um fator distintivo. “Valorizar, acreditar e reconhecer a sua equipa. Lutar pela sua equipa e estar sempre disponível para os servir, pois terá sempre de ser um inspirador, formador e replicador de outros líderes, só assim terá a base para crescer também.

Fazedor é global

Apesar de haver características comuns à maioria dos empreendedores, João Vasconcelos diz que há uma que distingue os portugueses – e, de uma maneira geral, os europeus – dos fazedores asiáticos ou norte-americanos: a visão. “É difícil encontrar na Europa fazedores que queiram mudar o mundo. Ainda existe alguma falta de ambição: as empresas são pensadas muito na ótica B-B, num regime de prestação de serviços a outras empresas. São poucos os fazedores europeus que trabalham com ambição global, que querem mudar o mundo”, diz. Falta passar da ideia à prática. Falta fazer. Vamos a isso?

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